Fantasia: a experiência musical absoluta de Walt Disney

O clássico mais ousado dos estúdios Disney é exibido sexta-feira, 28, no grande ecrã do Centro Cultural de Belém. Um magnífico programa para as famílias, em tempo de quadra festiva.

Como não podia deixar de ser, tudo começou pelo Rato Mickey: num jantar com o famoso maestro inglês Leopold Stokowski, Walt Disney revelou-lhe que estava a preparar uma animação - para fortalecer a popularidade do roedor - inspirada na música O Aprendiz de Feiticeiro, de Paul Dukas. O maestro terá ficado bastante interessado no projeto e, com o decorrer da conversa, o que à partida seria apenas uma curta-metragem evoluiu para a dimensão final das várias curtas de Fantasia (1940)...

Quanto ao Mickey, apesar da inequívoca imagem de marca, teve de ceder parte do protagonismo à música. Nela assenta a imponente conceção de Walt Disney, que aqui procurou algo completamente novo no esquema da produção cinematográfica, reunindo os melhores ingredientes: desenhos animados e grandes temas da música clássica combinados numa suprema manifestação simultaneamente artística e popular. Seria a produção mais audaz dos estúdios. Um filme-concerto com a participação da Orquestra de Filadélfia dirigida pelo próprio Stokowski.

São estes dois pilares - animação e repertório erudito - que erguem Fantasia como um objeto fora de série dentro da linha Disney. Lançado depois de Branca de Neve e os Sete Anões (1937) e Pinóquio (1940), representou um ambicioso gesto, não só criativo como técnico, tendo por principal inovação o sistema de som estéreo Fantasound, que permitia simular a acústica de um concerto ao vivo, com o som dos instrumentos a surgir de diversos pontos (e com diversas intensidades), para proporcionar ao público a "vivência" total do filme. Na altura, o único entrave a este desejo de Walt Disney foi a recusa da distribuidora RKO em instalar esse sistema nos cinemas americanos, deixando à equipa dos seus estúdios o encargo de facultar tal experiência; o que acabou por se revelar financeiramente inexequível (só o conseguiram fazer em 12 salas).

Além disso, a crítica também se dividiu perante o arrojo do empreendimento, contribuindo para os pouco satisfatórios resultados de bilheteira, que representariam para Walt Disney um enorme desencanto, dada a paixão e o entusiasmo que colocou em cada detalhe do projeto. Acalentava a esperança de que Fantasia ficasse em cartaz durante anos, com segmentos constantemente renovados, e não viveu para conhecer o sucesso posterior, que originou o estatuto de cult movie, nem Fantasia 2000 (1999), uma versão de tributo ao original.

Oito segmentos entre a abstração e a mitologia

O sentido de obra absoluta que caracteriza Fantasia está também no modo como esta se estrutura. A introdução de cada um dos oito segmentos, feita pelo compositor e crítico musical Deems Taylor, é um estímulo para refletir sobre o poder da música em relação às imagens e vice-versa. Logo a iniciar o percurso, Tocata e Fuga em Ré Menor, de Bach, é o pretexto para uma belíssima reprodução abstrata da melodia, que nos faz imergir no universo sensorial de formas e cores; seguem-se Suite O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky, que substitui a narrativa tradicional pela representação das estações do ano através de uma coreografia visual com fadas e pozinhos; depois é a vez da mais célebre - O Aprendiz de Feiticeiro -, em que Mickey protagoniza um delirante episódio de magia amadora, terminando no momento em que a silhueta do rato aparece no cenário, entre segmentos, para cumprimentar Stokowski; Sagração da Primavera, de Stravinsky, visualmente interpretada como a evolução da vida na Terra naquela que é uma das partes mais sofisticadas no que respeita aos efeitos especiais (sobretudo os dinossauros); Sinfonia Pastoral, de Beethoven, que vai beber ao imaginário da mitologia grega, apresentando, pela primeira vez na história da Disney, centauros e outras criaturas, além de Dioniso, oDeus do Vinho; a Dança das Horas, de Amilcare Ponchielli, uma deliciosa paródia ao bailado clássico, com avestruzes, hipopótamos, crocodilos e elefantes; e, finalmente, dois em um: o duelo entre o profano e o sagrado, traduzido em Uma Noite no Monte Calvo, de Modest Mussorgsky, seguido de Ave Maria, de Schubert.

Esta última é, sem dúvida, a mais polémica das sequências, pelo retrato tão explícito e assustador do Mal (então inédito na linguagem Disney), na figura do diabo Chernaborg, que do cimo de um monte atormenta as almas numa noite de Halloween. Mas contra as Trevas vence a Luz, e esta chega através de Ave Maria, no retrato de uma procissão religiosa.

Tudo isto é Fantasia. Música que conduz o olhar, e imagens que fazem sentir a melodia. E tudo isto - do mais tremendo, encantador e fabuloso que os estúdios nos deram - pode ser descoberto ou redescoberto amanhã no Grande Auditório do CCB, pelas 16.00.

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