De Niro, Morgan Freeman e Tommy Lee Jones à deriva 

Três gigantes do cinema americano juntos num filme falhadíssimo. Um Bando de Vigaristas em... Hollywood, de George Gallo, é uma paródia tosca sobre os meandros da produção cinematográfica.

De vez em quando Robert De Niro presta-se a uns papéis de comédia que quase fazem esquecer a mitologia deste rosto do cinema de Scorsese. Alguns dirão que isso mostra a sua versatilidade, mas o certo é que os resultados estão longe de o favorecer, quando não são mesmo desastrosos (basta pensar em Um Avô Muito à Frente...). E à lista dos desastres acrescenta-se agora o papel de um velho produtor de filmes de baixo orçamento que o vemos interpretar em Um Bando de Vigaristas em... Hollywood, espécie de caricatura de um pelintra otimista que, depois de um novo fiasco, se recusa a deixar o barco afundar em plena indústria americana dos anos 1970. Ainda mais quando a sua vida está em risco porque o investidor mafioso (Morgan Freeman) a quem deve uma porção de dinheiro já perdeu a paciência.

George Gallo, que escreveu o argumento de Os Bad Boys, assina aqui uma peça de humor flácido (baseada num filme de Harry Hurwitz de 1982), a partir de uma premissa simples mas louca: para se salvar a si e ao seu negócio, a personagem de De Niro urde um plano para produzir um filme cujo único objetivo é matar "acidentalmente" o protagonista durante a rodagem e ficar com o dinheiro do seguro. É nesse contexto que surge Tommy Lee Jones na pele de uma crepuscular estrela de western resgatada à depressão dentro de um lar de idosos. Um homem que tinha perdido o gosto pela existência, mas que nesta segunda oportunidade se vai revelar mais vivo do que nunca...

Resumindo, Um Bando de Vigaristas em... Hollywood traduz-se numa sequência de situações arriscadas de rodagem em que De Niro, cheio de tiques de produtor sacana, vai tentar matar (ou desejar intensamente que a coisa aconteça por si) um Jones em grande forma física, enquanto Freeman faz pressão para que, desta vez, o "filme" seja um sucesso. Podemos imaginar o que é que os irmãos Coen teriam feito com este material, mas o mal está feito e há pouco que se salve numa escrita infantil que tenta por tudo ter algo da vibração de um tempo, despejando referências de clássicos nos diálogos entre De Niro e Freeman como quem arranha uma homenagem a Hollywood.

Aliás, o título português - do original The Comeback Trail - acaba por ser mesmo uma imitação escancarada do Era Uma Vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino. Um golpe de marketing esperto capaz de vender uma falsa promessa aos espectadores, a começar pelo pastiche do cartaz onde sobressaem De Niro, Freeman e Jones, como se fossem Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie (salvo seja).

Os atores bem se mostram comprometidos com a farsa hollywoodesca, assumindo a brincadeira até ao osso; em particular De Niro, que se desmancha em expressões faciais a cada minuto para parecer o cartoon de um produtor americano. A má notícia é que não somos crianças para rir com tão pouco, e os coices de cavalo ou investidas de touros não resultam por si só. Gallo fez uma comédia achando que bastava juntar três pesos-pesados no grande ecrã e pedir-lhes para serem uns velhotes rabugentos e ridículos. Resta saber se se divertiram.

dnot@dn.pt

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