Cannes: depois do futebol... a revolução?

Fazendo o retrato convulsivo de uma zona da periferia de Paris, "Os Miseráveis", de Ladj Ly, ficará como um dos grandes acontecimentos de Cannes/2019: há um realismo crítico que continua a marcar muito cinema europeu.

Mesmo os menos entusiastas de Os Miseráveis, de Ladj Ly, francês nascido no Mali, reconhecerão que estamos perante um filme que ficará como um dos títulos mais fortes da 72ª edição do Festival de Cannes. A sua energia, e também a perturbação que envolve, começa na espantosa cena de abertura. Vemos as personagens centrais, um grupo de jovens da zona de Montfermeil, a assistir à final do Mundial de Futebol de 2018 (França, 4 - Croácia, 2) e, depois, a integrar as celebrações nos Campos Elísios. Quando surge um plano geral da multidão com o Arco do Triunfo ao fundo (imagem aqui reproduzida), o título do filme sobrepõe-se à imagem: "Les Misérables".

Pergunta rudimentar: os "miseráveis" são os que assim comemoraram um momento alto do futebol francês? Goste-se ou não do filme de Ladj Ly (e eu confesso, desde já, a minha grande admiração), convém não ceder a leituras tão simplistas. Trata-se de começar por reconhecer a sua filiação num património narrativo visceralmente francês.

Dito de outro modo: Ladj Ly convoca a referência tutelar do romance de Vítor Hugo, Os Miseráveis (publicado em 1862), aliás citado numa legenda final, para colocar em cena as vivências de um espaço dos subúrbios de Paris em que convivem personagens de diversas origens geográficas e culturais, num equilíbrio instável sempre acompanhado por algumas unidades policiais.

O filme não é uma tese "abstracta" sobre bairros problemáticos, até porque, num gesto de saudável cinefilia, começa por convocar uma convenção do policial francês (e também de Hollywood). Assim, seguimos o dia a dia de uma patrulha de dois polícias que passou a integrar um terceiro elemento: o novato vive uma experiência de aprendizagem das muitas formas de tensão que atravessam aquela zona, dir-se-ia numa espécie de "ficção documental" que permite ao espectador ir sentindo a frágil fronteira que separa harmonia e violência.

A inspiração de Vítor Hugo serve, assim, para dar conta dos "miseráveis" que, de uma maneira ou de outra, vivem um quotidiano de sobrevivência a que não é possível aplicar qualquer maniqueísmo descritivo: o "bem" e o "mal" não se apresentam como entidades transparentes e óbvias. Interessando-se, realmente, pela contraditória complexidade das suas personagens, não as reduzindo a "símbolos" universais, Ladj Ly consegue um filme que, além do mais, revaloriza um genuíno espírito realista, hoje em dia transversal a muitas cinematografias europeias (e não só).

O mesmo se poderá dizer de On Va Tout Péter,uma realização de um americano, Lech Kowalski, mas ligada a temas especificamente franceses. Estamos perante um invulgar trabalho documental, nascido do acompanhamento da luta dos trabalhadores da fábrica de componentes automóveis GM&S, ameaçada de encerramento devido, em grande parte, à quebra do volume de encomendas dos grupos Peugeot e Renault.

Sem nunca simplificar a turbulência própria de tão complexa crise laboral, económica e política, o filme​​​​​​​ possui uma energia alheia a qualquer pendor normativo. Na sua voz off, Kowalski especula sobre a possível iminência de uma situação revolucionária, precisamente porque tal hipótese decorre do discurso de resistência dos trabalhadores (o título do filme é uma expressão escrita à entrada da fábrica e significa, literalmente, "Vamos dar cabo disto tudo").

Que França é esta espartilhada entre as vertigens do futebol e a desagregação das clássicas estruturas de produção? Nem Os Miseráveis, nem On Va Tout Péter, são filmes com "receitas" políticas, até porque por eles perpassa a sensação amarga da falência de muitas formas de intervenção política que tentam responder e corresponder às crises que rasgam o corpo social (perversamente, o próprio Emmanuel Macron surge como "personagem" incauta do filme, num breve momento em que responde a jornalistas que o questionam sobre a situação na fábrica GM&S).

Num festival de cinema capaz de integrar objectos tão variados es estimulantes, importa sublinhar esta contagiante vitalidade de filmes que nos convocam para a dificuldade de detectar e compreender as fissuras do nosso tempo (europeu, antes do mais). Também por isso, não é possível esquecer o discreto e sublime Être Vivant et le Savoir, do veterano francês Alain Cavalier (Prémio do Júri de Cannes/1986, com Thérèse, um retrato de Santa Teresa de Lisieux). Voltando a utilizar uma câmara de video de formato "amador", tal como acontecera, por exemplo, em Irène (2009), Cavalier evoca os tempos finais da escritora Emmanuèle Bernheim (1955-2017), expondo uma intimidade radical que nos recorda como todas os actos políticos passam pela verdade intrínseca das relações humanas - como diz o título, trata-se de "estar vivo e sabê-lo".

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