"Cem Anos de Solidão" vai chegar aos ecrãs. Netflix comprou direitos

A obra-prima absoluta de Gabriel García Márquez. Sucessos globais em língua espanhola de séries como "Narcos" ou "Casa de Papel" e do filme "Roma" foram cruciais para a família do escritor colombiano aceitar venda de direitos.

É um romance tão ricamente intrincado que, logo a abrir, há um esquema que nos guia pelas (muitas) personagens do livro. E é tida, por muitos, como a obra-prima absoluta de Gabriel García Márquez, que nos trouxe algumas das mais belas páginas do realismo mágico, um género literário de que o jornalista feito escritor foi um dos grandes cultores.

Agora, mais de 50 anos depois de ter sido publicado, Cem Anos de Solidão vai chegar, por fim, aos ecrãs, pelas mãos da Netflix, a plataforma de streaming que adquiriu os direitos para produzir a obra, foi anunciado esta quarta-feira, de acordo com o jornal americano The New York Times.

É a primeira vez que o livro é vertido para o ecrã e sucessos globais de séries como Narcos ou Casa de Papel e do filme Roma foram cruciais para a família de Márquez aceitar.

"Nos últimos três ou quatro anos, o nível, o prestígio e o sucesso de séries e minisséries cresceram tanto", admitiu Rodrigo García, filho do escritor colombiano, citado no NYTimes, sobre a decisão da sua família em vender agora os direitos de produção. "A Netflix foi uma das primeiras a provar que as pessoas estão mais disponíveis do que nunca para ver séries produzidas em idiomas estrangeiros [que não o inglês] com legendas. Tudo isso parecia ser um problema que não é mais um problema."

Várias produtoras e por várias vezes tentaram adquirir os direitos do romance de 1967. Rodrigo García, que será produtor executivo do projeto com o seu irmão Gonzalo, revelou que o pai, Gabriel, recebeu recebeu muitas propostas ao longo dos anos para adaptar o livro ao cinema. Mas, contou o filho do Nobel da Literatura de 1982, o pai estava preocupado porque entendia que a história não seria bem traduzida nem se encaixaria num único filme (ou mesmo dois). García Márquez também insistia que a história fosse contada em espanhol, por isso muitas das ofertas nem eram consideradas por ele.

"Eu ouço a discussão sobre se se deve ou não vender os direitos" de Cem Anos de Solidão "desde os meus 8 anos", recordou García. "Não foi uma decisão simples para mim e para o meu irmão e a minha mãe. Parece que um grande capítulo foi aberto, mas também um longo capítulo foi encerrado."

O vice-presidente de originais em espanhol da Netflix, Francisco Ramos, confirmou também ao jornal americano que a empresa já tinha tentado obter direitos sobre o romance, mas que a proposta foi recebida com resistência. Segundo Ramos, o sucesso de séries como Narcos e filmes como Roma, que recentemente ganhou o Óscar de melhor filme em língua estrangeira (e esteve também nomeado para o de melhor filme), mostraram que se pode "fazer conteúdo em espanhol para o mundo".

Cem Anos de Solidão percorre um século nas vidas da família de José Arcadio Buendía, o patriarca que fundou a cidade fictícia de Macondo. Desde a publicação do livro, estima-se que já foram vendidos 50 milhões de exemplares, traduzido em 46 línguas.

Não é, no entanto, a primeira vez que Márquez vê uma obra sua transposta para os ecrãs: o site especializado imdb.com credita o colombiano como escritor de 57 filmes, séries, episódios, longas ou curtas-metragens. Crónica de uma Morte Anunciada (1987) e O Amor nos Tempos de Cólera (2007) foram dois livros que resultaram em filme, dando razão ao escritor sobre os seus receios em adaptar Cem Anos de Solidão, sendo pouco amados pela crítica e pouco recordados pelo público.

Exclusivos

Premium

história

A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.