Historiadores querem descobrir segredo da Guerra dos Tronos: Sansa e Tyrion estão casados?

As complexas leis canónicas medievais não ajudam a explicar aquele que será um dos enigmas para a oitava e última série de "A Guerra dos Tronos".

Casamentos e amor. Eis dois temas que no mundo de Westeros são complicados, tão complicados como as relações diplomáticas e de interesses que colocaram milhões de pessoas em todo o mundo frente a um ecrã para assistir às sete temporadas de A Guerra dos Tronos, uma das séries mais vistas, mais pirateadas e comentadas dos últimos anos.

A uma semana do início da oitava e última temporada - madrugada de segunda-feira 15 de abril no canal norte-americano HBO e em Portugal no canal por cabo Syfy - o site The Huffington Post foi tentar perceber se dois dos personagens principais que na terceira temporada foram obrigados a casar estão de facto ainda unidos pelo casamento. [atenção: a partir daqui o texto desvenda pormenores da série]

E não conseguiram uma resposta concreta. Pelo contrário.

As figuras em causa são Tyrion Lannister (interpretado por Peter Dinklage) e Sansa Stark (Sophie Turner). Na terceira temporada os dois disseram "sim", a pedido de Tywin Lannister (pai de Tyrion, morto mais tarde pelo filho). Uma imposição que não foi bem recebida pelos dois, nomeadamente por Sansa que era filha de Ned Stark, considerado traidor pela casa Lannister e que executado em público.

Apesar da discordância em relação à decisão de Tywin os dois acabaram por participar na cerimónia de casamento e até parecia que a união iria seguir pelas várias temporadas.

Nada de mais errado. Na luta pelo poder em Westeros - um continente localizado na parte ocidental do Mundo Conhecido desta história que é baseada no primeiro livro de George R. R. Martin da série de fantasia As Crónicas do Gelo e Fogo - Tyrion descobre que a sua família conspirou com as casas Frey e Bolton para assassinar o irmão de Sansa, Robb e a mãe Catelyn. Quando descobre, Sansa foge e deixa de confiar em quem a rodeia, principalmente no marido que tinha jurado "protegê-la".

A separação é definitiva quando no início da quarta temporada o rei Joffrey - o filho mais velho da irmã de Tyrion, Cersei, e suposto herdeiro de Robert Baratheon, o Rei dos Sete Reinos - é envenenado e morre. Sansa foge de Porto Real, a capital dos Sete Reinos e onde está o Trono de Ferro, o símbolo da liderança sobre Westeros.

Na sua fuga Sansa conta com o apoio de Petyr Baelish, também conhecido como Littlefinger, e que é uma espécie de tesoureiro do reino e uma figura que manipula muitas das personagens que vão passando pelas diversas temporadas.

E é com uma ação desta figura que começam a surgir dúvidas sobre o casamento de Sansa com Tyrion. Na função de "gestor" de relações entre famílias e de interesses Littlefinger organizou um casamento entre Sansa Stark e Ramsay (filho bastardo de Roose Bolton, Senhor do Dreadfort e antigo vassalo da casa Stark). Na noite de núpcias Sansa é violada por Ramsay que a vai maltratando ao longo de alguns episódios. Volta a fugir sempre com o objetivo de encontrar o irmão Jon e depois de uma batalha consegue ganhar o controlo da região norte de Westeros e vinga-se de Ramsay: atira-lhe os seus próprios cães que o devoram. E torna-se Senhora de Winterfall.

Mas está ou não casada com Tyrion?

Neste ponto voltamos à questão inicial: estão Sansa e Tyrion casados? Em Westeros os casamentos começam com uma cerimónia religiosa envolvendo a troca de votos na presença de uma testemunha sagrada que depende da fé do casal. Um septo para quem segue a Fé dos Sete; um padre ou sacerdotisa no caso dos crentes em R'hllor e uma árvore do coração de Godswood para os seguidores dos Deuses Antigos. Segue-se uma festa antes de o noivo e a noiva consumarem o casamento.

A questão é que o casal nunca o consumou a união pois Tyrion não achou honesto estar na cama com uma mulher que não confiava nele.

Perante esta dúvida que existe num mundo de fantasia - não esquecer que A Guerra dos Tronos se baseia na obra de George R. R. Martin - os historiadores ouvidos pelo The Huffington Post também não têm certezas, antes pelo contrário.

Nancy F. Cott, professora de História Americana da Universidade de Harvard, especialista em história do casamento, acredita que é simples. "Na lei eclesiástica, a Igreja diria que são casados​ ​um com o outro para sempre desde que se comprometam e consumam o casamento com o sexo".

Mas, um especialista em história medieval, no entanto, dá uma resposta muito diferente. "A consumação não era necessária para o casamento", defende Ruth Mazo Karras, professora de História da Lecky College no Trinity College de Dublin. "Desde que ambas as partes sejam maiores de idade, uma vez que tenham feito seus votos, serão casadas e permanecerão casadas. Mesmo se se separassem não poderiam se casar com mais ninguém".

Karras acredita que, de acordo com a lei do final do século XII, o casamento de Sansa e Ramsay era adúltero. "Eles nunca foram totalmente casados, apesar de Littlefinger dizer a Roose Bolton que a união de Sansa e Tyrion era inválida porque nunca foi consumada". "Westeros pode ter leis diferentes, mas para anular um casamento, tem que se mostrar que não é válido em primeiro lugar. Dizer que nunca consumaram não era suficiente para o anular", sublinha. "Em termos práticos, o papa - e de novo, isto é na Europa medieval - poderia estar mais disposto a anular um casamento que não tinha sido consumado por outros motivos, mas o fato de não ter sido consumado não era motivo para anulação", acrescenta.

Stephanie Coontz, professora de história e estudos da família no Evergreen State College, em Olympia (Washington), disse ao HuffPost que a Igreja controlava o acesso ao casamento, ao divórcio e ao novo casamento, especialmente depois do século VIII. Mas havia casos em que o papado não era o tomador de decisões.

Pela lógica de Coontz, Sansa e Tyrion ainda poderiam voltar casar se aqueles que testemunharam a primeira cerimónia ainda concordassem com o casamento. Esta segunda cerimónia poderia ser realizada para validar a união. "Eles provavelmente teriam inventado uma ocasião para outra cerimónia muito pública, com troca de presentes entre as famílias, convites de outros nobres, festas, etc", frisa Coontz. Mas, Karras discorda: "Sob a lei canónica medieval, eles ainda se casariam e não precisariam de nenhum tipo de cerimónia".

Padrões medievais à parte, tudo se resume ao que os guionistas de A Guerra dos Tronos, Dan Weiss e David Benioff, decidam que são as leis dos Sete Reinos. "Isso não é drama histórico, então podem tomar quaisquer liberdades com a lei canónica medieval de que gostem", concluiu Karras.

Na realidade, basta esperar pelos seis episódios da oitava temporada, em que Sansa e Tyrion vão reencontrar-se em dado momento para se desfazerem as dúvidas.

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