Documentário: A ferida aberta do franquismo numa Espanha democrática

Em semana de eleições espanholas,a estreia do documentário "O Silêncio dos Outros", de Almudena Carracedo e Robert Bahar, vem provocar a reflexão sobre o valor da memória histórica na sociedade civil.

"Sou obrigado a viver a escassos metros da pessoa que me torturou", diz José María Galante enquanto aponta para uma porta e depois se volta para o prédio em frente, onde mora, do outro lado da rua. Esse torturador, Antonio González Pacheco, mais conhecido por Billy el Niño, nunca foi levado à justiça. A razão? Em 1977, Espanha disfarçou as cicatrizes políticas da Guerra Civil e do fim do franquismo com uma lei - a satisfazer a esquerda e a direita - que, ao mesmo tempo que garantia a libertação dos presos políticos, dava amnistia a todos os crimes da ditadura, tornando intocáveis os seus protagonistas. Devido a este "Pacto do Esquecimento", como é chamado, o capítulo negro da história do país foi obliterado do ensino escolar e, consequentemente, não faz parte do conhecimento e da memória das novas gerações. Por outras palavras, a lição do passado ficou tão soterrada como os milhares de cadáveres que continuam espalhados em valas comuns um pouco por todo o solo espanhol.

Um desses cadáveres é o da mãe da idosa María Martín, que conta como a levaram de casa, lhe raparam o cabelo e a expuseram aos olhos da aldeia como uma "comuna", sem que esta nada tivesse feito. Morta na noite de tal episódio medonho e enterrada num fosso, o pai de María pediu-lhe que um dia tentasse recuperar os restos mortais da mãe e os juntasse com os dele. Enquanto esteve viva, ela continuou à espera de conseguir cumprir a promessa, deixando regularmente flores à beira da estrada debaixo da qual jaz a mulher que a trouxe ao mundo, e mais umas dezenas de cadáveres.

É de histórias de pessoas como José María Galante e María Martín que se faz ao documentário O Silêncio dos Outros, assinado pela espanhola Almudena Carracedo e pelo norte-americano Robert Bahar, com produção de Pedro Almodóvar. São as vítimas do franquismo que aqui ganham voz reclamando o direito de não esquecer e, sobretudo, de não serem esquecidas. Por isso, mais do que um trabalho assente em material de arquivo (que também surge, num ou noutro momento, para contextualizar o cenário político), este é um olhar que busca a dignidade nos rostos de quem não desistiu de lutar pela verdade, individual e coletiva, e pela justiça em nome dos seus familiares. Ao longo de seis anos, a dupla de realizadores seguiu a organização de um grupo e o processo que o levou até à Argentina para ser ouvido por uma juíza, a fim de pressionar a justiça espanhola e fazer crescer o movimento popular contra a lei de amnistia. A encaminhá-los na diligência esteve o advogado de Direitos Humanos Carlos Slepoy (1949-2017), conhecido pela sua colaboração, ao lado do juiz Baltazar Garzón, no processo que pôs o ditador chileno Augusto Pinochet atrás das grades, em 1998.

As estátuas alvejadas

Para além dos casos de tortura e de quem tem enterrados os seus entes queridos em valas comuns, ouvem-se também relatos de mães cujos bebés foram roubados ainda na maternidade - diziam-lhes que estavam mortos - para serem entregues às famílias dos militares (portanto, afetas ao regime). São narrativas que se acumulam e dão uma "fotografia" dos horrores da ditadura de Francisco Franco, ao mesmo tempo que adensam o valor humano do documentário, aproximando-nos da causa que o move. E, pouco a pouco, pequenas vitórias foram alcançadas nesta jornada. Por exemplo, José María viu o homem que o torturou em jovem, pelo menos, exposto na televisão pelos crimes que cometeu, e uma das idosas (não María Martin) que reclamava os restos mortais do seu pai, conseguiu uma autorização para os mandar exumar.

A certa altura, também as estátuas contam histórias. O monumento, que se encontra no Miradouro da Memória no Valle del Jerte e foi criado por Francisco Cedenilla para prestar homenagem às vítimas da Guerra Civil e da ditadura militar, aparece logo no início do filme, e adiante vai servindo de comentário visual, numa e noutra ocasião, à tragédia coletiva. A sua história é um detalhe importante: poucas horas depois da inauguração, em 2009, levou com disparos. Trata-se de um conjunto de quatro estátuas alvejadas, que ficaram assim, em jeito de registo, com as marcas da violência e da contradição que ainda se faz sentir na sociedade espanhola. O escultor considerou que esses disparos completaram a sua obra.

Ao procurarem esta referência de beleza áspera e melancólica, Almudena Carracedo e Robert Bahar equilibram a dimensão informativa e dão outra camada ao projeto humano do documentário. Até porque tudo o que se percorre é a elaboração de um justo elogio aos que também preferem as marcas dos disparos; aqueles que não negam as cicatrizes da memória. E aqui a qualidade cinematográfica, mais do que uma questão de linguagem, está nessa nobreza do caminho que se faz para consolidar uma mensagem urgente e necessária. O Silêncio dos Outros, combinando uma determinação jornalística com um genuíno apreço por cada uma das suas "personagens", é, ele próprio, o caloroso testemunho de uma batalha contra o esquecimento.

Classificação:
*** Bom

Em exibição no Cinema Ideal (Lisboa) e no Cinema Nos Alma Shopping (Coimbra)

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.