Elsa Dreisig: "Queria ser cantora para os grandes papéis e deixaram-me!"

Elsa Dreisig, 27 anos, iniciou irresistível ascensão no circuito internacional de ópera desde que ganhou três prestigiados prémios em 2016. Este domingo, canta Mozart no Grande Auditório do CCB com a Sinfónica Portuguesa

Se tudo lhe correr bem, dentro de uma década Elsa Dreisig será uma das grandes sopranos do circuito mundial. E, claro, se fizer as escolhas corretas. Mas, pelo que lhe ouvimos, ela parece deter a confiança, a determinação e a tranquilidade para não "falhar" esta projeção.

Este domingo, canta pela primeira vez em Portugal, num concerto com a Sinfónica Portuguesa, no CCB (17.00), inteiramente preenchido com obras de Mozart, compositor, aliás, sobre o qual tem ideias muito próprias: "Irei cantar bastante Mozart no próximo par de anos. Mozart é muito importante vocalmente, mas penso que subestimamos o quão difícil é. O particular em Mozart é que é uma música que sempre "põe a nu" se a tua voz está saudável ou não, porque não dá para "mentir" naquela música, não dá para usar "truques" - tudo tem de ser e de sair puro, natural e com absoluta sinceridade, ou a música não fará sentido para mim." Deixa por isso o aviso, sobretudo aos jovens como ela: "Mozart pode não ser bom para toda a gente e nem todos o devem cantar. Cada um tem de se ouvir, e ter a sensibilidade para perceber se Mozart corresponde verdadeiramente ao seu "instrumento"."

Berlim deu-me a "chance" de cantar a Pamina, deu-me oportunidade de provar que merecia ser ouvida, que não era só mais uma cantora banal para papéis secundários. Não, eu queria ser cantora para os grandes papéis e eles deixaram-me!

De mãe dinamarquesa e pai francês, ambos cantores, Elsa fez a sua formação em França e em Leipzig (Alemanha). Decidiu ser cantora profissional aos 17 anos e logo aí, declara, "sabia que queria almejar a excelência; queria ser uma cantora excecional, era essa a ambição que sentia em mim. E é-o ainda."

Berlim dá a mão a Elsa

Desde o início de 2016 integrou o Estúdio de Ópera da Staatsoper de Berlim, cuja companhia residente passou a integrar com a temporada 2017-18: "Foi o cumprir de um sonho. Berlim deu-me a "chance" de cantar a Pamina [Flauta Mágica], deu-me oportunidade de provar que merecia ser ouvida, que não era só mais uma cantora banal para papéis secundários. Não, eu queria ser cantora para os grandes papéis e eles deixaram-me!"

Mas já no momento em que cumpria esse sonho, Elsa sabia bem o que queria: "Mesmo sendo a Staatsoper e mesmo sendo Berlim, não posso restringir-me a um teatro, pelo que logo ali deixei isso bem claro e tive a sorte de eles terem aceitado "gerir" um regime em que eu faço parte do ensemble, mas tenho liberdade para integrar todos os anos produções noutros teatros." E bem generosos são, pois, como nos diz, "este ano, vou estar dez meses fora de Berlim: saio em breve para Paris, daí para Zurique, daí para Londres, daí para a Dinamarca e daí para a Coreia do Sul, só depois Berlim!"

Continuar ligada à Staatsoper no futuro, diz, "por um lado, far-me-ia feliz e seria confortável, porque seria a minha "casa" artística e tenho um apartamento em Berlim e sinto-me muito bem naquela cidade. Portanto, seria prático e, de certa forma, relaxante. Mas só poderei cantar lá o mínimo, pois quero ter uma carreira mundial."

A carreira internacional

Além da Staatsoper (vários papéis), também as óperas de Paris (onde foi Lauretta e Pamina) e de Zurique (Musetta) e o Festival de Aix-en-Provence (Micaeëla) são "casas" habituais para Elsa: "Vou regressar a Zurique para a Manon [Massenet], que é um papel muito importante para mim, e a Paris para a minha estreia no papel de Zerlina [Don Giovanni]."

Mas o que anuncia para as próximas duas temporadas é deveras impressionante: "Vou-me estrear na Royal Opera House [Londres], cantando a Pamina [Flauta Mágica]; tenho projetos com a Sinfónica de Londres e maestro Simon Rattle e com a Filarmónica de Berlim e maestro Daniel Barenboim; vou fazer a minha estreia asiática na Coreia do Sul e a estreia nos Estados Unidos, daqui por dois anos, com um concerto em Nova Iorque. Existe também a possibilidade de ir ao Festival de Salzburgo."

Um outro projeto que muito a entusiasma, já, levá-la-á de novo a Paris: "Irei cantar a Elvira, dos Puritanos [Bellini] na Ópera da Bastilha. Estou empolgada, pois é um importante papel do belcanto e eu quero começar a deixar a minha marca nesse repertório. É o grande papel no horizonte!" Mas não fica por aí o belcanto: "Também há uma Gilda [Rigoletto] planeada e uma Violetta [Traviata], portanto, vários projetos, o que é ótimo, pois é um dos meus repertórios prediletos e dos melhores de cantar para uma voz como a minha."

Surpresas na estreia em disco

Elsa deu o título de Miroirs ao seu primeiro CD: árias relacionadas com espelhos, e pares de personagens que permitem reflexões entre si. "A ideia surgiu-me numa reunião de brainstorming", recorda. "Depois, claro, houve que conciliar o mais popular com o menos conhecido. E até tivemos a contribuição de uma equipa de "caçadores de raridades" do repertório! [as duas árias de Julieta, em primeira gravação mundial]"

Uma das raridades, mas que não precisou de "caçadores", é a Cena Final da "Salomé", de Richard Strauss [papel feito geralmente por sopranos com vozes "grandes"], na versão francesa preparada pelo próprio autor: "Isso foi um amigo meu que me disse, um ano antes de eu a gravar, quando soube que eu adorava tudo o que tem a ver com a Salomé. Nem queria acreditar! Senti aquilo como um sinal, porque eu sempre quis cantar aquela cena, não sei porquê, como se estivesse destinada a fazê-lo!"

Em retrospetiva, não esconde que "foi a coisa mais desafiadora que alguma vez fiz e claro que me "fiquei" pela Cena Final!" Razão primordial, o facto de "a orquestra ser tão grande que eu não conseguia ouvir a minha própria voz. Em palco, claro que não, mas nem no estúdio de gravação!" A sua "profilaxia" foi "confiar que o público te está a ouvir e confiar nas sensações que experimentas ao cantar. Sobretudo, não começar a "puxar" pela voz." Algo que, confessa, "é fácil dizer mas difícil de executar..."

E essa nem é a única surpresa, considerando que ela é soprano lírico. "Quis mostrar toda a largura da minha flexibilidade vocal. Detesto a mania de se pôr os papéis em "caixinhas" vocais, catalogar e compartimentar tudo. Para mim, não há "tipos" de voz, há sim sensibilidades, há a noção do que a tua voz pode dar e pode fazer, deves atentar a isso e respeitar o que a tua voz te "diz". O resto é uma questão de gostos."

Porém, algo mais a move: "Eu prefiro sempre ser surpreendida, por isso admiro cantoras como Renée Fleming ou Anna Netrebko - cantoras que sempre fogem ao convencional. E eu quero ir por aí: não fazer o que os outros esperam que eu, uma cantora francesa, jovem - e loura até, sei lá! (risos) -, faça. Não gosto de limitações. Não as compreendo, nem as aceito."

Elsa em português

Um outro disco inclui-a como convidada especial: o CD Bach Inspirations, do guitarrista francês Thibaut Garcia, no qual canta... em português: "Eu adoro guitarra e, na verdade, há muito que queria cantar o Villa-Lobos [Bachianas Brasileiras, n.º 5]. Tive a ajuda de um brasileiro amigo do Thibaut e eu quis que ele estivesse nas sessões de gravação, para me certificar de que não adulterava a pronúncia correta ao cantar, porque isso iria afetar a "alma" daquela música. Gosto de fazer tudo a 100%, por isso também a língua tinha de ficar a 100%." No final, ficou um "bichinho": "Sabe, adorei a sonoridade, para mim é uma das mais belas línguas que já ouvi!"

O futuro da sua voz

Em relação à sua evolução, de novo ideias muito claras: "Por um lado, quero fazer o repertório que mais gosto e que mais se adequa à minha voz. Por outro lado, conquanto creia que irei permanecer no repertório de soprano lírico nos próximos anos, estou convencida que a minha voz virá a evoluir para o lirico spinto [soprano lírico capaz de papéis mais pesados e dramáticos]." E aqui entra a sua herança escandinava: "Tomo por referência as vozes de Birgit Nilsson e de Nina Stemme [ambas suecas]: quando ouço a Nilsson, sinto sempre o spinto na voz dela e isso "ressoa" muito mais com as minhas cordas vocais. Por isso, sim: mais dramático, mas na direção do spinto."

Regresso a Lisboa?

"Oh, adoraria regressar!", diz de imediato - "Fiquei muito impressionada com o Teatro São Carlos e dar-me-ia grande felicidade voltar, pois também me estou rapidamente a apaixonar por Lisboa! Todos me "avisaram" sobre isto e sobre os portugueses serem muito simpáticos - e é tão verdade! Até a minha agência achou por bem pôr os pontos nos "i" e comunicar-me que eu tinha de voltar para Berlim [canta a ópera Violetter Schnee, de Beat Furrer, em estreia mundial] logo após o concerto aqui!... Irei, claro, mas com a sensação de que este é um 'torrão" muito especial do mundo. Em resumo: não há nada marcado, mas espero muito poder voltar a cantar aqui. Vamos ver."

Elsa Dreisig canta Mozart

Intérpretes: Elsa Dreisig (soprano), Orquestra Sinfónica Portuguesa/Daniel Cohen

Grande Auditório do CCB, dom., 20, 17.00

bilhetes dos 5 aos 22 €

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