Diabos sem cruz

Nascidos das cinzas dos Diabo na Cruz, os Sal apresentam-se com Passo Forte, disco bem temperado, em que a tradição volta a ser o ponto de partida para um novo caminho.

Foram uma das grandes surpresas da música portuguesa da última década, pelo modo como reativaram uma certa tradição de fazer rock em português, a partir de sonoridades populares e tradicionais. O sucesso dos Diabo na Cruz era facilmente medido pelas enchentes dos seus concertos, recorrentes ao longo cerca de dez anos de carreira da banda, concluída em 2019, com uma digressão de despedida, já sem a participação do líder Jorge Cruz, que abandonara o projeto no início desse ano. Foi nesse momento que os Sal começaram a germinar, como recorda ao DN o baterista João Pinheiro, pouco dias depois da edição do álbum de estreia da nova (velha) banda, Passo Forte. "O Jorge decidiu sair pouco tempo depois do Coliseu, mas ainda havia uma última digressão dos Diabo da Cruz. Ou desistíamos ou continuávamos e sentimos capacidade para isso. O Sérgio chegou-se à frente para cantar e a coisa correu bem. Foi a prova que afinal até podia resultar. Se isso não tem acontecido os Sal não existiriam, pelo menos desta forma", conta.

Os primeiros ensaios começaram logo no final de 2019. "Começámos a montar isto com a única certeza que íamos continuar juntos, tudo o resto era uma incógnita", lembra. Não havia, no entanto, o desejo de queimar as pontes com o passado glorioso dos Diabo na Cruz, muito pelo contrário. "Os Diabo na Cruz também éramos nós. Não compúnhamos, é verdade, mas a sonoridade também era nossa e é daí que surgem os Sal", afirma o músico. E, aos poucos, esse caminho foi sendo desbravado. Os primeiros temas a surgirem, ainda no final de 2019, foram Morrer e Passo Forte, curiosamente duas das faixas mais fortes de Passo Forte, um álbum na senda da melhor tradição da música de intervenção, que pode ser até apelidado de político. "É claramente é um disco que não deixa posições por marcar. Foi algo que decidimos a meio do processo de criação da banda, marcar essa posição, sem receios, até pelos tempos que vivíamos, porque atravessámos a pandemia e foi inevitável sermos influenciados por essa realidade, especialmente ao nível das letras. Portanto, sim, somos uma banda assumidamente política, mas nada partidária", concorda João Pinheiro. "Embora a nível individual tenha sido terrível para cada um de nós, devido aos trabalhos perdidos e à incerteza vivida, paradoxalmente a pandemia foi do melhor que nos aconteceu enquanto banda, porque aproveitámos esse hiato para compormos, à distância, o resto do disco", reconhece.

Compostos pelos ex-Diabos na Cruz Sérgio Pires (voz e braguesa), João Pinheiro (bateria), Daniel Mestre (guitarras) e João Gil (baixo), a quem se juntou entretanto Vicente Santos (teclas), os Sal demonstram mais uma vez ser possível fazer um rock em português, inspirado pela música popular (presente nos adufes, na braguesa ou no acordeão, por exemplo), sem deixar de ser deste tempo. Como se percebe, aliás, através de algumas sonoridades mais psicadélicas e experimentais, que são uma das principais diferenças em relação ao tempo dos Diabo na Cruz e que João Pinheiro atribui ao novo membro da banda, o teclista Vicente. "A nível pessoal foi uma integração perfeita. Já levamos muitos anos de bandas e sabemos que não é assim tão comum chegar alguém de fora e adaptar-se tão bem. E musicalmente é alguém que arrisca mais no som e não tanto no virtuosismo e isso trouxe algo de novo à nossa música", sublinha.

O objetivo, agora, é mostrar Passo Forte ao vivo, porque tal como os Diabo na Cruz, também os Sal se assumem como uma banda de palco. Depois de um primeiro concerto de apresentação do disco no Teatro Maria Matos, em Lisboa, a banda apresenta-se novamente no dia 27, na Associação Recreativa e Cultural de Músicos de Faro, num espetáculo integrado no festival Siga. "Para o ano queremos levar o disco para estrada e eventualmente lançar outro lá mais para o final de 2022, até porque muitas das músicas já estão prontas", revela o baterista. "Pela primeira vez sinto que estou numa banda para o resto da vida, em que todos participamos de forma democrática. Portanto, sim, é para continuar e espero que por muito tempo".


dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG