A herança de James Baldwin também está nos Óscares

O filme "Se Esta Rua Falasse", baseado num romance de James Baldwin, tem três nomeações para os Óscares

É verdade que o marketing e as casas de apostas dos EUA tendem a reduzir a 91ª edição dos Óscares de Hollywood a uma competição entre dois títulos: Roma e A Favorita. E não será arriscado supor que os dois estarão entre os principais vencedores da cerimónia. Em todo o caso, há mais mundos... E filmes que importa não esquecer.

Esta semana chega às salas portuguesas Se Esta Rua Falasse, um desses filmes que também está nos Óscares, embora de forma mais discreta, com três nomeações: Regina King (actriz secundária), Barry Jenkins (argumento adaptado) e Nicholas Britell (música). Com realização assinada pelo próprio Jenkins, o cineasta do "oscarizado" Moonlight (2016), podemos encontrar uma brilhante adaptação do romance homónimo de James Baldwin (1924-1987), centrado no drama de um casal de jovens afro-americanos, no Harlem, Nova Iorque, no começo da década de 1970. Lembremos, por isso mesmo, que a herança literária, política e simbólica de Baldwin foi tema do notável documentário Eu Não Sou o teu Negro (2016), de Raoul Peck.

Entre as novidades, há ainda um insólito "western", Os Irmãos Sisters, tanto mais surpreendente quanto foi dirigido por um francês, Jacques Audiard, nosso conhecido através de vários títulos marcados pela herança clássica do "thriller" como De Tanto Bater o Meu Coração Parou (2005) e Um Profeta (2009). E convém não esquecer um fabuloso trabalho documental de um dos mestres do género: Frederick Wiseman. Desta vez, em Monrovia, Indiana, Wiseman observa a peculiar existência de uma pequena povoação da América mais interior e mais esquecida, afinal reflectindo práticas e valores com clara ressonância crítica e política.

Entretanto, vale a pena referir uma proposta de revisitação do trabalho de Bruno Ganz, actor suíço com uma multifacetada carreira, entre Europa e América, falecido há poucos dias. Numa iniciativa da Medeia Filmes, será possível ver ou rever nove títulos da sua filmografia, no Porto (Teatro Campo Alegre, de 21 a 27) e em Lisboa (Espaço Nimas, ao longo do dia 25). A Mulher Canhota (1978), de Peter Handke, A Cidade Branca (1983), de Alain Tanner, e As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, estão incluídos no ciclo. Na sessão de A Cidade Branca em Lisboa (dia 25, 19h00) estarão presentes a actriz principal, Teresa Madruga, e o produtor do filme, Paulo Branco.

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