Depardieu a fazer de Depardieu mimado

Presente na Semana da Crítica de Cannes, Robusto, de Constance Meyer, devolve-nos Gérard Depardieu a brincar e dilacerar a própria imagem num pequeno conto de amizade que também tritura uma certo cinema francês.

Acontece raramente: uma obra em que nada é particularmente extraordinário e tudo é interessante. Apenas porque sim, porque há um bom ponto de partida e um jogo conceptual que resulta. Não cai do céu esse efeito: é preciso querermos ir atrás do predicado sofisticado da proposta: instância de um simulacro de realidades: Gérard Depardieu a troçar da sua imagem.

A história em questão apresenta-nos um ator celebridade, Georges, estrela de cinema meio deprimida e solitária, um homem preso pela sua imagem de mito, alguém afastado dos problemas práticos da sua vida e que confia todo o seu quotidiano ao seu chefe de segurança, neste caso também o seu assistente. Mas há um dia em que o seu assistente tem de viajar e chama uma jovem segurança para o seu lugar. No começo, há uma distância, mas a robusta Aissa parece fazer abrir um pouco a consciência do ator desencantado. Aos poucos, os dois constroem laços, sobretudo quando Georges percebe que Aissa tem uma vida pessoal: é atleta de luta greco-romana e tem um novo romance no horizonte.

Pelo meio, vamos vendo a vida de Georges como ator: a preparação de um novo filme e o seu processo de interiorização de uma nova personagem. "O cinema tornou-se idiota", diz, cada vez mais farto dos novos realizadores, das rotinas da indústria cinematográfica . Lembro que é Depardieu a dizer isso sem afetações relevantes - há um brusco efeito de espelho, mesmo que não seja novo: todos já percebemos que na maior parte dos seus filmes há muito da sua personalidade em cada papel. Um efeito que também joga sob um outro jogo: o do corpo massivo de Aissa: dois corpos grandes enquadrados com uma ternura convulsa. E aí, o olhar da realizadora, ganha uma justeza que reclama uma humildade convincente, talvez também suportado pela maneira como esta "amizade improvável" é desenvolvida e na qual o cliché é fintado por um humor capaz de se aguentar através de uma mão cheia de diálogos bem escritos e até inesperados - a pancada do ator por peixes raros é um pequeno achado.

Dê por onde der, Robuste só podia nascer dessa entrega de Depardieu. Que o ator consiga fazer do pastiche da sua autocaricatura um tratado de subtileza, é a maior surpresa desta comédia em bicos de pés... Mimado, extravagante, infantil, desagradável, mas também caloroso, gentil e humano: este ator francês num pedestal é uma versão das aparências que a própria figura e conhecimento mediático de Gérard Depardieu causa no escrutínio público. Por outro lado, pela própria maneira como a morte é sugestionada (atenção, isto é uma comédia e a personagem é divertidamente hipocondríaca...) sente-se que pode ser um véu de despedida do próprio Depardieu real, embora a sugestão seja leve, levezinha...

Curiosamente, está ainda em exibição Maigret e a Rapariga Morta, de Patrice Leconte, onde a serenidade de Depardieu é outra, isto para lembrar que, hélas, Depardieus há muitos... Robusto é, acima de tudo, uma coisa de corpos. Uma pequena lição sobre sabermos olhar para o outro.

dnot@dn.pt

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