DocLisboa: Bruce Chatwin e a mochila que salvou Herzog na tempestade

Nomad: In The Footsteps of Bruce Chatwin é mostrado este domingo no âmbito do Doclisboa. Um documentário íntimo em que o cineasta alemão Werner Herzog revisita a memória e os lugares por onde passou o escritor e aventureiro inglês.

Quando Bruce Chatwin morreu, com apenas 48 anos, deixou a Werner Herzog a mochila de couro que usava nas suas viagens, como um gesto simbólico de um andarilho para outro andarilho. Herzog, com uma lágrima mal disfarçada, recorda esse gesto no recente documentário Nomad: In The Footsteps of Bruce Chatwin (passa domingo, pelas 21.30, no Cinema São Jorge), que fez para homenagear o amigo, 30 anos depois do seu desaparecimento, e onde chega a contar como essa mochila o protegeu, pelo período de 55 horas, numa tempestade de neve durante a rodagem de O Grito da Montanha(1991), em pleno Cerro Torre - uma das montanhas mais vistosas da Patagónia. Trata-se apenas de um objeto, é certo, mas com um profundo significado e memória.

Vem a propósito que os objetos eram um ponto de partida muito regular nas expedições do próprio Chatwin, como revela o seu biógrafo Nicholas Shakespeare, que é voz ativa no filme. Não por acaso, Herzog começa esta viagem documental aos lugares de Chatwin precisamente pelo objeto que marca a primeira página da primeira obra do escritor inglês: Na Patagónia. A saber, um pedaço de pele de animal que a sua avó tinha em casa e que, na infância, lhe diziam pertencer a um brontossauro - mais tarde descobriu ser de um milodonte, género de preguiça gigante pré-histórica.

Atrás da câmara, Herzog dirige-se então à caverna na Patagónia onde foram descobertos os vestígios desse animal, por Charley Milward (primo da avó de Chatwin), e a partir daqui enceta um percurso físico e literário por outros locais que fascinaram Chatwin, como o Outback australiano, onde o autor investigou as canções dos aborígenes (cunhando o termo "songlines" no seu livro homónimo), ou - uma "paisagem da alma" - as montanhas do País de Gales, onde Herzog se vai encontrar com a viúva do escritor, Elizabeth, nas ruínas de Llanthony Priory.

Dividindo o documentário em capítulos temáticos, tal como um livro, Werner Herzog reflete sobre a própria natureza deste trabalho, que não pretende ser biográfico. Ao colocar-se em relação direta com a personalidade do amigo, o cineasta de Fitzcarraldo vai relatando, na sua inconfundível voz off, o que o aproxima das questões e da literatura de Bruce Chatwin. Desde logo, fazendo a ponte para o seu cinema - evoca Sinais de Vida (1968), Wodaabe: Herdsmen of the Sun (1989)... - e revelando um olhar moldado pelo mesmo tipo de experiências que as de Chatwin e a mesma curiosidade pela mitologia aborígene. Tanto que Herzog não hesita em assumir-se um grande apreciador do estilo de prosa do autor inglês, em que factos e ficção se misturam na forma de "viagens da mente", como lhes chama. Chatwin, além do mais, recusava o rótulo estanque de "escritor de viagens", que punha de parte a sua dimensão de contista.

Em alguns momentos de Nomad: In the Footsteps of Bruce Chatwin escuta-se a voz gravada do protagonista em leituras de excertos dos seus livros, mas não são muitas as vezes em que se mostram fotografias dele. Como se a sua memória fosse melhor ilustrada pelos lugares por onde passou e pelas palavras dele e de quem o estudou ou conheceu - neste caso, sobretudo o próprio Herzog. Quando aparece diante da câmara, o realizador alemão, em conversa com o biógrafo Nicholas Shakespeare, expõe o caráter íntimo do empreendimento: partilha recordações emotivas e pensamentos sobre a personalidade de Chatwin e, para além da referida história da mochila de couro, detém-se com melancolia sobre o episódio da rodagem do seu filme Cobra Verde (1987), adaptado do livro de Chatwin O Vice-Rei de Ajudá, e protagonizado pela estrela violenta do cinema de Herzog, Klaus Kinski. Chatwin assistiu a algumas semanas de filmagens e terá sido uma das mais fortes experiências dos seus últimos anos de vida. Mais tarde, Herzog voltou a encontrá-lo com um impressionante rosto moribundo - que também o espectador vê, por breves segundos, entre as imagens de arquivo. O autor morreu em 1989, com o vírus da sida, aos cuidados da mulher, Elizabeth, que sabia da sua bissexualidade e nunca se sentiu traída naquilo que os unia - é a própria quem o afirma no documentário.

Para os apreciadores, talvez esta seja a oportunidade única de ver em sala, no âmbito do festival Doclisboa, Nomad: In the Footsteps of Bruce Chatwin. Um belo, sincero e espiritual encontro entre duas vozes com íntimas afinidades da mente. A caminhada é extensa, mas tudo tem uma mística e uma filosofia muito pessoal, de ambos os lados. Escreveu Chatwin no livro Na Patagónia, "O meu deus é o deus dos andarilhos. Quando se anda muito, provavelmente não se precisa de outro deus." Herzog parece completar esta ideia ao dizer, a certa altura, que "o mundo revela-se aos que viajam a pé." Acrescentar-se-ia também: e de mochila às costas.

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