De Roma a Madrid: viagem de uma especialista para autenticar um Caravaggio

Maria Cristina Terzaghi ficou convencida que a obra era do mestre italiano mal olhou para um fotografia que lhe enviaram.

Assim que viu uma fotografia da pintura, Maria Cristina Terzaghi percebeu que era um Caravaggio. Apanhou um avião em Roma e foi a Madrid examinar a obra, cuja venda foi bloqueada na quinta-feira pelo governo espanhol enquanto se aguarda a autenticação da autoria.

Sentada numa cafetaria da capital espanhola, a especialista no mestre italiano do claro-escuro (1571-1610) conta à AFP sobre esta "Operação Caravaggio". Poucas horas antes de uma casa de leilões de Madrid colocá-lo à venda por um preço inicial de 1500 euros, o Ministério da Cultura espanhol bloqueou o leilão de A Coroação de Espinhos, até agora considerada uma obra de um dos discípulos do pintor espanhol José de Ribera.

O ministério especificou que a partir de agora será feito um exame rigoroso para autenticar a autoria deste óleo sobre tela.

"Eu vi a pintura numa imagem que alguns amigos antiquários me enviaram pelo WhatsApp, e que entenderam naquele momento que poderia ser uma obra muito importante. Eles queriam saber o que eu achava", diz esta professora da Universidade de Roma III.

A princípio pensou num Battistello, um dos discípulos de Caravaggio, mas logo disse que este ecce homo era, sim, obra do mestre italiano. No entanto, "não podia dizer que era de Caravaggio sem ver".

Foi então que a direção do Museu do Prado a chamou para pedir a sua opinião. Ao desembarcar na capital espanhola, Terzaghi viu o quadro na casa de leilões que deveria vendê-lo no dia seguinte, Ansorena. "Não tive mais dúvidas (...) Ficou claro para mim que se tratava de uma obra de Caravaggio", acrescenta a especialista, feliz que a sua hipótese tenha tido no Prado e por Espanha ter declarado a obra não exportável. "Esse foi, para mim, o resultado mais importante". Uma decisão do governo espanhol a partir de um relatório do Prado, que alertava sobre "evidências documentais e estilísticas suficientes" para acreditar que a pintura podia ser um original de Caravaggio.

Longa investigação

Segundo Terzaghi, tudo coincide com o estilo do célebre mestre barroco: "A cabeça de Cristo", o brilho de seu torso, "a tridimensionalidade das três figuras" num molde "quase cinematográfico", a cor roxa do manto de Cristo, as dimensões da pintura (111x86 cm)...

Mas como costuma acontecer quando se trata de atribuir uma pintura a um grande mestre, a hipótese não convence a todos.

Eric Turquin, especialista conceituado em casas de leilão francesas, disse à AFP que, em sua opinião, a pintura não é de Caravaggio. "Não vejo a mão de Caravaggio. O tema é do próprio Caravaggio, e provavelmente foi pintado entre 1600 e 1620 por um bom pintor, mas não por Caravaggio", disse.

O trabalho sobre a autoria "durará o tempo que for preciso", e "todos os especialistas participarão, obviamente", para "obter resultados o mais próximos da verdade possível", destaca Terzaghi.

"É claro que a atribuição (de uma pintura) é algo muito pessoal; é uma ciência que não é exata, e nesse sentido cada um tem uma opinião diferente, mas cada opinião ajuda-nos a entender algo mais sobre a pintura", explica.

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