Duas gerações à conversa sobre a vida

Assinado por Alice Vieira e Nélson Mateus, o livro Diário de uma Avó e de um Neto Confinados em Casa chegou depressa à segunda edição. Em foco está a importância da partilha de experiências.

Nélson lembra-se do tempo em que a televisão só tinha dois canais, que mudavam de um para o outro se o senhor telespectador se dispusesse a erguer do sofá e carregasse num botão incorporado no aparelho recetor (como então se dizia). Alice ri-se e reage: "Olha, e eu sou do tempo em que nem havia televisão, quanto mais zapping." Este tipo de diálogo entre gerações, com memórias e perceções do mundo naturalmente diversas, é uma constante da conversa entre a escritora Alice Vieira e Nélson Mateus, dinamizador do programa "Retratos Contados" que há vários anos aposta justamente nesta arte de valorizar os mais velhos através da partilha de experiências. Sem saudosismo e com muito humor.

Assim nasceu o livro Diário de uma Avó e de um Neto Confinados em Casa (edição Casa das Letras), que chegou em tempo recorde à segunda edição ("nunca vi tal rapidez com nenhum dos meus outros livros. E tenho 80 publicados", admite Alice). Tudo começou no segundo confinamento, no inverno passado. Apesar de muito ocupada, tão ocupada como sempre esteve, Alice sentiu necessidade de um novo estímulo para não perder o fio aos dias subitamente mais vazios: "Falei com o Nélson e ele propôs-me escrever um diário. Assim, eu comecei por escrever sobre coisas mais antigas e ele sobre coisas mais recentes." As crónicas foram saindo no jornal Sol e no site Retratos Contados.

A adesão do público foi imediata: "As pessoas interagiam imenso, davam ideias, contavam as suas próprias histórias. A minha editora percebeu o potencial e decidiu publicar em livro mal o acabássemos de escrever." O sucesso repetiu-se, como prova a rápida chegada à segunda edição.

Nélson Mateus testemunha que esta interação do público com os textos prossegue nas tertúlias que vai dinamizando um pouco por todo o país, em bibliotecas, centros de dia, universidades sénior. Mas a reação que mais o impressionou aconteceu no verão passado, na Feira do Livro de Lisboa: "Demos um autógrafo a um miúdo de 14 anos e eu perguntei lhe se ele comprava o livro para oferecer à avó e ele respondeu-me: "Não, é para saber mais sobre a vida dos meus antepassados em Portugal". E este livro acaba por ser também isso: O relato de uma época em que nem sequer havia telefone fixo em casa, quanto mais telemóveis. Ou em que a televisão era a preto e branco e só tinha os dois canais da RTP." Daí, a provar-se que um confinamento em épocas sem tanta facilidade de comunicação ou com menos ofertas de entretenimento seria bem mais difícil de suportar, vai um passo. "O ano de 2020 foi estranho para todos", diz Nélson. "Nunca passámos tanto tempo em casa, nunca passámos tanto tempo sem ver ou tocar aqueles que nos são queridos. Felizmente apareceram respostas tecnológicas. Mas como faz uma avó que nunca aprendeu a mandar SMS ou um avô cujo telemóvel não tem câmara? Mais do que nunca, as gerações mais velhas têm-se visto isoladas, mas tal não devia ser, especialmente considerando a tecnologia que temos ao dispor."

Este diário a duas vozes tem, pois, um valor pedagógico, já que também mostra como se podem entreajudar duas pessoas muito diferentes (dizem os próprios), com vivências que também o são. "No primeiro confinamento", conta Alice , "o Nélson ensinou-me a fazer videochamadas, o que se revelaria essencial para mim." Em troca, contou a esta espécie de "neto adotivo" um monte de histórias sobre tempos em que, imagine-se, nem televisão havia para encher os dias com um pouco mais de mundo. "Claro que há sempre temas possíveis para conversas de avós e netos", garante Nelson. "Basta haver vontade."

Entretanto, em Torres Novas, está patente na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes (por curiosidade, no lugar onde funcionou em tempos a fábrica de álcool do pai da escritora), até 8 de janeiro, uma exposição sobre a vida e obra de Alice Vieira. Depois de ter estado na Casa da Cultura da Ericeira e no Casino do Estoril, seguir-se-ão, em itinerância, Ílhavo, Aveiro e Luso, sempre lugares, de algum modo, relacionados com a sua geografia pessoal e sentimental. Para breve, assim o permita a pandemia, está a organização de tertúlias literárias em torno da sua obra.

dnot@dn.pt

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