Ice Merchants também é amado na Academia

Primeira nomeação de um filme português para Ice Merchants, de João Gonzalez, curta de animação que tem ganho carinho e aclamação por todo o mundo. Bruno Caetano, o produtor, conta ao DN as emoções deste feito pioneiro.

Regina Pessoa esteve à porta das nomeações dos Óscares por duas vezes e a animação nacional já tinha calibre e notoriedade que permitia o que agora aconteceu: uma nomeação aos Óscares! Ice Merchants, de João Gonzalez, produzido pela cooperativa Cola Animation, é então o primeiro filme português a chegar à cerimónia da Academia. Uma curta-metragem sem diálogos que nos mostra o labor de dois mercadores de gelo numa casa num precipício, uma história de pai e filho em formato 2D que já passou por 44 festivais e venceu inúmeros festivais. Filme de uma beleza sensorial enorme, Ice Merchants começou por maravilhar em Cannes, na Semana da Crítica.

Bruno Caetano, o produtor, diz que estava longe de saber na manhã de ontem que tudo iria mudar após o anúncio das nomeações: "há ali um momento, um segundo em que custa assimilar: será que estou a ver bem!? A equipa do filme viu em modo de watch party e éramos uns vinte e tal. De repente, há um grito, uma euforia que faz com que a realidade venha ter connosco! Enfim, foi uma montanha-russa de emoções. Antes do telefone começar a tocar ainda tivemos uns momentos de euforia extrema e uma berraria sem fim".

Esta euforia portuguesa poderia ser mais extensa se O Homem do Lixo, de Laura Gonçalves, outra curta-metragem de animação, e a curta O Lobo Solitário, de Filipe Melo, também pudessem ter estado entre as finalistas. Seja como for, é um momento pioneiro do cinema português, algo que ainda trouxe mais pressão a Bruno Caetano e João Gonzalez: "isso não ajudou nada ao nosso stress, todos nos diziam isso mesmo. Estas últimas semanas foram de grandes emoções", conclui o produtor, lembrando que a partir de agora segue-se já a presença em Los Angeles para o almoço dos nomeados e os Annie, também em Hollywood, os Óscares da animação, onde o filme também está nomeado.

Mesmo apesar da aclamação que Ice Merchants tem recebido pelo mundo inteiro desde maio, Bruno confessa que não estavam à espera que chegasse agora aos Óscares: "mesmo quando o filme foi selecionado para o Festival de Cannes desconfiámos: pensámos que alguém se tinha enganado. É lógico que gostamos muito do nosso filme: é aquela velha máxima de que todos gostam muito dos seus próprios filhos, mas não sabíamos que os outros também teriam a mesma paixão...Foi um alívio quando recebemos o prémio na Semana da Crítica em Cannes. Mas chegar onde chegámos hoje nunca imaginámos, apesar de termos sempre alguma esperança. Nunca acreditámos, na verdade, mas agora vai ser uma aventura!". Uma aventura que terá ajuda da Showcase Animation que lhes arranjou um manager para esta campanha dos Óscares, o mesmo que esteve por detrás da curta vencedora o ano passado, The Windshield Wiper. Aliás, parece realmente haver um fôlego novo na animação - este é o ano em que nas longas dois filmes de originalidade extrema estão na pole position: Marcel The Shell with Shoes On, de Dean Fleicher-Camp e Pinóquio de Guillermo del Toro, de Guillermo Del Toro e Mark Gustafson.

Para já, a Agência da Curta Metragem está a tentar que o filme possa estrear nas salas, se possível para um público massivo e em complemento com uma longa-metragem, mas as datas ainda não existem. No nosso país, foi o Curtas Vila do Conde a mostrar Ice Merchants, nem de propósito o vendedor da competição nacional. Miguel Dias, diretor do festival confessa-se feliz por ter tido em Vila do Conde este filme: "Por ser o primeiro filme português nos Óscars, um grande parabéns ao Bruno e ao João! Que seja o primeiro de muitos e que faça com que as curtas de animação tenham uma maior visibilidade. Às vezes, sinto que não são tão promovidas e faladas como o cinema de imagem real".

Bruno Caetano e a cooperativa Cola Animation estão já com uma série de projetos de curtas de animação em desenvolvimento, mas também uma longa-metragem de João Alves, a partir da BD de Nuno Duarte e Joana Afonso, Baile.

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