Kishore Mahbubani: "Não há qualquer razão para o islão invadir a Europa"

Ex-diplomata de Singapura e académico, Kishore Mahbubani considera que o Ocidente não está atento ao desenvolvimento dos países asiáticos nem aos ensinamentos pragmáticos de Maquiavel. Um ensaio perturbador sobre o choque - ou não - de civilizações.

O nome de Kishore Mahbubani será quase desconhecido em Portugal mas o recente ensaio que publicou em língua portuguesa poderá alterar essa realidade a um diplomata de Singapura, autor de vários livros e artigos nos principais órgãos de imprensa mundial. Intitulado A Queda do Ocidente? a que se acrescentam as palavras Uma Provocação. Sim, é isto que se pode dizer do conteúdo deste ensaio que anuncia o fim do predomínio ocidental perante os países da Ásia que lideraram o mundo até há 200 anos e que, na sua opinião, irão recuperar em muito esse estatuto na próxima década. A China e a Índia são os dois principais exemplos, mas não deixa de designar mais uma meia dúzia de países asiáticos que estão com um desenvolvimento em muito superior ao da Europa e dos Estados Unidos. Não será por acaso que recupera alguns dos ensinamentos de Maquiavel nem que considera o livro de Francis Fukuyama, O Fim da História, como o maior soporífero para a civilização ocidental após o fim da Guerra Fria. São pouco mais de cem páginas, que merecem leitura.

Colocar em título A Queda do Ocidente e referir que a resposta é simples é mesmo Uma Provocação. Considera mesmo que o Ocidente se sente perdido?

É um livro pequeno quando comparado com os anteriores, mas o que quero enfatizar é que estamos numa nova era da humanidade, caracterizada pelo regresso da China e da Índia ao primeiro plano, como aconteceu entre o ano 1 e 1820. Estas economias eram as principais e só nos últimos 200 anos é que a Europa e depois os Estados Unidos ganharam dimensão. Durante esses dois séculos, a história foi uma aberração e, por isso, terá um fim natural.

Será causado só por estes dois países?

Não, com eles vem o resto da Ásia. As previsões oficiais mostram que em 2025 as quatro principais economias mundiais serão, em número um, a da China, seguida da Índia, depois os EUA e o Japão. Ou seja, três estarão na Ásia.

Os países do G7, viu-se há pouco, não parecem muito preocupados.

Creio que em privado estarão, no entanto o G7 já foi substituído pelo G20 e ninguém liga muito aos primeiros. É sinal de que o mundo mudou, mesmo que o tempo ainda seja o de os chefes do Fundo Monetário Internacional ou do Banco Central serem europeus ou americanos e nenhum asiático seja considerado para o cargo. Regra que será alterada quando a economia for dominada pelo Oriente. Aí, os ocidentais terão de ceder e permitir que os asiáticos tomem lugar.

Por isso é que acha positivo que países pequenos como Portugal tenham eleito António Guterres para secretário-geral da ONU?

Sim, o facto de ter um português nesse cargo cria uma oportunidade excelente para a Europa - os americanos têm dificuldade em entender a importância das Nações Unidas. A União Europeia, pelo contrário, é uma organização multilateral e percebe que essa forma de se organizar produz benefícios em termos de paz e prosperidade. É uma oportunidade histórica a eleição de Guterres para fazer os EUA mudarem de opinião, apesar da resistência de Trump.

Porquê o desrespeito pelas Nações Unidas?

A ONU é uma instituição boa para os EUA, como refiro no fim do livro ao citar o presidente Clinton em 2003, quando especula sobre a ideia de a América achar que será número um para sempre e avisa que não é previsível. É melhor pensar num tempo em que esse estatuto vai ter um fim e a Europa poderá ter um papel. Sabemos que a América tem sido muito boa para a Europa, especialmente desde o fim da II Guerra Mundial, e esta deve retribuir a generosidade educando os americanos para os benefícios do multilateralismo ocidental. Afinal, só representa 12% do mundo e, sendo uma minoria, necessita de leis para se proteger futuramente.

Acredita que se é capaz de ensinar alguma coisa aos EUA?

Diria que com Trump será muito difícil, mas é preciso pensar nos líderes e nas gerações futuras dos EUA.

Usa muitos textos de Maquiavel. Gosta do seu pensamento?

Estudei Filosofia e percebi que Maquiavel tem sido muito mal interpretado. Para os investigadores americanos ele é um representante do mal - com o que não concordo. Isaiah Berlin já esclareceu que o objetivo de Maquiavel era promover a virtude através do pragmatismo, um espírito que os europeus já perderam. Por exemplo, o maior perigo para a Europa não está nos tanques russos mas na questão demográfica. Em 1995 a população europeia era o dobro da de África, hoje é o contrário e em 2100 será dez vezes inferior. Portanto, é do interesse europeu promover o desenvolvimento africano para manter a população no continente e o que vemos é que a China é que o está a fazer ao construir infraestruturas. Ou seja, a Europa e a China deveriam ser parceiras, no entanto como os EUA são contra o investimento chinês a Europa acompanha-os. Esse é um exemplo do pensamento de Maquiavel que a Europa não está a seguir.

Em 1993, já previra o êxodo dos refugiados pelo Mediterrâneo...

É verdade que afirmei há 25 anos que viriam cada vez mais barcos para a Europa. Diga-se que os franceses estiveram errados ao remover Kadhafi do poder, porque estes países precisam de transformações mais lentas e cuidadosas e não de intervenções que levam ao caos.

Refere no seu livro que entre o fim da Guerra Fria e o 11 de Setembro houve um abrandamento da inovação ocidental. Porquê?

Sim, nos últimos 30 anos o Ocidente cometeu muitos erros estratégicos. Confiaram no ensaio de Francis Fukuyama, em que este dizia que a história tinha chegado ao fim e o Ocidente podia ligar o piloto automático. Fukuyama só criou problemas ao Ocidente porque esse era o tempo de agir face a um Oriente que estava a acordar e a tornar-se competitivo novamente.

Foi o medicamento errado?

Sim, foi mais um ópio que adormeceu o Ocidente. O segundo erro foi no 11 de Setembro a América ter colocado como desafio o mundo islâmico e avançar na intervenção no Afeganistão e no Iraque quando o verdadeiro desafio mundial era a entrada da China na Organização Mundial do Comércio. Uma admissão que originou a entrada de 800 milhões de novos trabalhadores no sistema capitalista global. Um número tão grande causou a destruição de muitos empregos na Europa e nos EUA, tal como permitiu a eleição de Donald Trump.

Afirma que o Ocidente não respeita o islão, o que é muito perigoso. Qual vai ser o fim desta história?

O final vai ser feliz, porque a boa notícia é a de que o mundo islâmico vai modernizar-se e ser bem- -sucedido. É o caso da maioria dos países da Ásia com uma população de milhões, como a Indonésia, que não se tornaram uma "Jugoslávia" mas sim uma democracia e com um crescimento económico de 5% ao ano. É também o caso do Bangladesh, considerado perdido há 20 anos e que tem o mesmo nível de crescimento. O importante para os países árabes é aprenderem com a Ásia as melhores formas de crescerem, daí a quantidade de jovens bolsistas de Argélia, Tunísia ou Marrocos que estão a estudar lá.

Porque receia o Ocidente o mundo islâmico?

Creio que é uma irracionalidade o Ocidente recear o islão, principalmente porque não compreende que é responsável por muitos dos seus problemas. Um dos erros foi intervir militarmente em tantas sociedades muçulmanas e atirar--lhes tantas bombas. No último ano da presidência, Obama deitou 25 mil bombas sobre sete países. Quando o Ocidente bombardeia o mundo islâmico cria angústia e desespero. Deixem o islão ter sucesso.

E quando tiverem mais sucesso não "invadirão" o Ocidente?

Não. Só se invadem países quando existe benefício, no entanto, se estes puderem vender os seus produtos e terem um comércio próspero, essa não será uma boa estratégia. Podem obter tudo sem guerra, portanto não há razão para o islão invadir a Europa. Pelo contrário, não será uma invasão militar mas de migração, difícil de conter. Para o evitar, o melhor é desenvolver o islão em vez de o bombardear.

Para si não há um choque de civilizações?

Não acredito no choque de civilizações, antes numa fusão de civilizações. A seu tempo os países muçulmanos vão modernizar-se e tornar-se como os ocidentais: sociedades de consumo e focados na vida dos seus povos em vez de quererem exportar revolução ou bombistas suicidas.

Acredita numa ocidentalização?

Modernização não é ocidentalização. Os países asiáticos estão a ter sucesso porque ao modernizarem-se mostraram que não precisam da ocidentalização.

Diz que os atentados na Europa devem-se ao 11 de Setembro...

Sim, é desonestidade intelectual não aceitar que ao bombardearem-se países muçulmanos haverá gente irritada. Se 99,9% dos muçulmanos são pacíficos, o restante 0,1% é ainda muita gente e não deve ser hostilizada. Deve-se respeitar o mundo islâmico e ser sensível à sua personalidade.

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