John McEnroe, o Mozart do ténis

O que tem o cinema que ver com o ténis? Julien Faraut explica, através do documentário John McEnroe: O Domínio da Perfeição, Grande Prémio do Júri na última edição do LEFFEST. Já está nas nossas salas.

Há pouco mais de um ano estreou por cá a ficção Borg vs McEnroe, de Janus Metz, como o título sugere, baseada na mediática rivalidade entre os dois colossos do ténis; de um lado o fleumático sueco, do outro o impulsivo norte-americano. Nesse filme, o segundo era interpretado pelo ator Shia LaBeouf, que fez os possíveis por reproduzir no grande ecrã o famoso caráter tempestivo e irrascível do jogador dentro do campo. Se o conseguiu ou não, é outra história.

Seja como for, não há nada que se compare a ver o próprio John McEnroe, a cores, na textura das imagens de 16mm que agora nos chegam - e este é apenas um dos méritos do documentário de Julien Faraut, que nos faz olhar para o corpo do tenista como um "teatro do absurdo" que esconde uma "técnica sublime". As expressões, muito adequadas aqui, são do crítico de cinema Serge Daney, cujos escritos sobre ténis são citados algumas vezes ao longo do filme.

John McEnroe: O Domínio da Perfeição foca-se na personalidade vibrante e colérica do tenista em jogo, na sua relação com a imagem e, particularmente, no ano de 1984, quando estava no topo da carreira e perdeu a final do Torneio de Roland Garros para Ivan Lendl. Mas mais do que um retrato "naturalista" do génio de McEnroe, o que nasce desta montagem dinâmica de materiais de registo é um imersivo, inteligente e espirituoso ensaio documental que reflete sobre o desporto a partir do cinema e vice-versa. Teoria e prática. Psicologia e movimento.

Assim, logo a abrir, começamos por ver imagens a preto e branco de um filme instrutivo de ténis, sob o signo da epígrafe "o cinema mente, o desporto não". A frase é de Jean-Luc Godard, mas os cómicos efeitos sonoros que sublinham os gestos de um tenista-modelo no ecrã remete-nos para o estilo de outro cineasta: Jacques Tati. Como se naquela disciplinada demonstração técnica - que ensina como se pega na raquete, como se posicionam os pés, etc. - se pudesse vislumbrar o caos civilizado do protagonista de As Férias do Sr. Hulot no gag da partida de ténis em que este usa uma peculiar e arrasadora tática de jogo (era o número preferido de Tati). Porém, o tal pequeno filme instrutivo pertence ainda a outro realizador francês - não propriamente das lides cinéfilas -, Gil de Kermadec, que trabalhou na secção educativa da Federação Francesa de Ténis, sendo o responsável por filmagens que procuravam captar os movimentos precisos dos grandes jogadores mundiais, com o intuito de os estudar.

Foi de entre este abundante material de arquivo que Julien Faraut tirou a lata com a película referente a McEnroe e se lançou na análise sagaz da coreografia e dos gestos do tenista, revelando a sua forte consciência da presença das câmaras e o modo como este se tornava o verdadeiro "realizador" de cada partida, a barafustar com os detalhes do set (está longe de se assemelhar a um gentil Sr. Hulot, mas parte igualmente do caos para a perfeição...). Para sustentar tal ideia, recorre-se aqui a um refinadíssimo labor teórico, juntando à montagem visual uma voz off - de Mathieu Amalric - que vai abrindo a observação científica do desporto ao discurso cinematográfico. Tanto assim é que a determinada altura até o Amadeus (1984) de Milos Forman vem à baila: diz-se que para o seu papel do jovem Mozart, o ator Tom Hulce ter-se-á inspirado em John McEnroe, ou melhor, na sua persona em jogo...

Bem a propósito da erudição clássica, O Domínio da Perfeição é ele próprio um documentário que funciona como uma partitura de movimento meditado, com verdadeira toada de cinema e umas notas graves de técnica desportiva: fica provado que é possível juntar as duas coisas não apenas no papel, mas também no ecrã, e com uma beleza inesperada.

**** Muito Bom

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