Fred: "Senti o chão a desaparecer e comecei a colocar tudo em questão"

O baterista e produtor Fred Ferreira, dos Orelha Negra e da Banda do Mar, entre tantos outros, estreia-se a solo com O Amor Encontra-te no Fim, um disco introspetivo, que é também uma bela surpresa musical. Apresentação ao vivo esta quinta-feira em Lisboa.

Já lá vão quase 20 anos, desde que Fred Pinto Ferreira se deu a conhecer como baterista, nos saudosos Yellow W Van. À época, a curiosidade tinha mais a ver com o facto de ser filho de Kalú, esse mesmo, o dos Xutos e Pontapés, mas o tempo viria a demonstrar que este filho de peixe não só sabia nadar como podia muito bem voar além da sombra do pai, apenas à conta do seu imenso talento.

O nome de Fred Ferreira confunde-se, aliás, com a própria história da música portuguesa dos últimos vinte anos, seja enquanto membro de bandas como Oioai, Dapunksportif, Os Maduros, Buraka Som Sistema, 5-30, Orelha Negra (que considera a sua "banda de sempre") ou mais recentemente a Banda do Mar, com os brasileiros Marcelo Camelo e Mallu Magalhães. Em paralelo com tudo isto acompanha diversos artistas, como a fadista Raquel Tavares, e também produz discos de gente tão diferente como Mafalda Veiga, Luís Represas, Nicotine"s Orchestra ou Miúda.

Agora foi tempo de virar para dentro e através da música, da sua própria música, reencontrar-se a si próprio, "enquanto artista e pessoa", como revela nesta muito pessoal entrevista ao DN. Depois de vários meses trancado no estúdio, o resultado aí está, sob a forma de um álbum (quase) instrumental e introspetivo, que é também uma das grandes e boas surpresas deste ano. Chama-se O Amor Encontra-te no Fim, um título nada inocente, como se compreende nas linhas que se seguem, e vai ser apresentado pela primeira vez ao vivo esta quinta-feira, 16, num concerto no Lux, em Lisboa.

Finalmente um disco em nome próprio, porque só agora, depois de tanto tempo a trabalhar com tanta gente?

Já andava há muito tempo a pensar nisso, embora só no final do ano passado é que tenha começado a levar este projeto mais a sério, mas ainda sem qualquer compromisso de fazer um disco. Foi mais uma decisão de me isolar um pouco para poder explorar o meu trabalho sozinho. E de repente, algures a meio do processo, devido a vários acontecimentos mais pessoais, dei por mim a perceber que queria e devia deitar cá para fora esses sentimentos sob a forma de música. Teve a ver com um certo sentimento de perda de mim próprio, até.

Em que sentido?

Todos... Do tipo: senti o chão a desaparecer e comecei a colocar tudo em questão. Se trabalhei de mais, se devido a isso deixei algumas coisas para trás, se fui incorreto com alguém... No fundo e não sei se é da idade, tentei colocar a vida em perspetiva para começar a vê-la de outra forma.

Mas isso aconteceu por alguma razão especial, se é que pretende falar disso?

Não há apenas um motivo, mas talvez o principal tenha a ver com o facto de ter percebido a falta de amor que sentia por mim próprio. Por mais que demonstrasse amor pelos outros, isso nunca era equilibrado devido a essa falta de amor-próprio. Com o tempo isso acabou por se tornar numa questão muito relevante, mas como não percebia bem o que era, a dada altura tive de parar, para pensar sobre o assunto.

Pode-se então dizer que este disco é uma espécie de terapia?

É mesmo uma terapia. Não é muito fácil verbalizar isto, porque são questões muito pessoais e infelizmente ainda vivemos numa sociedade que não nos deixa muito à vontade para falar sobre estes assuntos, mas também não posso ser desonesto em relação a isso. Acima de tudo estava na altura de eu perceber os erros que cometi. É certo que ao longo da vida vamos corrigindo os erros que cometemos, mas senti que tinha chegado um momento de aprofundar um pouco mais essa pesquisa sobre mim próprio, para atingir um certo equilíbrio que me faltava. Este disco tem muito a ver com isso.

É curiosa, essa autoanálise, porque a imagem pública do Fred Ferreira é a de alguém em alta, que enquanto músico e produtor trabalha com meio mundo da música nacional, literalmente do fado ao punk-rock...

Felizmente, trabalho é coisa que nunca me tem faltado e fico muito feliz por isso, mas há mais na vida que o trabalho. E se calhar foi esse a mais que dei à música que dei a menos noutros lados. Isso é que me desequilibrou um bocado. Creio que tenho até mais fama que proveito, porque também não estou sempre a trabalhar. Mas também não posso queixar, porque gosto muito do meu trabalho e de tocar com as pessoas com quem toco. Isto não é um trabalho, é algo que eu amo e quero sempre continuar a fazê-lo, mas agora sei que tenho de cuidar mais de mim, interiormente. Passa, por exemplo, por beber menos álcool, que era algo que me estava a fazer muito mal. Ou simplesmente não beber, que é mais como estou agora. O trabalho é muito importante e é um grande motivo de alegria na minha vida, mas também são necessárias outras coisas.

O trabalho funcionava como um refúgio?

Não pensava muito sobre isso. Quer dizer, pensava sobre o modo como às vezes lidava com determinadas pessoas, com alguns amigos, mas nunca sobre mim próprio, sobre a minha própria vida, num sentido mais amplo, até porque achava que isso podia ser algo um bocado egoísta.

Fazer o disco ajudou nessa busca interior?

Não foi propriamente uma epifania, mas ajudou-me a evoluir nesse sentido. A pessoa que eu era antes de começar a fazer o disco nunca mais vai existir, isso é certo, mas sei que ainda estou a meio de um processo e mudança, no sentido de atingir esse equilíbrio. O amor é base de tudo na vida, seja pelos outros ou seja por nós próprios, e para avançarmos isso necessita de estar equilibrado. Fui esse lado que eu descurei. O disco ajudou, de facto, a desbloquear algumas dessas questões. Não é que passasse o tempo todo a pensar nisso, durante o processo de composição e gravação, foi antes algo que fez parte de um processo de procura e pesquisa. E por essa razão também fiz o disco sem pensar muito sobre o que os outros irão pensar, se iria ou não ter sucesso. Claro que desejo que as pessoas gostem e que vão aos concertos, mas não foi isso que me moveu.

E o que é que o moveu?

Algo muito estranho e ao mesmo tempo fantástico. Senti um grau de comprometimento tão grande em por cá para fora os meus sentimentos, que há momentos neste disco que eu não me lembro de ter feito. Sei que isto parece conversa de malucos (risos), mas a dado momento senti-me como um veículo do meu subconsciente. Este foi um disco em simplesmente me deixei ir, sem pensar, sem racionalizar nada. As coisas começaram a sair e passado algum tempo, quando ouvi, não me lembrava como tinha chegado ali. Sei que fui eu que fiz, claro, mas não sei como. Gosto de acreditar nesse lado bonito da inspiração, de ter o meu inconsciente a trabalhar, contrariando o meu corpo físico, mais racional, para me ajudar a por cá fora tudo aquilo que sinto, sob a forma de música. Faz-me bem dizer que nem sempre estou feliz, por exemplo.

Mas ninguém está...

Sim, mas a maior parte das vezes as pessoas não o dizem (risos). E tive alguns dias muito difíceis, enquanto fazia o disco, mas também tive outros muito bons. Foi um processo que ajudou a evoluir, enquanto artista e pessoa. Aprendi a ter mais calma, a saber parar, que era algo que eu desconhecia totalmente. E hoje vejo os resultados práticos disso, há uma clareza diferente em tudo, no trabalho e na minha vida pessoal. Comecei a ter uma visão mais otimista da vida. Não que tivesse razões para ser pessimista, muito pelo contrário, mas deixei de sofrer por antecipação.

Como é que consegue mudar a bitola de um dia estar a tocar punk-rock com os Dapunksportif, no outro fado, com a Raquel Tavares? Ter as suas próprias bandas, como os Orelha Negra e a Banda do Mar? Ter uma produtora de música para publicidade? Pelo meio ainda produzir discos, como recentemente fez com a Mafalda Veiga?

Porque tenho um sonho desde que nasci, de tocar bateria e de fazer música. E nesse sentido consigo organizar a minha cabeça de forma compartimentada, de modo a mudar quando tenho de o fazer. Não consigo explicar isto melhor. Mas reconheço que no final de 2018 estava um bocado cansado, porque tive um ano muito comprido, em termos de trabalho. Mas no fundo é como toda a gente, as pessoas têm de trabalhar e cada um dá o seu máximo para conseguir viver. E há muita gente que até faz o que não gosta. Eu, felizmente, faço o que gosto.

Mas qual é o seu critério de seleção, quando o convidam para participar nalgum projeto?

Não tenho propriamente um critério, mas mais que a música tem mais a ver com as pessoas e com o que sinto por essas pessoas. Nunca pensei muito sobre isso. Quando percebo que não posso acrescentar nada de bom, que não vou ser uma mais-valia, aí digo que não. Sinto é que muitas vezes não sou chamado para alguns projetos porque as pessoas pensam que estou sempre a trabalhar e não é verdade. Por isso este disco também foi tão bom, por ter sido a primeira vez que tirei algum tempo para fazer algo só meu. Tenho a minha banda de sempre, Os Orelha Negra, e a Banda do Mar, com quem quero continuar a trabalhar sempre, mas aqui sou só eu. Era uma parte que eu sentia falta, para poder ver as coisas de outra forma.

E como foi a experiência de trabalho sozinho?

Uma das partes complicadas de fazer um disco sozinho, quando se é um bocado inseguro, como é o meu caso, é começar a colocar tudo em questão. E a dada altura comecei a mostrar os resultados a algumas pessoas, para ter algumas opiniões exteriores. Além do Alberto Vieira e do Ricardo Riquier, que trabalham aqui comigo no estúdio, partilhei com os Orelha, com o Tekilla ou com o meu filho Sebastião e o feddback que eles me foram dando deixou-me muito entusiasmado, porque inicialmente achava que aquilo era só uma trip minha. O incentivo deles deu-me uma grande confiança para continuar, apesar do medo inicial. E a verdade é que o disco parece estar a ter uma boa receção, o que me deixa muito contente, por ser um trabalho tão sincero e pessoal. Fico muito feliz e agradecido por isso e com vontade de fazer mais.

Uma continuação da terapia?

Talvez, sim. Sei que não é nenhuma obra-prima, mas sinto-me muito orgulhoso de ter conseguido fazer um disco assim, sozinho. E agora estou com uma pica enorme para o ir apresentar ao vivo, em estar a ensaiar, em poder estar aqui a falar com o DN sobre o disco. Não gostei muito do processo, porque me obrigou a trabalhar sozinho durante alguns meses, mas agora que aprendi a por cá fora tudo aquilo que sinto, quero continuar a fazê-lo. Se será novamente a solo ou com uma banda, isso depois logo se vê.

Quem é que vai estar consigo em palco, na apresentação do disco, esta quinta-feira, no Lux?

O Alberto Vieira, o Ricardo Riquier, que são os meus sócios aqui no estúdio, e o Ricardo Dias Gomes. Vou ter também o Francis Dale e a Amaura como convidados num dos temas e eu vou ter uma participação um pouco diferente do habitual, uma vez que não me vou limitar só à bateria. Não prometo é que já consiga olhar o público de frente enquanto estivar a tocar guitarra (risos).

Quando é que percebeu que queria ser músico?

Bastou-me nascer, acho (risos). Mal tive consciência de mim mesmo soube que queria fazer isto para o resto da vida. E crescer a ver os Xutos fez-me querer ser como eles. Ainda hoje tenho o sonho de vir a ser como eles, porque continuam a ter tudo aquilo que admiro nos músicos e nas pessoas: humildade, perseverança, capacidade de trabalho.

Mas concorda que haverá um lado genético nessa opção, ou não? O seu filho também toca bateria?

O meu filho tem 17 anos e também está ligado à música, mas não toca bateria, está mais dedicado à produção. A minha filha, de sete anos, é que toca violino, no conservatório. E são ambos muito bons (risos). Não sei se é genético, mas há claramente um lado familiar que de alguma forma deve influenciar.

O seu pai apoiou-o, quando decidiu ser baterista?

Nem sempre. Não achou bem nem mal, deixou-me apenas seguir o meu caminho. Ofereceu-me uma bateria quando era pequeno, claro, mas nunca insistiu. Acho que desde cedo percebeu o meu interesse...

E existe algum tipo de competição entre o Fred e o Kalu?

Não, de forma alguma, sinto, isso sim, que as pessoas às vezes nos colocam nessa posição, mas é uma questão completamente absurda. Ele é o meu mestre e eu só aprendo com ele. Tenho um orgulho imenso dele, como pai e artista, e para mim é sempre uma inspiração vê-lo tocar. É aquela pessoa que quando está num concerto meu me deixa sempre um bocadinho mais nervoso, ainda hoje isso acontece. Mas não é por qualquer tipo de competição, é apenas porque lhe quero mostrar que estou em forma.

E o seu pai, fica nervoso quando o filho o está a ver?

Espero que não, não tem nenhuma necessidade disso.

Fred

Lux Frágil, Lisboa. 16 de maio, quinta-feira, 23.00. €12

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