"Joker" ganha Leão de Ouro em Veneza e "A Herdade" também foi distinguido

O filme de Todd Phillips ganhou o Leão de Ouro do famoso festival. "A Herdade", de Tiago Guedes, obteve um prémio da crítica, o "Bisato d'Oro".

O Festival Internacional de Veneza terminou este sábado, com o anúncio da entrega dos prémios. Os galardões máximos foram deixados para o fim, a partir das 20:00 (19:00 de Lisboa), com a entrega do Leão de Ouro a Todd Phillips, pelo filme Joker. O realizador agradeceu a toda a equipa, destacando o papel de Joaquin Phoenix, o ator principal.

Roman Polanski recebeu o grande prémio do júri, o Leão de Prata, com o filme J'accuse. Roy Andersson foi distinguido pela melhor realização com filme About Endlessness.

Os atores premiados, dois italianos, aproveitaram o momento para destacar os refugiados e todas as pessoas que são obrigadas a deixar os seus países. Luca Marinelli recebeu o prémio de melhor ator pelo filme Martin Eden. Terminou o discurso com uma dedicatória: "Dedico o prémio a quem está no mar a tentar salvar vidas. Viva a humanidade, viva o amor!".

No mesmo tom, Ariane Ascaride, prémio de melhor atriz pelo filme Gloria Mundi, recordou a sua vida de imigrante em França, salientando que o galardão lhe dava a oportunidade de se reencontrar com as suas raízes. "Estou a viver um sonho. Sou a típica imigrante italiana à procura de uma vida melhor, que fugiu à miséria e recomeçou em Marselha (França)", disse. Dedicou o galardão a todos os que acabam por ficar no fundo do Mediterrâneo.

A Herdade com prémio dos críticos

O filme português A Herdade, de Tiago Guedes, também esteve em concurso, e foi distinguido com o Prémio Bisato d'Oro de Melhor Realização atribuído pela crítica independente do festival de cinema de Veneza, um júri paralelo ao festival, facto que mereceu uma saudação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

"Épico intimista, entre o melodrama e o imaginário do 'western' tardio, filme em diálogo com algum cinema clássico e moderno, nomeadamente o italiano, A Herdade'é uma história do Portugal contemporâneo contada a partir das vicissitudes de uma família de proprietário rurais do sul do país", descreve o Presidente, na mensagem de felicitações.

O Bisato d'Oro (Enguia de Ouro) é um prémio paralelo aos galardões oficiais do festival de Veneza, atribuído por um júri independente presidido por Paolo De Cesare, distinto igualmente dos prémios da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci).

"Uma obra de espaços, de tensões de não-ditos, de personagens fracas e fortes, contraditórias, que mantém uma memorável sobreposição entre os traumas privados e as mudanças políticas, e que manifesta além do mais a diversidade do cinema português", sublinha ainda Marcelo Rebelo de Sousa, sobre a nova longa-metragem de Tiago Guedes.

As hipóteses do filme português ser selecionado para um prémio voltam a abrir-se no Festival de Toronto para onde irá a equipa na semana que vem e onde A Herdade está na prestigiada secção Special Presentations, em Toronto, e, segundo o DN sabe, certos distribuidores norte-americanos estão interessados em adquirir o filme. Este ano tem sido positivo para o cinema português. O Leopardo de Ouro de Locarno foi ganho por Pedro Costa com Vitalina Varela.

O filme A Herdade narra a história de uma família portuguesa numa herdade ao sul do Tejo ao longo de mais de 40 anos, do período antes do 25 de Abril até quase aos nossos dias, abarcando temas como o incesto, adultério e outras especificidades de um melodrama que com a serenidade dramática de Guedes ganha um peso de saga universal. A Herdade foi bem acolhido em Veneza. Teve uma ovação de pé, de largos minutos e a imprensa internacional também ficou muito bem impressionada. O Der Spiegel falou de um «épico candidato ao Leão de Ouro. O realizador Tiago Guedes mostra em Veneza o declínio de uma dinastia portuguesa liderada por homens. A interpretação concentrada de [Albano] Jerónimo brilha entre a arrogância de [Marlon] Brando e a contenção brutal de Alain Delon. É uma revelação», disse Andreas Borcholte.

No Screen Daily , falava-se do filme como "correndo profunda e lentamente como o rio Tejo." A Herdade de Tiago Guedes "é uma saga familiar portuguesa com quase três horas de duração que se constrói a partir de picos dramáticos e de um notável retrato de um patriarcado feudal a ser devorado pelas circunstâncias que o rodeiam. O filme cresce em autoridade e poder, graças à presença magnética de Albano Jerónimo como um belo mas desdenhoso proprietário, com um complexo de superioridade mas profundamente ligado à sua terra. É precisamente o mito do macho dominante que o filme gradualmente desconstrói. E fá-lo também graças a outra impressionante interpretação, a de Sandra Faleiro, Leonor, a esposa de João. A realização de Tiago Guedes é comedida e controlada durante todo o filme, e as contribuições técnicas são impressionantes, desde a montagem rítmica e lenta de Roberto Perpignani, até aos figurinos e ao desenho de luz." A crítica era assinada por Lee Marshall que dava 4 estrelas ao filme.

Portugal pode ter aqui um verdadeiro candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, embora a Academia portuguesa ainda não tenha decidido se é este o filme a propor. Tiago Guedes, em declarações ao DN, revelava a sua satisfação com a nomeação em Veneza. "Acho que o filme, apesar de ser altamente português e de falar de um certo tempo e momentos muito nossos, retrata situações e emoções bastante universais. Acredito que a história e as personagens, a questão das heranças afetivas, as mudanças sociais, as dificuldades de entendimento entre as pessoas, são todos temas universais."