Happy Mess celebram 10 anos com regresso aos palcos

Jardim da Parada, quinto disco de originais dos Happy Mess, assinala o décimo aniversário da banda e também o seu regresso aos palcos, hoje em Lisboa e 5.ª feira no Porto. Uma autêntica prova de resistência depois dos tempos sombrios do confinamento.

Em março de 2020, quando o céu nos caiu em cima da cabeça, os Happy Mess pensaram que, afinal, não chegariam a fazer dez anos. Composta por Miguel Ribeiro (bem conhecido do público como pivot da SIC Notícias), Afonso Carvalho, Hugo Azevedo, João Pascoal e Paulo Mouta Pereira, a banda portuguesa viu-se, como todo o meio artístico, assombrada por uma incerteza sem termo certo. Com os concertos cancelados e o trabalho em estúdio impedido pelo confinamento, Miguel admite que, nos primeiros tempos - os mais sombrios - "foi muito frustrante. Achámos mesmo que não conseguiríamos continuar." Mas depois "acabou por prevalecer a vontade intrínseca de cada um". Em breve, estavam a partilhar ideias e ficheiros pelos meios que lhes eram possíveis. E ganharam fôlego para um novo disco, que acaba de sair: Jardim da Parada, com 11 temas originais e muita gente dentro, "cúmplices" conquistados na Música, mas também noutras artes, da Literatura às Artes Plásticas.

"O título tem um simbolismo forte", explica Miguel Ribeiro. "Em primeiro lugar porque esse é o nome do jardim aqui de Campo de Ourique, vizinho do estúdio em que trabalhamos habitualmente, e um lugar querido a muitos de nós, que já aqui vivemos. Mas também porque a ideia de fazer nascer um jardim frondoso e belo, num tempo tão sombrio, foi algo de poético que, de certo modo, nos alimentou." Com letras dos próprios, mas também de Rodrigo Guedes de Carvalho (na canção Alguma Coisa Vai Mudar, em parceria com Miguel Ribeiro), José Luís Peixoto (Salto Mortal), Bruno Vieira Amaral (Aposta, Perder o Pé, Gin, Telenovela), Nuno Costa Santos e Sara Leal (Primeiros Socorros), Rui Reininho (Espiral), Capicua (Capitão Roscofe), Filipa Leal (Mudar de Canção) e Regina Gumarães (Extravio), este novo disco é, desde logo; "diferente porque é todo cantado em português", salienta Afonso Carvalho. "Até aqui cantávamos em inglês, porque, admitamos, é uma sonoridade a que estamos mais habituados. Na nossa língua materna tudo se torna mais pessoal e as palavras assumem outro peso." O que Miguel, voz principal dos Happy Mess, reforça: "Em português estamos mais expostos mas creio que, ao celebrarmos dez anos de atividade, já nos podemos dar a esse luxo."

É também graças à "legitimidade" conferida pela efeméride que os Happy Mess trouxeram tanta gente a este disco. Sempre gostaram destas interações, como lembra Miguel: "Procuramos manter essa relação com outros artistas, desde bailarinos a realizadores, encenadores ou artistas plásticos que trabalharam nas nossas capas e videoclips, mas, ao mesmo tempo, tínhamos algum pudor. Queríamos afirmar-nos pelo que somos e fazemos e não porque tínhamos alguns cromos notáveis na nossa caderneta. Agora, com a celebração do 10.º aniversário, fomos mais ousados." Para além de tal painel de letristas, reúnem-se à sombra deste Jardim da Parada nomes como o brasileiro Kassin (produtor de Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto, Los Hermanos, entre outros), o produtor Rui Maia, os guitarristas Martim Broa e Alexandre Soares, Rui Reininho, que também canta no tema de sua autoria, Espiral, o trompetista Diogo Duque e as cantoras Ana Cláudia e Sandra Leal.

É também com Jardim da Parada que os Happy Mess voltam verdadeiramente aos palcos, com um primeiro concerto hoje, em Lisboa, no Teatro Maria Matos (às 21 horas) e outro no Porto (Casa da Música) na próxima 5.ª feira, 28. " Já em pandemia fizemos um concerto mas com as pessoas sentadas ainda muito longe umas das outras. Foi tudo muito estranho", recorda Afonso Carvalho. "Por um lado, estávamos contentes por voltarmos a cantar ao vivo depois de meses de confinamento, mas também era demasiado evidente que tudo ainda era demasiado preocupante. E isso não nos permitiu sequer desfrutar do momento e da interação com o público."

Agora ainda com máscaras, mas com a lotação total das salas, um concerto começa a parecer-se realmente com o que sempre foi e os membros dos Happy Mess (a que se junta, nas atuações ao vivo, a cantora Maria Luísa) sentem aquele pico de adrenalina que antecede a entrada em palco. "Mesmo a mim, que sou bichinho de estúdio, - confessa Miguel Ribeiro - apetece muito tocar em estúdio, estar perto das pessoas, sentir aquele frio na barriga. Tenho muitas saudades desse lado mais visceral da música." Até porque dez anos de atividade contínua não se festejam de qualquer maneira: "Dez anos de banda implica muita vontade de querer fazer e de criar, num país onde a Cultura é consecutivamente tratada como um fait divers", acrescenta ainda Miguel Ribeiro. Mas agora, reflexões conjunturais à parte, o que mais lhes importa é mesmo fazerem-se à estrada "e curtir o disco".

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG