De Cristina a Goucha: o uso do bidé e a castração química

O novo programa da Cristina chama-se simplesmente O Programa da Cristina, confirmando assim a sua ascensão definitiva ao panteão das figuras públicas conhecidas pelo nome próprio - como Oprah, Amália ou Liedson.

Vamos falar... da vida... Há um pequeno pormenor: eu vou entrar... na sua vida..." Acompanhada por orquestra, aplausos, lágrimas, e com cada utilização da palavra "vida" sequestrada num fulgor de reticências, Cristina Ferreira regressou aos horários matinais, agora na SIC. "Acima de tudo, a vida... é isto mesmo... umas vezes estamos a rir... outras estamos a chorar..." O novo programa da Cristina chama-se simplesmente O Programa da Cristina, confirmando assim a sua ascensão definitiva ao panteão das figuras públicas conhecidas pelo nome próprio - como Oprah, Amália ou Liedson. A missão a que se propõe? "O que eu quero... é que perceba mesmo... a realidade." São óptimas notícias: perceber a realidade é uma empreitada difícil na melhor das alturas, e às dez da manhã toda a ajuda é pouca.

Uma das coisas que ficámos a saber sobre a realidade é que sempre que alguém fala em perder um filho, ouve-se um acorde de piano, e a pessoa que perdeu o filho é elogiada pelo seu "sorriso" e pelo seu "positivismo". Outro dos aspectos incontornáveis da realidade é a existência de números de valor acrescentado: uma chamada telefónica pode garantir "CINCO... MIL... EUROS!" Aspectos subsequentes da realidade seriam revelados após um intervalo. "E a vida é isto... Até já."

Na TVI, a luta para compreender a realidade continua, mesmo na ausência da Cristina: "Vamos ter um confronto de ideias sobre a castração química." Duas pessoas foram destacadas para confrontar as respectivas ideias: de um lado, uma psicóloga que falava muito baixo e achava que as coisas eram complicadas; do outro, uma advogada que falava muito alto e achava que as coisas eram simples. A pessoa que acha as coisas complicadas sussurrou coisas sobre "prevenção" e "educação". A pessoa que acha as coisas simples gritou coisas como "INDONÉSIA", e "é preciso que as pessoas lá em casa PERCEBAM", e "é difícil falarmos sobre isto porque estamos em tempos de EXTREMISMO", e "se reincides uma segunda vez és CASTRADO. Ponto PARÁGRAFO". Uma das pessoas foi aplaudida, a outra não.

De regresso à SIC, um médico ia esclarecendo mais um aspecto misterioso da realidade, ao ilustrar a forma correcta de lavar os genitais num bidé para evitar infecções urinárias ou até mesmo castrações involuntárias. "Eu por acaso lavo-me muito no bidé", garantiu Cristina, demonstrando assim a sua autenticidade. Entretanto o oráculo ia anunciando variações cada vez mais intrigantes sobre a mesma premissa: "Cristina foi conhecer as mulheres de Castro Laboreiro", "Cristina viveu na pele de uma mulher em Castro Laboreiro".

Ao som de um piano, em cima de um tractor, e envergando um traje típico da região, Cristina deslocou-se efectivamente a Castro Laboreiro, honrando os habitantes humildes com a sua cintilante presença. Sempre que o tractor passava por alguém, Cristina apontava triunfantemente o seu vestuário, dizendo: "Estou igual a vocês, já viram? Esperem aí que desço para lhes dar um beijinho." O exercício podia assemelhar-se a uma Presidência Aberta, mas quem ganhou foi o espectador, que ficou a saber tudo sobre as mulheres de Castro Laboreiro. A expedição etnográfica mostrou-nos, com rigor científico, os seus costumes (passear de um lado para o outro num tractor), a sua exótica alimentação (broa, presunto) e a sua principal actividade económica (receber equipas de filmagem que chegam da capital para perceber a realidade).

NA RTP1, a Praça da Alegria tentava não ficar para trás nesta luta titânica pela compreensão da realidade, empregando as suas próprias armas e dedicando metade do programa ao bombo, que um rodapé garantia insistentemente tratar-se do "maior membranofone usado em Portugal". Um etnomusicólogo foi convidado para contextualizar historicamente o instrumento: "Existem bombos desde a Idade Média... ou mesmo antes... a Bíblia fala de bombos... Isto de esticar uma pele e pô-la a vibrar... é uma prática de séculos... ou mesmo milénios... diria eu." Também em estúdio, uma vereadora da Câmara do Seixal garantiu que o bombo ia ser institucionalmente respeitado: "Que iniciativas vão ter então à volta do bombo?" "Em relação ao bombo, temos uma parceria há muitos anos e estamos a desenvolver um conjunto de projectos."

Na SIC, já depois de ter conversado com um presidente (o da República) pelo telefone, Cristina preparava-se para conversar com outro presidente (o do Benfica) em pessoa. Não é fácil dialogar em directo com figuras tão distintas, mas Cristina domina na perfeição o truque, que consiste em pensar na próxima pergunta superficial ao mesmo tempo que finge ouvir a resposta superficial à pergunta superficial anterior. Ficámos assim a saber que o presidente do Benfica tem uma esposa, e que tem filhos. É possível que deteste a esposa e não possa ver os filhos à frente? Não, ficou comprovado que gosta muito da esposa e também dos filhos. Ficámos também a saber que é um homem de origens humildes. É possível que renegue essas origens? "Eu não renego as minhas origens." Também teve um pai, que quando é mencionado provoca novas lágrimas e novos acordes de piano.

Curta passagem pela TVI, onde se ouviu que "há sempre um lado positivo, mesmo no cancro" (som de piano), e pela RTP1, onde um cantoneiro falava sobre as dificuldades financeiras da família (som de guitarra), antes de os três mecanismos de explicação da realidade resvalarem em simultâneo para os mesmos compromissos publicitários, e de a realidade matinal ser reduzida a uma sucessão de complexos multivitamínicos, comprimidos de cálcio, pílulas de magnésio, fórmulas reforçadas de selénio, e jóias raras e eternas que podem ser nossas através de suaves mensalidades, porque a vida é mesmo assim.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?