Esther Williams: a sereia de Hollywood que queria ser campeã olímpica 

No mesmo dia em que terminam os Jogos Olímpicos comemora-se o centenário de Esther Williams, a nadadora que esteve à beira das Olimpíadas de 1940, tornando-se estrela dos musicais aquáticos da MGM. A Segunda Guerra Mundial trocou-lhe as voltas à carreira.

Foi numa piscina de 250 mil dólares, construída de raiz dentro de um estúdio, com janelas subaquáticas, fontes e elevadores hidráulicos, que Esther Williams nadou mais de 1600 quilómetros para as câmaras, entre tímpanos perfurados sete vezes e três vértebras lesionadas (seis meses de recuperação) depois do salto de uma prancha a 15 metros de altura usando uma coroa de metal e um fato de banho com 50 mil lantejoulas, cujo peso a puxou para o fundo e teve de se despir debaixo de água, nadando nua até à superfície... A contabilidade por trás das inebriantes performances aquáticas da vedeta dos musicais da Metro-Goldwyn-Mayer assusta um pouco, mas faz parte da história desta nadadora de competição que fez movimentar as bilheteiras quando, através do cinema, se converteu na mais popular figura da natação sincronizada. Eram os anos dourados de Hollywood.

Nascida a 8 de agosto de 1921 em Inglewood, Califórnia, Esther Jane Williams começou a nadar com oito anos, entrou para o Los Angeles Athletics Club onde se formou como atleta de competição, e aos 17 já acumulava títulos. Três medalhas de ouro nos campeonatos nacionais de 1939 deram-lhe lugar na equipa olímpica norte-americana e fizeram-na sonhar com o título máximo, mas o eclodir da Segunda Guerra Mundial, que ditou o cancelamento dos Jogos Olímpicos de 1940, impediu a sua concretização.

Perante o vazio deixado pelo contexto de guerra, o empresário Billy Rose, que a escolhera para o seu espetáculo aquático (Aquacade), aconselhou-a a apostar na "beleza" da sua presença na água, em vez da velocidade. E foi precisamente nesse show, ao lado do antigo campeão olímpico de natação e Tarzan no cinema, Johnny Weissmuller, que acabou por ser descoberta pelos caça-talentos da MGM. Ainda resistiu durante um ano à promessa dos estúdios, mas Louis B. Mayer podia estar descansado: o "sim" dela iria ofuscar a popularidade da patinadora olímpica Sonja Henie, que tinha contrato com a rival Twentieth Century Fox.

E assim mergulhou Williams nas águas glamorosas de Hollywood. Depois da apresentação em A Vida Privada de Andy Hardy (1942), um dos filmes da série protagonizada por Mickey Rooney, e de uma pequena participação em Um Certo Rapaz (1943), de Victor Fleming, a fama chegou com Escola de Sereias (1944), de George Sidney, grande êxito desse ano, o primeiro título dos "aquamusicais" que definiram o seu percurso na indústria do cinema americano. Nessa categoria - quase sempre filmes com uma fórmula certa de romance, comédia e um elemento narrativo que a atirasse para a piscina -, destacam-se As Mil Apoteoses de Ziegfeld (1945), obra de segmentos com um brilhante número de ballet aquático, Numa Ilha Com Ela (1948), A Rainha das Sereias (1949), A Canção Pagã (1950), o esplendoroso A Rainha do Mar (1952), e A Sereia Perigosa (1953); este último, o filme em que atravessa a nado o Canal da Mancha com o futuro e terceiro marido, Fernando Lamas.

Para além destas performances que fizeram plena justiça ao uso do Technicolor, e pelas quais lhe chamaram "sereia do milhão de dólares" (a partir de Million Dollar Mermaid, título original do filme A Rainha do Mar e da autobiografia lançada em 1999), teve algumas experiências mais apostadas no registo fora de água, como o drama O Bom Ladrão (1946), de Norman Taurog, onde contracena com William Powell, ou, do mesmo ano, a comédia Casar é Fácil, desta vez com Van Johnson. Nada que se compare ao sucesso dos musicais aquáticos, diga-se de passagem, e algo que lhe valeu um famoso comentário maroto da comediante Fanny Brice: "Wet, she"s a star; dry, she ain't" ("Molhada, ela é uma estrela. Seca, não é nada"). Esther sabia que não tinha nascido para ser atriz, por isso não levou a mal.

A verdade é que a "sereia de Hollywood" era tão deslumbrante e sofisticada dentro de água que, fora dela, qualquer interpretação parecia ficar aquém; isto se se retirar a beleza, elegância e simpatia da sua presença no grande ecrã a cores. Um dos raros filmes em que não se nota assim tanto o contraste de valor entre a prestação aquática e a prestação em terra firme é A Linda Ditadora (1949), derradeiro título de Busby Berkeley, o coreógrafo genial de algumas das suas performances aquáticas, que aqui, curiosamente, só a filma numa breve cena informal de piscina, escolhendo apostar por inteiro na "estrela seca" fora do aquário, a mulher capaz de pôr Gene Kelly e Frank Sinatra a seus pés, sem se descoordenar nessa pele de atriz.

As Olimpíadas possíveis

Quando já tinha deixado para trás as lides do cinema - retirou-se da indústria no início dos anos 1960 -, Esther Williams foi convidada pela NBC Sports para participar nos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles. Não na qualidade de atleta, obviamente, mas como comentadora da natação sincronizada (designada natação artística desde 2017), modalidade que fora introduzida na competição olímpica desse ano. Uma espécie de gesto simbólico para com a mulher que, através dos seus filmes, popularizou um desporto artístico e inspirou jovens atletas.

Dos jogos desse ano saíram com medalhas de ouro as nadadoras Tracie Ruiz-Conforto e Candy Costie. Um feito que encheu o coração de Williams, como se lê na autobiografia: "Fiquei emocionada ao perceber como estas raparigas tinham visto aqueles filmes e se tinham juntado em grupos com o objetivo de nadar em beleza e não em velocidade." O tal conselho mágico de Billy Rose... E continua: "Fiquei orgulhosa de estar lá quando a modalidade chegou às Olimpíadas. Orgulhosa por ter sido uma inspiração, a madrinha de um desporto. Foi um momento muito emocionante. Pensei: adoro cada uma daquelas miúdas na água." Morreu em 2013, com a certeza de que esse elemento, a água, tinha sido o seu melhor parceiro.

dnot@dn.pt

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