'I'm Your Woman'. A mulher no labirinto

I"m Your Woman é um olhar feminino sobre cinema de registo masculino, com Rachel Brosnahan dona de casa em modo de fuga para a independência. Disponível na Amazon Prime Video.

Uma revisitação do thriller noir, anos de 1970, com a câmara voltada para a experiência da mulher do criminoso. É esta a proposta de I'm Your Woman, filme assinado pela realizadora norte-americana Julia Hart, cuja breve filmografia dá conta de um gosto por abordagens de diferentes géneros cinematográficos, com um toque de originalidade feminina que se esforça menos por produzir discurso do que repensar convenções narrativas. Nesse sentido, o filme protagonizado por Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel) não é sequer a típica história da mulher forte - ou seja, aquela que assume as características da personagem masculina que é apanágio do thriller -, mas uma fábula sobre a dona de casa que aprende a independência por caminhos travessos.

Na sequência de abertura, Jean (Brosnahan) surge deitada numa espreguiçadeira, de roupão magenta, óculos de sol e cigarro entre os dedos, prefigurando o quotidiano vazio que caracteriza o seu casamento com Eddie, um gatuno que vemos de raspão quando chega a casa com um bebé nos braços: "É nosso." Jean não faz perguntas, limita-se a pegar na criança e ensaiar gestos maternais - não demorará muito até que seja arrancada da cama na calada da noite, com a criança agora a seu cargo, e posta em fuga sem saber do marido, mas percebendo que algum dos seus esquemas correu mal...

A olhar por ela está um homem negro chamado Cal (Arinzé Kene), espécie de guarda-costas que afasta as misteriosas ameaças à sua volta e através do qual vai aceder a um mundo que estava fora do seu campo de perceção. Talvez achasse que o marido era apenas um ladrão de meia-tigela.

E o que começa por parecer um zeloso exercício visual retro, com detalhes curiosos de argumento que ajudam a definir a personagem - como o facto de nunca conseguir fazer um ovo estrelado com a gema intacta -, converte-se numa mistura de suspense lânguido e retrato íntimo, muitas vezes solitário, da mulher que está a apurar o perfil maternal e a conhecer a realidade fora da bolha do seu jardim. Uma postura inocente, aliás, que contraria a mera atribuição de códigos masculinos a uma heroína, para antes observar as suas fragilidades femininas. Digamos que, no meio de uma inaptidão para a sobrevivência, ela vai saber como agir na hora certa.

A realização de Julia Hart, tão bem definida quanto discreta, faz de I'm Your Woman um filme de delicada evocação espiritual dos clássicos do género, acrescentando ao registo uma gramática particular. O seu estilo suave, a economia da história, a mudança progressiva de tonalidades (compare-se, por exemplo, o choque do roupão magenta do início com as cores outonais do final) e a elegância da banda sonora não intrusiva - que vai de Bobbie Gentry a Aretha Franklin - resulta numa inusitada versão calorosa do thriller, em que a ação se resume ao básico e os sinais da América racista não têm pretensões de tema. Melhor ainda é perceber que o charme formal de Hart foge ao exibicionismo. Tudo concorre para a simples serenidade da aprendizagem: Rachel Brosnahan/Jean despe a pele da dona de casa desencantada para fazer nascer a mulher que põe as mãos no volante. E não só.

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