Diagnóstico sobre a adoção em França

Um Gilles Lellouche sensível, comovido e paternal é motivo suficiente para se ver Em Boas Mãos, de Jeanne Herry. Um drama francês que retrata um meticuloso processo de adoção.

Como filmar o sistema de assistência social francês? Esta poderia muito bem ser a indagação por detrás de Em Boas Mãos, a história de um recém-nascido abandonado pela sua jovem mãe, e o processo que o levará até aos braços de uma mãe adotiva. Pois mais do que sublinhar o tradicional conflito entre a biologia e o afeto, o que interessa à câmara de Jeanne Herry é a dinâmica do grupo de pessoas que trabalham para o bem-estar da criança rejeitada, com vista ao sucesso da adoção. Essa dinâmica é, para todos os efeitos, a matéria-prima específica do filme.

Quebrando um pouco a rotina das produções francesas que nos vão chegando - quase todas comédias - o drama social de Herry traz um olhar, se não vigoroso, pelo menos pertinente na sua pesquisa dentro do mecanismo da assistência social. O nascimento de Theo (assim é chamado provisoriamente) desencadeia uma série de ações que, do primeiro ao último momento, são escrutinadas como se se fizesse a anatomia de um procedimento.

A partir do instante em que a mãe recusa tomar nos seus braços o recém-nascido, uma rede de contactos começa a formar-se. Primeiro, alguém é chamado ao hospital para perceber as razões da progenitora e ajudá-la com os papéis de cedência para adoção; depois disso, uma equipa exemplar toma conta da ocorrência, por um lado, providenciando quem cuide de Theo no imediato, por outro, procurando aquela que lhe poderá dar o merecido colo materno.

Na primeira tarefa encaixa um dedicado e carinhoso Gilles Lellouche, no papel do assistente social que fornecerá o lar transitório ao bebé, apoiado pela colega que nutre mais do que amizade por ele (interpretada pela sempre genuína Sandrine Kiberlain) - o motivo de tal fase temporária prende-se com o facto de, por lei, a mãe ter dois meses para voltar atrás na decisão... Já na parte das diligências da adoção, uma profissional em aturada análise psicológica de vários candidatos, ao longo dos anos, vai chegando ao perfil da mulher que pode muito bem ser a mãe perfeita para Theo.

No acompanhamento quase documental de tudo isto, Em Boas Mãos revela-se um objeto sensível e atento aos detalhes da psicologia humana. Não por acaso, a mais comovente linha narrativa tem que ver com a ausência de expressividade do bebé, que preocupa os profissionais e que se procura deslindar remetendo para a ocasião em que a mãe biológica se despediu dele. Mas também é verdade que fora do trajeto principal da história, se nota uma certa inaptidão de Jeanne Herry (que assina também o argumento) para intercalar narrativas secundárias que substanciem ou criem algum atrito. É tudo muito certinho, competente, de brando tecido dramático e votado à ilustração de uma ideia de sistema, que acaba por se sobrepor às nuances da intimidade.

Num filme chamado Em Boas Mãos, sem dúvida que o destaque vai para as de Lellouche, ator que nos enche as medidas, verdadeiro ser paternal de todo o retrato humano aqui celebrado. E nas suas escondidas lágrimas de despedida do pequeno Theo talvez esteja a emoção mais viva, "descontrolada", do percurso inteiro.

** Com interesse