Coelhos há muitos (e também no ecrã) 

Entre o calendário religioso e a temática comercial, a Páscoa tem os seus símbolos de época. A par com os ovos, os coelhos são os mais apreciados - representam a fertilidade e a vida, porque se reproduzem como... coelhos! Há os verdadeiros, os de peluche e os de chocolate, que por estes dias abundam nas prateleiras do supermercado. Mas também de personagens de cinema se faz a sua história no imaginário popular. Eis uma mão-cheia de sugestões para um serão animado e/ou comovente, com certeza saltitante.

Quem Tramou Roger Rabbit?, de Robert Zemeckis

(Disney+)

O primeiro e único filme em que os desenhos animados de Walt Disney e da Warner Bros. partilharam o grande ecrã foi um marco, não apenas pela inovação técnica implicada mas também pelo nascimento de duas personagens: o orelhudo do título e o seu mulherão, Jessica Rabbit. Ele, um coelho tresloucado que só quer fazer rir os outros; ela - com a voz suavemente rouca de Kathleen Turner -, uma cantora voluptuosa que estará no centro de uma intriga de film noir ambientado na Hollywood de 1947. Quão genial é isto? Who Framed Roger Rabbit (1988) segue então Eddie Valiant (Bob Hoskins), um detetive privado que se envolve no misterioso caso deste coelho cartoon, Roger, acusado de um homicídio que obviamente não cometeu. Depois de Regresso ao Futuro, Robert Zemeckis, produzido por Spielberg, aventurou-se aqui numa nova realização fora de série que faz coexistir atores de carne e osso e algumas das mais famosas personagens da animação. Exemplo de Mickey Mouse e Bugs Bunny, mascotes de ambos os estúdios rivais, que tiveram de fazer juntos uma cena para evitar que um ficasse com mais tempo de tela do que o outro. Seja como for, Bugs Bunny e a sua cenoura roubam a cena. Coelhos...

Harvey, de Henry Koster

(Apple TV+, por aluguer)

A certa altura, em Quem Tramou Roger Rabbit?, um homem no bar faz uma piada na cara do vilão dizendo que Roger está mesmo ali ao seu lado: é um amigo imaginário, por isso ninguém o pode ver. Esta é uma referência a Harvey (1950), o filme em que James Stewart interpreta Elwood P. Dowd, um tipo amável que leva para todo o lado, e apresenta a toda a gente, o seu amigo imaginário, um coelho chamado Harvey "com 1,91 m", tal como ele o descreve. Um dia a irmã (Josephine Hull), uma senhora mais velha e bem relacionada com a alta sociedade, decide levá-lo para um sanatório, não conseguindo mais suportar os danos causados na reputação da sua casa à custa da criatura invisível que, aparentemente, é só uma fantasia do irmão. O que se segue é pura comédia, uma roda-viva de mal-entendidos entre o sanatório, a casa e o bar onde o protagonista costuma ir para os copos com Harvey, esse coelho que nunca vemos - a não ser reproduzido nesta pintura -, mas talvez precisamente por isso seja uma presença inesquecível. Na verdade, uma presença necessária para que Elwood P. Dowd continue a ser a pessoa doce que é... Maravilhoso filme, maravilhoso coelho.

Wallace & Gromit: A Maldição do Coelhomem, de Nick Park e Steve Box

(HBO Max)

Comecemos por um facto anedótico: quando o filme foi lançado em Portland, Dorset, no Reino Unido, teve de ser removida dos cartazes a palavra "coelho" (o título original é The Curse of the Were-Rabbit). Ao que parece, existe uma superstição local que proíbe o uso dessa palavra, e no caso, para contornar o azar, o slogan alternativo ficou: Something "bunny" is going on. Assunto resolvido. Wallace & Gromit: A Maldição do Coelhomem (2005) é uma animação vencedora do Óscar e a primeira longa-metragem com a dupla genial de personagens (criadas por Nick Park) que deu fama aos estúdios britânicos Aardman. Aqui, o inventor Wallace e o cão Gromit armam-se em agentes de controlo de pragas e tentam salvar a sua cidade dos coelhos, fofinhos herbívoros, que ameaçam a realização do concurso anual de vegetais... Ou se calhar a ameaça é um coelho gigante! Eis um belo motivo para montar o estaminé da paródia aos filmes clássicos de monstros, entre couves e cenouras, com aquele humor inteligente e polidamente excêntrico a que Park nos habituou.

Era Uma Vez em Watership Down, de Noam Murro

(Netflix)

Não se trata do filme de 1978, com coelhos falantes, de desenho animado, a representar a história violenta de sobrevivência no mundo natural, que chocou meio mundo por ser a antítese do "bom gosto" Disney. É antes uma minissérie adaptada do mesmo romance de Richard Adams, que traz uma visão mais otimista do que esse notável e corajoso filme de Martin Rosen. A qualidade da animação computorizada deixa um pouco (ou muito) a desejar mas, depois de ultrapassada a estranheza inicial, Era Uma Vez em Watership Down (2018) revela o que um bom elenco de vozes pode fazer pela substância dramática dos bonecos. James McAvoy, Ben Kingsley, Olivia Colman, Nicholas Hoult, Gemma Arterton e John Boyega são alguns desses contributos preciosos que tornam os quatro episódios da série tão emocionantes. Esta é, afinal, a história da fuga de um grupo de coelhos que deixa a sua toca ameaçada em busca de um novo abrigo seguro - pelo meio, a vida, a morte, o amor e a amizade, são abordados com aquela tonalidade humana que apaga a fronteira do reino animal.

Monty Python e o Cálice Sagrado, de Terry Gilliam e Terry Jones

(Netflix)

Para algo completamente desvairado, nada como regressar a um clássico da comédia de baixo orçamento. Quem viu Monty Python e o Cálice Sagrado (1975), o filme que recua a 932 d.C. para contar as aventuras do Rei Artur com os seus cavaleiros na demanda do Santo Graal, por certo nunca esqueceu aquele momento hilariante em que o hoje conhecido como "coelho assassino de Caerbannog" salta ao pescoço de um cavaleiro decapitando-o. Descrita por Tim the Enchanter (John Cleese) como uma criatura de dentes afiados e capacidade de ataque de longa distância, toda a gente fez ouvidos moucos ao aviso sobre o potencial deste feroz guardião de uma caverna quando deparou com a figura inocente de um coelho branco rodeado de ossadas... O seu cameo agressivo é tão memorável que foi criado todo um merchandising à volta do Coelho de Caerbannog, desde pantufas a canecas passando por peluches sangrentos e t-shirts. Até existe uma página Monty Python Wiki dedicada ao bicho. Digamos que o coelhinho da Páscoa não mora aqui.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG