"Há condições para o regresso de EUA e Israel à UNESCO. Todos os países têm um lugar à nossa mesa"

Única candidata a um segundo mandato como diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay foi reeleita a 10 de novembro por quase unanimidade. Numa entrevista por escrito ao DN, faz o balanço dos primeiros quatro anos no cargo e fala dos desafios de uma organização que este ano celebra os 75 anos.

Nascida em Paris há 49 anos numa família de judeus marroquinos - o pai foi conselheiro de Hassan II e do atual monarca Mohammed VI -, a francesa Audrey Azoulay acaba de ser reeleita à frente da UNESCO, com 155 votos a favor, 9 contra e uma abstenção. Uma votação esmagadora depois da vitória à tangente há quatro anos. Na altura, a antiga conselheira e ex-ministra da Cultura de François Hollande tomou as rédeas de uma organização cheia de tensões, da qual os EUA e Israel acabavam de anunciar a saída. Hoje orgulha-se do trabalho feito para serenar as relações entre os Estados-membros e traça a integração da educação ambiental nos programas escolares até 2025 como um dos grandes desafios para o futuro.

Acaba de ser reeleita à frente da UNESCO por uma larga maioria dos votos. Quatro anos depois de uma eleição muito mais renhida, esta quase unanimidade mostra que durante o seu primeiro mandato como diretora-geral conseguiu serenar algumas reticências?
Ficou muito honrada com o resultado desta votação. Este revela uma unidade e uma dinâmica reencontradas dentro da UNESCO. É verdade que em 2017, para a minha primeira eleição como diretora-geral, a campanha fora intensa e rica em suspense. Desta vez, a situação revelou-se muito diferente. Desde o momento em que declarei a minha candidatura, em dezembro de 2020, recebi apoios muito fortes vindos de todos os continentes. Acredito que não terá sido por acaso: este apoio alargado é testemunha, creio, da adesão ao método que implementei para devolver toda a sua ambição à UNESCO.

A sua experiência enquanto conselheira e depois ministra da Cultura de François Hollande e a sua postura de diplomata foram essenciais para acalmar e resolver as tensões entre países que existiam na UNESCO?
Em 2017, as tensões políticas dentro da UNESCO atingiam o seu paroxismo. Havia debates muito duros entre Estados-membros, de tal maneira que os Estados Unidos e Israel anunciaram a sua saída da organização antes da minha eleição. Era urgente encontrar um quadro de discussão mais calmo. Foi a primeira tarefa que encetei assim que cheguei. Voltei a criar espaços de diálogo sempre que estes eram necessários e promovi mediações. Também modernizámos a UNESCO para a tornar mais eficaz e limpámos as finanças. Pela primeira vez em 15 anos, em 2018 os 193 Estados-membros aceitaram aumentar o valor das suas contribuições obrigatórias, um compromisso que decidiram consolidar por ocasião da 41.ª Conferência Geral que se realiza neste momento em Paris. As contribuições voluntárias também aumentaram em 50% nos últimos quatro anos em relação aos anos anteriores. Isso permitiu-nos lançar projetos pioneiros: a reconstrução de Mossul, a das escolas de Beirute, ou ainda a coligação mundial para a educação para fazer frente à crise educativa ligada à covid-19. Estou orgulhosa deste resultado.

Em 2017, os EUA acabavam de sair da UNESCO, tal como Israel, acusando a organização de ter tendências pró-palestinianas. Neste momento estão a pensar regressar. É uma das prioridades para este seu segundo mandato?
Como estava a explicar, a situação é hoje muito diferente daquilo que era no momento da sua saída. As discussões serenaram. Os textos relativos ao Médio Oriente são agora adotados por consenso. A UNESCO voltou a encontrar uma bela dinâmica coletiva e mostrou a sua capacidade para ultrapassar os grandes desafios do nosso século. Não posso deixar de o recordar: a vocação da UNESCO é universal. Acredito por isso que estão reunidas as condições para um regresso dos Estados Unidos e de Israel à nossa organização. Todos os países têm um lugar à volta da mesa. A educação, as ciências, a cultura, a informação: são todos assuntos que nos unem.

A aproximação entre as duas Coreias - seja pela candidatura do ssirum [luta tradicional coreana], seja por um projeto de criação de uma zona de biosfera na DMZ [zona desmilitarizada na fronteira entre os dois países], é uma das bandeiras do seu primeiro mandato?
A inscrição dessa luta tradicional coreana, o ssirum, na lista do Património Imaterial da Humanidade foi efetivamente um momento marcante do meu primeiro mandato. Conseguimos chegar a uma candidatura apresentada em conjunto pela Coreia do Sul e pela Coreia do Norte: foi algo nunca antes visto na História da UNESCO. Um bonito símbolo e a prova de que a nossa organização internacional é capaz de alcançar acordos e consensos que parecem impossíveis noutro lugar. Cabe a estes dois Estados dizer se desejam a criação de uma zona de biosfera na DMZ no futuro, mas não há qualquer dúvida de que tal projeto seria uma mensagem muito positiva dirigida ao mundo e, portanto, recebida com boa vontade pela UNESCO.

Em março de 2020, lançou a coligação mundial para a educação, de que falava há pouco, para reduzir a fratura digital que se agravou ainda mais com a pandemia de covid-19. Um ano e meio depois que balanço podemos fazer deste projeto?
Nos momentos mais difíceis da pandemia de covid-19, foram 1,5 mil milhões de crianças que ficaram privados de ir à escola. Estimamos que um terço delas não tinha acesso a qualquer ensino à distância, a larga maioria nos países do Sul. Propus a criação de uma Coligação Mundial para a educação de forma a implementar rapidamente soluções que favorecessem a continuidade pedagógica. Houve perto de 200 Estados a juntar-se à coligação. Num ano e meio de ação, conseguimos, em conjunto, apoiar 400 milhões de alunos e 12 milhões de professores em 112 países. É uma bela vitória, mas a mobilização tem de continuar, tanto mais que a crise do covid-19 ainda não ficou para trás: as escolas continuam fechadas - total ou parcialmente - em 66 países, o que afeta 737 milhões de alunos.

As guerras e conflitos têm muitas vezes como alvo locais inscritos na lista do Património Mundial - como por exemplo Timbuktu, Aleppo ou Palmyra. O que faz a UNESCO para ajudar à sua reconstrução?
Essa é uma das grandes preocupações da UNESCO. Logo que um conflito chega ao fim e que as condições assim o permitem, estamos ao lado dos Estados para trabalhar no diagnóstico e reconstrução desses locais. Isso vale para o Património Mundial, mas os nossos campos de intervenção são muito mais vastos. O melhor exemplo é Mossul. Quando o Estado Islâmico foi finalmente afastado, 80% da cidade histórica estavam destruídos. Eu propus juntar todas as forças da UNESCO, do património, da cultura, da educação, para fazermos renascer o espírito desta cidade milenar. Já recolhemos mais de cem milhões de dólares. Estamos hoje a trabalhar para reconstruir a mesquita Al Nouri, o minarete Al Hadba, duas igrejas e uma centena de casas históricas. Lançámos um vasto projeto educativo de prevenção do extremismo, formámos mais de mil pessoas, trabalhámos para a retoma da vida artística e abrimos também um local dedicado à indústria cultural. A UNESCO é uma das poucas organizações internacionais a conseguir alavancar tantos sectores ao mesmo tempo.

A UNESCO celebra o seu 75.º aniversário. Quais são os grandes desafios para o futuro da organização?
O mandato que foi entregue à UNESCO há 75 anos é hoje mais atual do que nunca. O mundo continua a ter tanta necessidade de educação, de cultura, de ciência e de liberdade de informação para uma paz duradoura entre os homens como tinha na altura. Na UNESCO estamos na primeira linha em cada um destes sectores, como podem testemunhar os acordos inéditos alcançados sobre ciência aberta e sobre a ética da inteligência artificial que acabam de ser adotados pelos 193 Estados membros, ou ainda o nosso relatório sobre o futuro da Educação que traça perspetivas mundiais com o horizonte de 2050. Perante os perigos das alterações climáticas, a UNESCO reforça as suas zonas de biosfera, que representam já 6% das terras imersas do planeta, e está a trabalhar para encontrar o equilíbrio certo entre o Homem e o seu ambiente. Estamos ainda a trabalhar para que todos os Estados integrem a educação ambiental nos seus programas escolares até 2025.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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