Este filme sobre refugiados esconde um outro que ainda está por fazer

O festival Olhares do Mediterrâneo - Cinema no Feminino, termina neste domingo. O DN falou com a realizadora turca Sinem Tas sobre a história de um prisioneiro político que está por trás de My Kaaba is HUMAN, sobre refugiados a viver em Portugal

A ideia inicial da jovem turca Sinem Tas não era fazer este My Kaaba is HUMAN, curta-metragem em torno de refugiados em Portugal, que na quinta-feira foi exibido no festival Olhares do Mediterrâneo - Cinema no Feminino. A ideia era fazer um filme sobre o seu tio, prisioneiro político na Turquia desde 1996, ano em que este tinha 21 anos. Mas o seu tio recusou. "Não quer que se fale dele, quer ser low profile", explica.

A realizadora ficava assim impedida de fazer um filme sobre o homem que, preso entre quatro paredes, lhe disse, entre tantas coisas, que tinha de experimentar skydiving. Ele, claro, nunca o fez - "foi preso muito cedo e estava muito envolvido politicamente" -, mas, leitor ávido, leu sobre isso, e depois quis ouvir como era pela sobrinha, com quem se corresponde intensamente desde a adolescência desta, que o visita sempre que vai à Turquia.

"É muito interessante como alguém cujo corpo está preso entre paredes consegue mudar a tua vida de alguma forma e tem um impacto muito grande na tua vida. Fisicamente está na prisão, mas a sua mente é muito mais livre do que a de muitos de nós", afirma, confiante de um dia vir a fazer este filme que se chamará Ali, nome do seu tio, e daquele que seguem os alevitas, grupo religioso e cultural xiita a que esta família, embora não crente, pertence.

"As pessoas têm de saber que estas pessoas existem, algures na prisão", acrescenta Sinem Tas, que terminou agora o mestrado em arte multimédia na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, e trabalhou antes como fotojornalista na Turquia. "[Com o filme] estarei a falar da Turquia, e da minha avó, que é uma mãe que sofreu porque o seu filho estava preso. É sobre o meu tio mas é um perfil do país."

Mas este, note-se, é o filme que não existe. Falemos, então, do que existe, pelo menos por agora: My Kaaba is HUMAN. "Kaaba" é o centro da mesquita mais sagrada de Meca, Masjid al-Haram. Nele conhecemos TA, do Congo, que não quer ser identificado. TA foi raptado por terroristas e viveu com ele durante sete meses. Todos dias via pessoas serem assassinadas à sua frente. Não podia nem fazer os movimentos de quem quisesse fugir, ou seria morto.

Mohammed, de Mossul, que conhecemos com a sua família em Setúbal , diz logo no começo: "Sabes quando é que a minha vida começou? 3 de março." Foi quando chegou à Grécia. "Tornei-me noutra pessoa às 7 da manhã de 3 de março." O barco onde veio havia naufragado. Muito aconteceu antes de chegar à Europa.

"Não tenho nenhuma memória feliz de Mossul"

Vemos também Kanoute, do Senegal, que não consegue parar de falar da sua ex-namorada, que o traiu. Não é muito comum ouvirmos e vermos refugiados falarem de um desgosto amoroso, da sua mãe, ou do seu primeiro amor, como acontece nesta curta-metragem. TA sorri quando fala da sua primeira namorada, ainda que apenas vejamos sempre a sua cara em close-up.

Ouvimo-los também falar do que em criança queriam ser quando crescessem. TA queria ser piloto, Kanoute, que desde que chegara a Portugal ainda não tinha contado aquela história, continua a falar da ex-namorada. Depois vem Sipal, uma das filhas de Mohammed, que quer ser médica.

Um dos momentos mais fortes é quando tudo fica preto e ouvimos apenas uma voz de rapariga dizer: "De facto, não tenho nenhuma memória feliz de Mossul." Sinem Tas explica: "Eu queria enfatizar aquela frase vinda de uma rapariga pequena. Eu perguntei-lhe. Ela tem 13 anos e nenhuma memória boa do sítio de onde vem. Acho que é muito importante uma criança ter dito isto. Queria que pensássemos nisto. "

Outro dos refugiados queixa-se de que não consegue trabalhar. "Se nos derem terra podemos cultivá-la. Podemos trabalhar e até contratar 100 portugueses para trabalharem connosco. Nós não somos inúteis. Sabemos trabalhar como deve ser. Mas não há apoio. Todos estes jovens refugiados, atiram-nos para uma casa. Dão-lhes apenas 150 euros. Eles são jovens."

A realizadora turca percebeu isto melhor do que nunca quando a família de Mohammed partiu sem aviso para a Alemanha, em busca de uma vida melhor, ainda durante as filmagens. "Estavam a receber muito pouco dinheiro todos os meses. Outros jovens com quem não consegui falar [para o filme] queixavam-se muito: 'Nós não saímos para não gastar dinheiro. Estamos a morrer dentro desta casa.' Não conseguem autorização para trabalhar, são demasiados procedimentos", diz Sinem Tas, que continua em contacto com aquela família curda.

Ainda sobre todo o processo, conta que "a parte mais difícil foi ouvir as histórias. Eu achava que estava preparada mas nunca podemos estar preparados para algo assim. Não estava a tentar dramatizar nada. A situação em si mesma é dramática. Eu queria o lado humano. Só por serem refugiados esquecemo-nos de que são seres humanos."

Quanto a Sinem Tas e ao seu filme sonhado, Ali, continuará a tentar. Mesmo sem esperança de que o tio seja libertado. "A pena começou com prisão perpétua, depois reduziram-na para 36 anos. Mas o problema é que quando estás na prisão não te deixam em paz. Por exemplo, estás na tua cela a dormir e às seis da manhã entram os guardas, desarrumam tudo e, se tentas pará-los, acusam-te de agir contra eles. Então há novo julgamento e aumentam-te a pena." Conta ainda que há uns anos ofereceram a liberdade ao seu tio, em troca de uma declaração de culpa. Ele não aceitou.

Um festival para vermos o Mediterrâneo com os olhos delas

"A nossa aposta é dar a conhecer o cinema feito por mulheres da área do Mediterrâneo. Normalmente o cinema independente não entra no circuito de distribuição e, tipicamente, como em todas as outras áreas, as mulheres são menos representadas do que os homens. Portanto, queremos criar uma ocasião para o público conhecer estes trabalhos", explica ao DN Silvia Di Marco, programadora do Olhares do Mediterrâneo.

O extenso programa do festival, cuja quinta edição termina neste domingo, percorre temas como o trabalho, a ocupação israelita da Palestiniana, a questão das migrações, com o foco sobre os refugiados na secção Travessias, a questão dos direitos das pessoas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais),entre outros. Outra das secções de competição é Aprender a Olhar, com filmes de estudantes de cinema que, pela sua qualidade, a equipa do festival decidiu misturar na programação com os filmes das restantes secções.

A variedade temática, diz Silvia Di Marco, "também mostra que as mulheres se preocupam com temas muito diferentes e que fazem formas de cinema diferentes." A programadora fala, por exemplo, das comédias que serão exibidas no festival, como Avant La Fin De L'Été (ou Before Summer Ends), que amanhã fecha o festival às 19.00. É uma comédia centrada em dois amigos que percorrem a França durante um verão, depois de um deles dizer que não se adaptara e vai voltar ao Irão, seu país natal.

"Podemos falar de temas importantes de forma mais leve. As mulheres também sabem fazer filmes humorísticos. Há esta ideia de que as mulheres fazem mais filmes empenhados ou mais relacionados com a condição feminina ou com a família, temas que são tradicional e erroneamente associados ao que fazem ou interessa as mulheres. Estes filmes baralham as ideias feitas que temos sobre o cinema e como representar certos papéis e certas relações", afirma a programadora.

Nesta edição, o festival recebeu propostas de 355 filmes, dos quais a equipa selecionou os 51 filmes que compõem a mostra. 49 deles estão em competição.

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