Gerard Butler em modo não cabotino

Chama-se O Mistério da Ilha Flannan e é uma das apostas desta semana nos cinemas comerciais. Gerard Butler e Peter Mullan num thriller áspero e recomendável...

O dilema identificável aqui é só um: a miséria humana. Estamos no começo do século passado e na ilha escocesa de Flannan os homens bons podem começar a ficar maus. O que os faz ficar maus? Sabe deus e o diabo... The Vanishing (título norte-americano) / The Keepers (título europeu)/ O Mistério da Ilha Flannan (título português) é um thriller que chega de pantufas e que se arrisca a ser uma das surpresas da temporada.

Gerard Butler, no seu primeiro papel decente em muitos anos, faz trinta por uma linha por esconder a sua linhagem de canastrão numa história verdadeira situada na Ilha Flannan, lugar remoto na costa da Escócia. Consta que em 1900 três faroleiros desapareceram sem deixar rasto. O filme inventa uma intriga sobre os que lhe pôde ter acontecido à boa maneira dos contos de horror britânicos. Não são chamados fantasmas mas sim demónios interiores que se apropriam dos três faroleiros após terem descoberto uma mala com barras de ouro e de terem morto em legítima defesa um estranho que deu à costa com ela.

A partir daí, entre o arrependimento e a culpa que os consome, começam também a mudar o comportamento. Há quem fique ganancioso, há quem fique paranoico. O medo, claro, rói a alma, tanto mais que chega à ilha uma embarcação que procura a tal mala com ouro. Ou seja, na Ilha Flannan começa a acontecer uma sucessão de violências e ameaças que ninguém está espera. Naquele isolamento tremendo, forma-se um pacto entre os três homens. Um pacto que os mudará para sempre e que será capaz de os colocar num confronto tão interior como exterior.

Apesar de não ser filmado na própria ilha, mas sim num farol de Galloway na Irlanda, o filme é um exercício feliz de captação de uma sensação de espaço remoto, remetendo a condição humana à mais agreste e selvagem natureza. O espectador é literalmente transportado para um pequeno e sufocante espaço rodeado de mar bravo e nuvens ameaçadoras. Não são precisos grandes trunfos para uma ambiência perfeita do psicodrama mais severo. Temos bons "twists" narrativos, sustos sem efeitos baratos mas sobretudo um respeito pelos silêncios muito aprazível.

Kristoffer Nyholm filma todo este cenário de desolação moral com um sentido nórdico respeitável. Por muito que não tenha grandes surpresas a nível de intriga, o argumento também consegue ser sempre escorreito e define bem as personagens, criando um crescendo de emoções bastante fluído, sem deixar cair o "tricot" do estudo social de três homens sem ambições e presos a um destino de pobreza de uma Escócia esquecida.

O que talvez impressione mais neste objeto de suspense seja ainda o vigor de uma realização que sabe ser áspera e dura. A dada altura percebemos que não há espaço para militâncias de melodrama ou para arredondamentos de "happy end". Os prazeres do conto de almas negras está lá todo, inclusive com algum refinamento gótico.

O Mistério da Ilha Flannan supostamente teve a sua acendalha no desejo de a sua estrela querer fazer algo sério. Pois bem, o sr. Gerard Butler meteu um belo intervalo na sua carreira de herói de ação de filmes medíocres. Por fim, o seu acentuado sotaque escocês deixou de ser tão cabotino...Contracenar ao lado do grande Peter Mullan ajuda sempre.

Quando não se esperava, um thriller com uma tensão inesperada que consegue entreter com algum virtuosismo...

3 estrelas

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