Emma Corrin num affaire para lembrar

Laure de Clermont-Tonnerre, a cineasta de The Mustang, está de volta com uma versão fresca do clássico de D.H. Lawrence. O Amante de Lady Chatterley pertence todo à sua protagonista, a radiosa Emma Corrin. Chega esta semana à Netflix depois da boa receção no BFI- Festival de Londres.

O romance de D.H. Lawrence à luz do novo feminismo no contexto do cinema de autor internacional. Laure de Clermont-Tonnerre e o argumentista David Magee (do novo Mary Poppins) não querem fazer manifesto mas não escapam à vontade de propor um diálogo sobre uma forma de repensar o patriarcado. Dirão os mais desconfiados que é um "produto" Netflix, mas também convém dizer que é daqueles onde se sente uma permissão autoral maior, a tal ponto que os melhores festivais internacionais da rentrée deram-lhe "slots" prestigiantes.

Em jeito de fábula sobre o desejo feminino e movido à luz milagrosa de um dos maiores criadores de imagens dos nossos dias, o diretor de fotografia Benoît Delhomme, acompanhamos um caso de adultério na província inglesa edwardiana. Lady Chatterley é uma jovem mulher que vive numa grande casa de campo do marido, um nobre atirado a uma cadeira de rodas e que a menospreza. Aborrecida e desiludida, começa a conhecer melhor o caseiro, um homem solitário e que nutre por ela uma óbvia atração. Pelo meio, o marido instiga-a a engravidar discretamente através de um outro homem devido à sua impossibilidade física. Mas o problema é que entre ela e o caseiro há uma erupção forte, tão sexual como romântica. Ao mesmo tempo, o marido começa a desenvolver um sentido de exploração laboral que a deixa cada vez mais magoada. A luta de classes e o despertar sexual cruzam-se de forma orgânica. Mérito de uma realização sempre elegante e capaz de filmar corpos num êxtase nada plastificado.

Dir-se-ia que O Amante de Lady Chatterley é um objeto que devolve uma possibilidade de melodrama erótico clássico, feito com uma tensão dramática com os níveis emocionais equilibrados e sempre seguro a justificar a metáfora da liberdade individual - garantidamente não se pregam sermões sobre o direito à abolição dos tabus sexuais. Além do mais, tem garra e raça. As suas cenas de sexo não são vulgares e, alívio, não têm o habitual "male gaze" forçado - são essencialmente uma celebração da cumplicidade de dois corpos. Um olhar que é ancorado no trabalho magnífico dos atores, em especial uma atriz capaz dos mais indeléveis milagres, Emma Corrin, que já era ótima a fazer de Diana em The Crown e esplendorosa em My Policeman, o tal filme "gay" de Harry Styles, e Jack O"Connell, conhecido de Seberg e Invencível, porventura um ator algo subestimado...

Para acertar as contas com a narrativa e o respeitinho ao livro, o tom do filme fica mais controlado no último terço, nada que manche a impressão geral: um clássico adaptado com êxtase e ideias, tal como já tinha acontecido com a versão francesa de Pascale Ferran, em 2006, onde o "amante" saía do título - o filme era um retrato exclusivamente feminino. O que distingue este filme inglês é imposição de uma ternura feminina, uma ternura que é também sexual. Nesta crónica de um desejo feminino mandam-se às urtigas a pegada empedernida do "filme de época" - esse é o outro alívio desta proposta.

dnot@dn.pt

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