As outras memórias de Peter Fonda

Falecido aos 79 anos, Peter Fonda ficou como símbolo exemplar de "Easy Rider", um dos títulos que, simbolicamente, encerra a década de 60. Seja como for, a sua vida e os seus filmes transcendem essa referência.

Será talvez uma maneira esquemática, e até cruel, de recordar Peter Fonda, mas a sua existência terá sido a do elo mais fraco do clã Fonda. A relação tensa com o pai, o lendário e genial Henry Fonda (1905-1982), emprestou ao seu trajecto pessoal e artístico a dimensão de um destino por cumprir. É certo que o talento sempre contrariou a crueza de tal dramatismo, mas não o seu peso simbólico. Por alguma razão, a autobiografia que publicou em 1998, com dedicatória para a irmã, Jane Fonda (n. 1937), tem o título Don"t Tell Dad, ou seja, numa tradução muito cândida: "Não contem ao Papá".

O fulgor da sua personalidade exige-nos que percorramos a sua história para além das memórias mais óbvias. A automática associação de Peter Fonda a Easy Rider (1969), que protagonizou com Dennis Hopper (também realizador), embora fundamental, está longe de esgotar o retrato que a sua carreira justifica. Desde logo, porque ele foi também produtor do filme, nessa medida exemplificando uma perspectiva renovadora, de uma só vez artística e financeira, transversal ao cinema americano da época: tratava-se de assumir a urgência de arriscar em modelos de produção que superassem (ou reconvertessem) as matrizes tradicionais dos grandes estúdios.

Dito de outro modo: Peter Fonda é um dos primeiros e mais genuínos símbolos da produção independente. A esse propósito, convém não esquecer que, em 2012, foi também produtor de The Big Fix, documentário sobre o desastre da plataforma Deepwater Horizon e o consequente derramamento de petróleo no Golfo do México.

Encontramos o nome de Peter Fonda nas fichas artísticas de alguns títulos emblemáticos da década de 60, a começar por Lilith e o seu Destino (1964), a obra-prima neo-romântica de Robert Rossen protagonizada por Jean Seberg e Warren Beatty. Participou também em The Wild Angels (1966) e Os Hippies (1967), ambos de Roger Corman, sugestivos exemplos de conjugação das interrogações da contraconcultura com o imaginário "hippie" e os modelos de produção de "série B". Além do mais, o "western" que interpretou e realizou - The Hired Hand/O Regresso (1971) - ficou como uma das mais belas e austeras narrativas a reflectir a reconversão crítica das histórias clássicas dos cowboys [trailer].

É verdade que a sua filmografia foi sendo marcada por muitos produtos de segunda ordem, típicos da agonia dos géneros clássicos ao longo das décadas de 80/90. Mas não é menos verdade que Peter Fonda marcou presença em vários filmes que merecem ser lembrados (e poderiam ser mostrados, se tivéssemos um mercado cuja lógica dominante prestasse mais atenção à atualidade, arriscando para além do óbvio).

Recordemos, por exemplo, Ulee"s Gold/Laços de Ouro (1997), de Victor Nuñez, drama que lhe valeu a sua única nomeação para um Oscar de melhor actor (a nomeação de Easy Rider diz respeito à categoria de argumento original). E também as duas magníficas personagens secundárias, de alguma maneira celebrando a sua própria iconografia clássica, que lhe foram oferecidas por John Carpenter e Steven Soderbergh, respectivamente em Fuga de Los Angeles (1996) e O Falcão Inglês (1999).

De Peter Fonda recebemos, assim, a herança de uma vida que, da solidão à lucidez, soube lidar com o incumprimento da sua própria imaginação. Lembremos estas palavras do capítulo final de Don"t Tell Dad: "Jane disse-me que me desprezou durante muito tempo, mas tomou conta de mim sempre que foi à procura de qualquer coisa que nem sabíamos o que seria. Era como um cãozinho, correndo atrás dela. Nunca me repeliu, pelo que continuei a tentar ser o seu cãozinho. Com o passar dos anos, afastei-me do resto da família, mas estranhamente sinto que me aproximei dela. Talvez porque passámos por tanta coisa que só nós é que sabemos. Como uma gota de mercúrio fragmentada, dir-se-ia que nos voltámos a juntar, mesmo tendo tão pouco tempo para estar juntos."

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.