Vai fechar a loja das revistas estrangeiras nos Restauradores

Nos anos 1990 a Tema trouxe revistas de todo o mundo a um Portugal culturalmente fechado. Fecha no final do mês

A decisão já está tomada e no final do mês a Tema, hoje Sunrise Press, vai fechar, confirmou ao DN fonte daquele estabelecimento. Em plena Praça dos Restauradores, no centro comercial Xénon, desde os anos 1990 que aquele espaço lisboeta era o lugar onde qualquer leitor de revistas estrangeiras, fossem estas a New Yorker, publicações especializadas em música, história, desporto, arquitetura ou banda desenhada em formato comics, onde se destaca o nicho da pornografia comics espanhola, poderia confiar. Quem não o experimentasse, podia pelo menos testemunhá-lo pela montra.

A Tema, que desde há uns anos se chama Sunrise Press, chegou a ter uma segunda loja no centro comercial Colombo. O baixo número de vendas será a principal razão para o fim da loja.

Um dos dois fundadores da loja trabalhava na Vasp, uma das grandes distribuidoras de jornais e revistas em Portugal, e percebeu que haveria nas publicações estrangeiras uma possibilidade de mercado. Encontraram aquele pequeno espaço, de renda baixa, e avançaram. Primeiro, a medo, com uma encomenda de títulos muito reduzida que fez leitores como o jornalista José Vegar entrarem um sem-número de vezes naquele espaço numa enorme tensão.

"Era preciso definir uma estratégia" para que a demanda por um exemplar fosse bem-sucedida entre os demais concorrentes para pouquíssimos exemplares, recorda. "Às vezes a revista chegava atrasada e era preciso ir trabalhar." Era razão suficiente para a perder.

"Os veteranos da Tema chegavam muito tensos. Abocanhavam os exemplares de que iam à procura e depois é que faziam o circuito [pelo resto da loja]"

A situação pode parecer bizarra a quem não se recordar que Portugal era então um país "entre dois mundos". Por um lado, acabara de aderir à comunidade europeia, por outro, "era culturalmente muito fechado". Afinal, revistas de fora não existiam, e livros de fora só na Buchholz e na Arco-Íris, caríssimos. As viagens de avião eram inacessíveis à maioria.

Ainda hoje Vegar esboça com facilidade o perfil de um veterano da Tema nos anos 1990: "Chegavam muito tensos. Abocanhavam os exemplares de que iam à procura e depois é que faziam o circuito [pelo resto da loja]."

"Foi uma revolução. Vinham pessoas de todo Portugal para ir à Tema", recorda o jornalista, chamando a atenção para o facto de se viver então numa época em que a internet não existia, e não havia FNAC nem Culturgest. Uma vez tentou assinar a New Yorker vivendo cá. Pediram-lhe 212 dólares pelo envio. "A Tema rompeu com isso pela presença e pela diversidade." De repente, tudo estava ali. Não era preciso esperar por uma viagem ao estrangeiro, do próprio ou de um conhecido. "E isto sempre num vão de escada", notou, fazendo referência ao espaço físico da loja.

José Vegar continua um frequentador semanal daquele espaço onde comprou as revistas cuja leitura o ensinou a fazer reportagem. Lamentando profundamente a extinção da Tema, e chamando a atenção para a ausência de um reconhecimento patrimonial que proteja lugares históricos como aquela loja, não deixa de notar como esta é um sinal de que "Portugal é outro mundo", comparativamente ao que era nos anos 1990. "As pessoas viajam, têm outra capacidade financeira, acesso online..."

Exclusivos