Filho da estrada e do vento

Apresentado no último LEFFEST, no âmbito da retrospetiva dedicada ao realizador Tony Gatlif, Tom Medina é um filme livre, rodado numa região natural no sul de França e centrado na personagem do título, um jovem à procura de uma ideia de destino.

Em novembro passado, a cultura rom foi o tema central da 15.ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival, e foi nesse contexto que o nome do franco-argelino Tony Gatlif (n.1948) surgiu como um dos seus melhores representantes no cinema, tendo marcado presença no festival para falar de Tom Medina, então em antestreia. O filme chega agora às salas embalado por essa celebração, e é todo ele atravessado por uma alma cigana que entra pela banda sonora adentro, com notas de rock e flamenco, agitando a personagem titular. Ao que consta, o jovem Tom Medina (David Murgia) será uma versão do próprio realizador, que se inspirou em memórias da adolescência e, em particular, na sua chegada a França nos anos 1960, para forjar um retrato entre o natural e o espiritual.

A primeira cena do filme é brilhante. Depois de um toureiro supersticioso abandonar a arena, por recusar a lide num dia em que se cruzou com um gato preto, um rapaz aficionado salta da plateia, enverga o chapéu desse toureiro, começa a desafiar o touro como quem desafia a morte, e não se fica por aqui. Repete a proeza mais uma vez, conseguindo sempre alcançar a bancada segundos antes de o animal lhe tocar, e na energia desses gestos-relâmpago fica definido o protagonista: Tom Medina é um ser afoito, disposto a enfrentar o destino.

Não há muitos filmes com esta capacidade de síntese logo nos primeiros minutos, mesmo que, no caso, o que vem a seguir não esteja tão ao nível do início exemplar. A lente de Tony Gatlif acompanha de perto a turbulência do corpo do herói, alguém em liberdade condicional que é enviado para uma quinta onde estará às ordens de um criador de cavalos, Ulysses (Slimane Dazi), a princípio desconfiado da postura vivaça do jovem. Uma atitude de resistência que rapidamente se converte em tolerância, já que Tom, apesar da inclinação para se meter em sarilhos, no fundo, não parece mau rapaz - há fantasmas no seu íntimo que são disfarçados pelo sorriso traquina, mas acabam por ser determinantes para justificar a sua desordem existencial. É aí que entra o elemento mágico de Tom Medina, nomeadamente com as aparições de um touro branco luminoso nas paisagens da Camarga, a região pantanosa e selvagem do sul de França onde a ação decorre.

Dir-se-ia, aliás, que o que confere ao filme razão de ser é mesmo o sentido místico do lugar, o modo como Gatlif capta a fauna e a flora na sua essência bravia, dando margem para o imaginário de uma fantasia de western. Algo que vem compensar a falta de um arco narrativo, de um fio condutor para lá do perfil esboçado deste "filho do vento". Nessa medida, a expressão solta de Tom Medina é um pau de dois bicos, porque tanto se revela feliz no abandono à aventura dispersa, como deixa no espetador uma sensação de desnorte ou a ideia de que pouco ou nada aconteceu. Seja como for, há uma simpatia humana naquele final, que enquadra duas personagens numa estrada de terra batida, capaz de evocar o de Tempos Modernos (1936). Sim, porque Tom Medina tem qualquer coisa do Vagabundo, de Chaplin. Desde logo, no seu empenho em despertar sorrisos na potencial cara-metade.

dnot@dn.pt

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