De A Rede Social a Joker - 10 filmes que marcaram a década

Não se trata de propor uma lista dos "melhores" filmes da década, mesmo se todos eles são invulgares proezas cinematográficas. Procura-se, sobretudo, evocar alguns dos filmes que nos levaram a pensar como vivemos, como olhamos o mundo à nossa volta.

Para a história, a década cinematográfica de 2010-2019 ficará como a da consolidação da Internet como novo veículo de conhecimento e consumo dos produtos audiovisuais. O triunfo comercial das chamadas plataformas de streaming (Netflix, HBO, Amazon, etc.) trouxe mesmo uma convulsão simbólica na paisagem da cinefilia: o espectador empenhado em conhecer a história do cinema deu lugar ao consumidor que se diferencia por "só ver séries"... Escolher dez títulos marcantes dos últimos dez anos de cinema envolve, por isso, qualquer coisa de requiem. E fica uma pergunta: a próxima década será de desagregação ou renascimento do mercado tradicional das salas escuras?

A REDE SOCIAL (2010), de David Fincher

Desde o momento em que o conceito do Facebook começou a insinuar-se na vida humana, houve quem lembrasse a questão essencial. A saber: em vez de celebrar a "rede", importa discutir o seu funcionamento "social". O filme de David Fincher, escrito por Aaron Sorkin, é um objeto pioneiro desse processo crítico - para além do seu génio artístico, os sobressaltos que se seguiram (Cambridge Analytica, etc.) confirmaram a desencantada pertinência da sua visão.

A ÁRVORE DA VIDA (2011), de Terrence Malick

Não é por acaso que o nome e a obra de Terrence Malick têm estado no centro de alguns dos debates mais interessantes sobre o presente e o futuro do cinema. Com este filme, em particular, o veterano cineasta americano consegue relançar o tema do sagrado no interior da paisagem humana, ao mesmo tempo pressentindo a necessidade de um cinema capaz de reinventar as suas linguagens clássicas, ainda que sem as renegar.

ADEUS À LINGUAGEM (2014), de Jean-Luc Godard

Um dia, será corrigida a história moderna das três dimensões no cinema. Será, sobretudo, lembrado que as aventuras mais ou menos galácticas de super-heróis e afins não esgotam esse domínio. Este é um dos filmes com que Jean-Luc Godard mostrou e demonstrou que é possível usar o 3D para lá das suas preguiçosas rotinas. Não por acaso, estamos também perante um exercício moral sobre a urgência de repensarmos a comunicação humana. Nele se diz: "Procuro a pobreza na linguagem."

CAVALO DINHEIRO (2014), de Pedro Costa

É no espaço português que podemos encontrar um dos autores mais universais do cinema contemporâneo. Prolongando a sua visão de personagens cabo-verdianas do Bairro das Fontainhas, com este filme Pedro Costa dá a ver sinais e fantasmas do nosso viver nacional, espelhando uma questão decisiva dos nossos dias: como resistir às rotinas do audiovisual e encontrar os fundamentos de um novo realismo? Questão estética, trabalho político.

SILÊNCIO (2016), de Martin Scorsese

De que falamos quando falamos da nossa demanda de uma dimensão divina? A pergunta perdeu força nas nossas sociedades consumistas, mas Martin Scorsese é um artista que nunca a abandonou. Filmando a saga de dois padres jesuítas portugueses no Japão do século XVII, o cineasta de Taxi Driver (1976) consegue a proeza essencial de nos fazer sentir que a atitude religiosa, sendo visceralmente intimista, é também, sempre, inevitavelmente política.

PARAÍSO (2016), de Andrei Konchalovsky

O mercado não ajuda muito, mas é impossível esquecer que há uma forma cinematográfica de representar o mundo que vem da Rússia, numa dinâmica de permanente releitura e transfiguração da herança dos tempos (soviéticos) do mudo. O filme de Andrei Konchalovsky revisita os traumas da Segunda Guerra Mundial através de uma prodigiosa estrutura de tragédia que, pedagogicamente, conserva uma perturbante dimensão documental.

JACKIE (2017), de Pablo Larraín

Numa década em que tantas (e tão pertinentes) razões suscitaram importantes reflexões sobre a representação das mulheres, o filme de Pablo Larraín permaneceu como um ovni que quase ninguém viu. O cineasta chileno revisita as memórias de Jacqueline Kennedy, contando com Natalie Portman numa das maiores interpretações da década, acima de tudo mostrando o que é, o que pode ser, uma história em que as convulsões políticas se cruzam com o mais radical intimismo.

O OUTRO LADO DO VENTO (2018), de Orson Welles

Paraíso cinéfilo ou inferno virtual, Netflix é uma das palavras da década. Antes de nos trazer a obra-prima de Martin Scorsese (O Irlandês), a plataforma de streaming financiou a conclusão do lendário projeto de Orson Welles, iniciado há mais de 40 anos. Premonição genial: através da personagem de um cineasta, interpretado pelo seu amigo John Huston, Welles encena as perplexidades e angústias de um tempo em que a noção clássica de espectador de cinema pode estar a morrer - eis o mais atual dos filmes.

HAPPY END (2018), de Michael Haneke

A família tradicional e o fascínio dos telemóveis: eis duas componentes sociais cuja conjugação, de acordo com muitas formas de publicidade, define a nossa utopia de felicidade. Sob o olhar relutante de Michael Haneke, nada é tão simples, quanto mais não seja porque aceitamos viver em muitas formas de "comunicação" que dispensam os valores mais básicos da nossa condição humana. Poucos filmes souberam, como este, expor as tragédias que brotam da banalidade do quotidiano.

JOKER (2019), de Todd Phllips

E chegamos ao encerramento simbólico da década. Como se prova, é possível recuperar as narrativas da BD sem consagrar o cinema de ruidosas atrações tecnológicas que a Marvel instalou no mercado global. Ao trabalhar a personagem de Joker, vinda do universo de Batman, Todd Phillips consagra também o valor mais primitivo da composição do ator: através da fulgurante interpretação de Joaquin Phoenix, descobrimo-nos, inquietos e fascinados, na floresta dos nossos medos.

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