Filmes para conhecer o mundo à nossa volta

Entre as curtas exibidas em Vila do Conde encontramos reflexões sobre o valor das imagens, desde as atualidades do cinema mudo até ao trabalho de um árbitro de futebol.

A competição internacional do Curtas Vila do Conde deu a ver alguns curiosos sintomas do modo como fazemos história "através" das imagens, valorizando a revisão crítica de documentos filmados, mais ou menos "antigos" - Burried News (EUA), de Bill Morrison, pode servir de esclarecedor exemplo.

O título ("Notícias enterradas") apela à metáfora, mas deve ser tomado à letra. Morrison trabalhou a partir de uma coleção de bobines do período mudo (incluindo 114 jornais de atualidades) que, em 1929, foram enterradas em Dawson City, no Canadá; descobertas em 1978, durante os trabalhos de um novo edifício, o seu testemunho continua a ecoar no nosso presente. E tanto mais quanto as imagens resgatadas incluem memórias de perturbante atualidade simbólica, envolvendo sinais de racismo ou manipulação da opinião pública.

Já conhecido do Festival de Berlim, Night for Day (Portugal/Áustria), de Emily Wardill, britânica com uma trajetória profissional muito ligada a Portugal, é outro objeto a ter em conta. Algures "entre" documentário e ficção, descobrimos depoimentos de três vozes: Isabel do Carmo, recordando os tempos de resistência ao fascismo em Portugal, Alexander Bridi e Djelal Osman, astrofísicos de uma startup lisboeta que estudam a perceção das imagens. São mesmo três vozes, já que nenhuma dessas personalidades está presente nas imagens, transformando Night for Day numa sugestiva deambulação sobre os modos como vemos (ou julgamos conhecer) o mundo à nossa volta - incluindo uma deliciosa citação do clássico britânico Os Contos de Hoffman (1951) de Michael Powell e Emeric Pressburger.

VO (França), de Nicolas Gourault, explora a questão da perceção do tráfego automóvel através da análise de um teste com um veículo concebido para um modelo futurista de condução, sem necessidade de intervenção do ser humano ("vehicle operator", de acordo com as iniciais do título). A presença das imagens virtuais encontra um tratamento bem humorado num filme de Ayce Kartal, celebrando a importância do visual mesmo em situação apocalíptica: I Gotta Look Good for the Apocalypse (Turquia) é uma espécie de reportagem imaginária sobre a conjuntura pandémica, brincando com uma sugestiva variedade de imagens, dos jogos de vídeo às conferências Zoom.

Enfim, celebremos a descoberta de uma obra-prima sobre o futebol: O Jogo (Suíça), de Roman Hodel, segue (literalmente!) os movimentos de Fedayi San, árbitro internacional da FIFA, durante um encontro Young Boys-Lugano do campeonato suíço. Os seus breves e fascinantes 17 minutos fazem inevitavelmente lembrar a longa-metragem Zidane - Um Retrato do Século XXI (2006), em que Douglas Gordon e Philippe Parreno filmavam o jogador do Real Madrid durante um jogo completo; agora, assistimos ao diálogo constante entre San, os colegas em campo e os elementos do VAR, numa dinâmica visual (e sonora!) que humaniza os acontecimentos. Se tivéssemos mais filmes assim, e menos guerras entre comentadores, talvez o nosso olhar desse mais valor à beleza do futebol.

dnot@dn.pt

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