"Dirigir uma orquestra destas enriquece-me muitíssimo"

O compositor e maestro Nuno Côrte-Real dirige este domingo (17:00) a Orquestra Sinfónica de Milão no Grande Auditório no CCB. No cartaz, obras de Grieg, Dvorák e uma sinfonia dele próprio inspirada em Paul Gauguin

Amanhã à tarde, o CCB recebe uma grande orquestra europeia: a Sinfónica de Milão Giuseppe Verdi, em Portugal pela primeira vez desde a sua estreia no nosso país, em 2002. A dirigi-la estará o compositor, maestro e programador Nuno Côrte-Real (n. 1971). Mas, na verdade, quando subir ao estrado do maestro, será já a quarta vez que Côrte-Real dirige esta formação italiana. É que tudo começou há dias com dois concertos no auditório-sede da Orquestra, a que se seguiu um concerto em Torres Vedras (sábado, 29). "Dirigir formações desta qualidade é uma experiência muito forte. Dizer que aprendo muito é dizer pouco - na verdade, saio extremamente enriquecido de um projeto destes!" Enaltece a "grande vontade desde o início [Março 2017] manifestada por eles de se apresentarem em Portugal e o esforço de "encaixe" que fizeram para que tal fosse efetivamente possível, pois estas orquestras programam com vários anos de antecedência." Algo que o "orgulha muito" é o facto de "ter sido possível iniciar este projeto na cidade-sede da orquestra", algo que, para ele, "denota o quanto a Temporada Darcos [da qual ele é diretor artístico e na qual se inscreve esta vinda] se vai consolidando e ganhando credibilidade como "partner" de grandes instituições". Os concertos em Milão, conta, "correram muito bem e deixaram-me muito feliz, mormente porque pude perceber, pela reação do público e pela dos músicos, que a minha obra lhes agradou muito!"

E a obra de que fala Côrte-Real é a "Sinfonia NoaNoa", tocada em estreia absoluta em Milão, na passada quarta-feira. "Ao contrário de muitos, não tenho problemas em chamar a uma obra "sinfonia", embora ciente do peso da tradição. Sendo uma obra para orquestra [duração aprox.: 20"], sem vozes nem texto e em vários andamentos, decidi chamá-la assim, embora possa ser uma sinfonia "programática" ou "poética"".

E isto porque os seus 5 andamentos se inspiram todos eles noutras tantos quadros de Paul Gauguin (1848-1903), ele próprio o autor de um livro semiautobiográfico, semietnográfico intitulado "NoaNoa" (significa "perfumado" ou "fragrante" na língua maori do Tahiti): "Paul Gauguin sempre foi muito importante para mim. Como criador, tenho desde sempre uma relação muito intensa com as cores e as formas, e o meu processo de composição tem muito a ver com isso. E os quadros de Gauguin sempre me impelem a fazer música: têm um grande dinamismo e são plenos de movimento, e aquela estética simbolista atrai-me imenso." Mas não fica por aí a "influência": "Também a sua vida é muito inspiradora, pela forma como, embora tardiamente, largou tudo para perseguir um ideal de Arte que tinha tanto de utópico quanto de universalista."

Na sua sinfonia, identifica uma narrativa "não linear" que "dá um sentido" à sequência dos andamentos. Nestes, refere os andamentos 1 e 5 como "os mais importantes: o 1.º parte de um quadro cujo título coloca as grandes interrogações existenciais, e a obra tinha que começar dessa forma". Já o último toma como referência um quadro intitulado "Morte", mas no qual o tema é tratado de forma muito simbolista e alusiva: "Aí, musicalmente, coloquei um certo sabor "Pop" que remete para esta "era PopArt" em que vivemos. É um andamento com muito ritmo e de grande energia."

Completam o cartaz duas obras bem populares: a "Suite n.º 1" do "Peer Gynt" de Edvard Grieg e a "Sinfonia n.º 9, "do Novo Mundo"", de Antonín Dvorák. Junto com "NoaNoa", um tríptico orquestral que evoca viagens a paragens distantes, cumprindo o desígnio de "estabelecer uma relação com "o Outro" distante e exótico através da música" que foi o conceito-guia para a construção deste programa.

A Temporada Darcos prossegue até novembro, terminando com a ópera [em estreia] "Canção do bandido", do próprio Nuno Côrte-Real, no Teatro da Trindade. Mas as orquestras estrangeiras, assegura, irão continuar a vir: "para 2019 já temos agendadas uma orquestra polaca e outra espanhola", refere.

Ficha:

Orquestra Sinfónica de Milão Giuseppe Verdi

dir.: Nuno Côrte-Real

obras de Grieg, Dvorák e Côrte-Real

Grande Auditório CCB, 30 Set., 17.00

Bilhetes: 28€ e 33€

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