Filmando o futuro que já aconteceu

Com o seu filme Abraça-me com Força, Mathieu Amalric propõe uma narrativa melodramática em que todos os tempos são ambíguos - com a talentosa Vicky Krieps no papel central.

Poderemos começar por definir Abraça-me com Força, o novo filme realizado por Mathieu Amalric, a partir de um dispositivo clássico de melodrama. A saber: alguém abandona o espaço familiar... É, neste caso, a mãe, Clarisse, que surge como o elemento de rutura: uma manhã, levanta-se, observa o marido e os filhos, ainda deitados, pega na sua mala e sai de casa.

Que está a acontecer, então? Em boa verdade, não temos a certeza. Vicky Krieps, a talentosa atriz luxemburguesa cuja carreira se internacionalizou graças a Linha Fantasma (2017), de Paul Thomas Anderson, representa Clarisse a meio caminho entre a determinação e o sonambulismo. De tal modo que cedo compreendemos que não estamos perante uma narrativa linear: aquilo que está a acontecer pertence a um presente ambíguo, marcado por um passado que não se aquieta, assombrado por um futuro que talvez já tenha acontecido.

Aliás, a incerteza de todos os tempos - e também a sua surpreendente cumplicidade - vai sendo reforçada, cena a cena, pela criação de insólitos laços visuais e sonoros: um gesto que se repete em situações diferentes, uma canção que parece servir de banda sonora a lugares sem ligação aparente, uma frase que se escuta antes (ou depois) do cenário que a viu nascer.

Amalric reencontra, assim, o prazer poético de um cinema que resiste aos modelos correntes de narrativa (tendo como base a peça Je Reviens de Loin, de Claudine Galea). É um processo inusitado e misterioso, parecendo satisfazer o célebre adágio atribuído a Jean-Luc Godard, quando lhe perguntaram se os seus filmes, inequivocamente experimentais, tinham "princípio, meio e fim". O cineasta de Pedro, o Louco terá respondido: "Sim, mas não necessariamente por essa ordem..."

Entenda-se: o objetivo de Amalric não se confunde com a exploração de uma instabilidade temporal apostada em "confundir" o espectador. Aliás, em boa verdade, Abraça-me com Força é um filme que desliza com uma serenidade invulgar, tecida de contenção e elegância. Não se trata de baralhar os elementos da sua "intriga", mas sim de observar como os seres humanos são feitos, ou melhor, existem através desse ziguezague em que o tempo se faz e desfaz como um destino que, continuamente, denuncia o seu ilusório determinismo.

Não sei se Amalric reconhece Alain Resnais (1922-2014) como referência inspiradora do seu trabalho, sendo, em qualquer caso, curioso recordar que interpretou dois dos seus títulos finais: As Ervas Daninhas (2009) e Vocês Ainda Não Viram Nada (2012). O certo é que, nem que seja pelas ambivalências da sua narrativa, Abraça-me com Força leva-nos a evocar os sobressaltos de uma modernidade que, na obra de Resnais, encontrou a sua concretização exemplar em clássicos como O Último Ano em Marienbad (1961) e Muriel ou o Tempo de um Regresso (1963).

No limite, este é um cinema cuja sedução e sensualidade não podem ser reduzidas à já referida instabilidade das referências temporais. Tal instabilidade é inseparável de uma pergunta fulcral que, sendo narrativa, é também filosófica: afinal, quem é o narrador do filme? Ou ainda: contar uma história é seguir uma voz que nos conduz, ou descobrir que essa voz pode ser uma fabricação do nosso desejo de conhecer? Da incerteza da situação nasce o fascínio do cinema.

dnot@dn.pt

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