Do amor e do jazz

Melodrama "fora de moda", Sylvie's Love, de Eugene Ashe, é um elogio ao romance no espírito da Hollywood clássica. Uma carícia de cinema, com Tessa Thompson, para ver no Prime Video.

Mesmo o espectador mais desatento já terá notado que há um fenómeno a acontecer no cinema americano. Uma tendência que lança uma nova perspetiva: aos poucos, as personagens negras vão ocupando o lugar central da história. E dentro dessa "reescrita", mais ou menos impetuosa, Sylvie's Love, de Eugene Ashe, será dos exemplos inequivocamente felizes, desde logo porque, mais do que um romance entre afro-americanos na Nova Iorque do início dos anos 1960, que fica bonito no papel, trata-se de uma hábil e refrescante apropriação do género do melodrama - território que se confunde com o nome de Douglas Sirk e a década de 1950 -, sem mudar nada no espírito clássico, mas dando outra cor aos protagonistas. "Queria fazer um filme em que os negros da época não existissem pela adversidade, mas pelo amor", disse o realizador em Sundance, onde o filme teve estreia em janeiro do ano passado.

De facto, ao assinar também o argumento original de Sylvie's Love, Ashe depositou nele uma visão que lhe chegou do próprio álbum de fotografias da família na referida época: nos retratos, os seus antepassados têm uma dignidade que, verdade seja dita, não está devidamente espelhada no cinema feito em Hollywood. Ou, se quisermos, há afinal uma história alternativa em que os negros viveram dentro de uma certa "normalidade" no contexto americano, próximos da imagem dos brancos, e com os mesmos dilemas humanos entre o amor e a realização pessoal.

Claro que não se suprimem do filme as evidências de uma sociedade racista e as suas microagressões, mas o enfoque está na ideia de que personagens ambiciosas como Sylvie (Tessa Thompson), uma jovem perita em música que sonha trabalhar na televisão, e Robert (Nnamdi Asomugha), um saxofonista talentoso, ambos afro-americanos, existiram apesar da omissão da narrativa hollywoodesca. Eles conhecem-se na loja de discos do pai dela, onde Robert acabará por conseguir um part-time, e o que ao início toma a forma de uma relação marcada por beijos roubados nas noites jazzísticas do Harlem (ela estava noiva de outro negro rico...), transforma-se numa série de encontros e desencontros, entre o verão de 1957 e 1962, com as carreiras de cada um a definir um sistema de escolhas íntimas que moldam o drama ao longo do tempo.

O encanto de Sylvie's Love, que é também o seu predicado old-fashioned, está na textura que reveste tudo, a começar pelo grão da lente 16 mm e a acabar nas notas de jazz, passando pelo irrepreensível design de produção. Sem vaidades estilísticas, mas com as noções certas de requinte urbano e tonalidade melodramática, Eugene Ashe domina as regras de um classicismo que atira o filme para a designação "já não se fazem destes." Espécie de murmúrio de outro tempo que revitaliza um género difícil de agarrar pela essência - entre os contemporâneos, ninguém o fez melhor do que Todd Haynes em Longe do Paraíso (2002) e Carol (2015) -, aqui evocado por uma destreza visual que se corresponde com a alma do jazz. O aconchego das emoções é, assim, assegurado por essa capacidade de pôr a música ao serviço da verve romântica: eis que o amor escreve direito por linhas tortas e melódicas.

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