Crimes inexplicáveis em nova série da HBO: The Outsider

Estreia esta segunda-feira a primeira grande aposta da HBO para este início de 2020. Baseada num bestseller de Stephen King, a série The Outsider é uma esmerada combinação de crime e sobrenatural.

Se não é o autor mais adaptado ao pequeno e grande ecrã, anda lá muito perto. O inesgotável Stephen King continua a ser uma fonte segura para contar histórias de arrepiar, mesmo que, na maior parte dos casos, os resultados não sejam entusiasmantes ou sequer satisfatórios... Ainda recentemente as salas de cinema acolheram Doutor Sono, de Mike Flanagan - uma adaptação vistosa do romance que dá continuidade aos eventos do mítico The Shining, realizado por Stanley Kubrick - e agora chega à HBO Portugal uma série original da plataforma baseada num dos seus últimos bestsellers, The Outsider.

Assim, a primeira coisa que importa sublinhar em relação à nova incursão no universo de King, entretanto já considerada pelo próprio escritor uma das melhores adaptações dos seus livros, é esta: a série transposta para o ecrã pelo argumentista Richard Price (The Douce) trata-se de uma boa malha realista de investigação criminal, com a dose certa de expressão sobrenatural. Isto assegurado também por um impecável elenco, com Ben Mendelsohn à cabeça, que responde de forma justa à linha dramática de cada episódio (são dez, no total), estes sempre a trabalharem a intriga humana entre as questões da perda e da crença/descrença.

Desde logo, The Outsider mune-se de um primeiro episódio que é exímio a prender a atenção do espectador. Nele, o detetive da polícia Ralph Anderson (Mendelsohn) vê-se a braços com um caso de homicídio de uma criança, cujo corpo foi encontrado mutilado numa floresta da Geórgia, estando ele próprio ainda a tentar recuperar da morte recente do seu filho adolescente. Acontece que, ao contrário da típica morosa investigação, o suspeito é rapidamente identificado por diferentes testemunhas oculares, registos de câmaras de segurança e provas de ADN, levando à captura espalhafatosa do benévolo treinador de baseball Terry Maitland (interpretado por Jason Bateman, que acumula a assinatura dos dois primeiros episódios), um excelente pai de família, sem o mínimo perfil de suspeito, mas com todas as evidências contra ele.

Se à partida tudo parece estar bastante claro para as autoridades, quando Terry consegue provar que, de facto, estava fora da cidade no dia em que o crime aconteceu, o mistério instala-se nas costuras deste caso e levanta uma pergunta elementar: como é que ele poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo? E se é verdade que essa pergunta funciona como motor do nosso interesse é porque não se sugerem aqui respostas mais ou menos fáceis, combinadas com malabarismos e tiques de filme de terror (como se poderia pensar) - esta é uma série que assenta no princípio da realidade, e é com os pés bem assentes na terra que o detetive Ralph vai procurar resolver o enigma... Até constatar que precisa de uma "pequena" ajuda.

Realidade vs sobrenatural

É então que entra em cena a personagem de Holly Gibney (Cynthia Erivo), uma investigadora privada com uma mente prodigiosa e capacidades extraordinárias, que encaminha a investigação para o seu lado menos convencional, apesar das reservas de Ralph, que assumindo-se ultra apologista dos métodos racionais, lhe diz, sem rodeios, ser "intolerante ao inexplicável".

Em grande parte, The Outsider assenta nesse conflito entre o domínio da realidade e a possível intersecção desta por algo sobrenatural. As manifestações desse "inexplicável" são breves e (quase) invisíveis, muitas vezes na linha ténue que separa o sonho da vigília, e por isso, capítulo a capítulo, a série sustenta um registo que procura valorizar os dramas individuais das personagens, permitindo criar empatia e seguir o modo como os eventos estranhos vão afetar cada uma delas - e, em particular, a sua abertura para qualquer ideia que contrarie a leitura simples do real.

Daqui resulta uma trama sólida, concebida com tacto e envolvida por uma câmara de movimentos suaves, que se rege por um sentido rigoroso de composição e foco nos transtornos íntimos. Para além disso, o acurado uso da banda sonora cria uma pulsação e atmosfera que se entranha na pele, fazendo com que ao laborioso jogo mental se associe uma marcada dimensão sensorial.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG