Cinema brasileiro entre realismo e utopia

Num mercado em que vemos tão pouco cinema brasileiro, a estreia de dois filmes de Gabriel Mascaro é um acontecimento a destacar: "Ventos de Agosto" e "Divino Amor" abordam situações que, direta ou simbolicamente, refletem convulsões da sociedade brasileira.

Cinema brasileiro? Não será necessário forçar a nota nostálgica para lembrar que algumas gerações de espectadores tiveram um privilégio que os mais jovens perderam (porventura sem se aperceberem disso). Que é como quem diz: tempos houve, não demasiado remotos, em que os filmes brasileiros surgiam regularmente nas salas portuguesas. Agora, os mesmos jovens caem facilmente na ilusão de que as rotinas da telenovela esgotam a ficção audiovisual do Brasil.

Saudemos, por isso, o lançamento de dois filmes de Gabriel Mascaro (nascido no Recife, em 1983): Divino Amor, o seu trabalho mais recente (revelado em fevereiro, no Festival de Berlim), encenando um Brasil futurista em que a religião se tornou uma forma perversa de controle social, e Ventos de Agosto, produção de 2014, centrada na personagem de uma jovem que troca a cidade pela vida rural, na companhia da sua avó. De Mascaro conhecíamos já Boi Neon (2015), uma crónica desencantada sobre o Nordeste brasileiro.

Parece haver na visão de Mascaro a procura, porventura a obsessão, de contaminar uma certa aproximação realista dos lugares e personagens, "forçando" os respetivos elementos a adquirir uma lógica simbólica ou transcendental. Quase sempre, os atos sexuais surgem como uma "concretização" dessa deriva, baralhando todos os elementos das relações humanas. Encontramos tal dispositivo nas experiências da protagonista de Ventos de Agosto e, sobretudo, nos cenários (quase) de ficção científica de Divino Amor.

Infelizmente, ambos os filmes acabam por esgotar as suas premissas numa lógica pesadamente "demonstrativa", como se lhes faltasse alguma crença no próprio artifício que convocam. Isso é especialmente evidente no caso de Divino Amor, por certo o mais sugestivo, mas também o menos conseguido.

Nesse ano de 2027, afinal tão próximo, em que descobrimos a personagem de Joana (Dira Paes), dir-se-ia que ela representa uma derradeira e paradoxal utopia. Assim, no seu trabalho numa secretaria notarial, é diariamente confrontada com casos de divórcio; ao tentar mobilizar os casais desavindos para uma reconciliação através da religião - e, em particular, de uma insólita reconversão da sua sexualidade -, ela funciona como uma espécie de anjo da guarda que terá de se confrontar com as contradições do seu próprio método.

Parece óbvio que o filme tenta sugerir alguns paralelismo com elementos da vida atual do próprio Brasil. É uma hipótese "política" que, sendo curiosa, se encerra também num vago simplismo moralista. No contexto português, tão carente de outro tipo de relações com a pluralidade da cultura brasileira, Divino Amor não deixa de ser um acontecimento a assinalar - lamenta-se apenas que as potencialidades do seu argumento tenham sido rentabilizadas de forma tão limitada.

* * [com interesse]

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