Chamem-lhe Lupin: Omar Sy em modo ladrão sedutor

Inspirada pelas aventuras da famosa personagem criada por Maurice Leblanc, a série francesa Lupin, em destaque no catálogo Netflix neste arranque de 2021, é um elogio ao "antigo" vício da leitura, hoje em dia perdido para outros hábitos mais tecnológicos.

Troca-se a cartola e o monóculo pela boina e o sobretudo, acrescenta-se um sorriso afável e uma história de vingança, e está aí o espírito do centenário ladrão de casaca nascido da pena de Maurice Leblanc transposto para os tempos modernos. É essa a sugestão de Lupin, a série Netflix que aposta todas as fichas no semblante gentil de Omar Sy, o popular ator francês de Amigos Improváveis, para forjar uma trama contemporânea com essência literária. Quer dizer, não se trata de uma adaptação dos livros de Leblanc mas sim de um mergulho no fascínio à volta da sua célebre personagem, Arsène Lupin, aqui evocada por Assane Diop (Omar Sy), um hábil copycat que sustenta os primeiros cinco episódios disponíveis, desde a performance num leilão que decorre no Museu do Louvre a um atribulado passeio no Havre.

Quando encontramos Assane Diop na equipa de limpeza noturna do Louvre ainda não fomos apresentados à sua arte camaleónica. Com aparência de um homem simples no seu trabalho quotidiano ele sinaliza um alvo ao observar o colar da rainha Maria Antonieta, exposto antes de ser leiloado na semana seguinte. A atenção sobre esse objeto valioso traz água no bico: quando era ainda adolescente Diop viu o pai, um motorista de uma família milionária, ser acusado e preso pelo roubo de um colar, o que acabou por lhe pôr termo à vida. Uma tragédia que se misturou com a leitura ávida de um livro, Arsène Lupin, que o próprio pai lhe ofereceu e que moldou o seu crescimento, fazendo dele um ladrão gentleman que rouba aos ricos, com métodos sofisticados, ao mesmo tempo que procura ser um bom pai para o filho e o amigo fiel da ex-mulher.

Os episódios de Lupin centram-se então nas manobras ilusionistas de uma escrupulosa vingança tecida contra a tal família endinheirada, os Pellegrini, cujo embuste não terá sido indiferente à cor da pele do pai de Diop, um imigrante senegalês. Com efeito, a escolha de Omar Sy para protagonista, também ele um francês de ascendência senegalesa, acarreta por si só um valor discursivo, embora o criador da série, o britânico George Kay (coautor de Criminal e de alguns episódios de Killing Eve), afirme que privilegiou a suavidade cavalheiresca do ator. E, de facto, é a sua presença simpática e elegante, ancorada num conceito de entretenimento mais ou menos padronizado e eficaz, que eleva a série para lá da mera curiosidade literária. Que também o é, no melhor dos sentidos: a virtude de Lupin assenta nesse argumento de homenagem e gosto genuíno pela leitura, isto é, no elogio a um bom vício em vias de extinção na era dos smartphones e videojogos. A probabilidade de querer conhecer ou redescobrir os livros depois da série é altamente elevada...

A resposta a Sherlock Holmes

"Os ingleses têm James Bond. Nós temos Arsène Lupin, uma personagem rica, refinada, sedutora, inteligente." As palavras de Omar Sy sobre a figura de inspiração do seu Assane Diop traduzem aquilo que fez deste mestre do disfarce o grande rival francês, na verdade, não de James Bond mas de Sherlock Holmes, a criação contemporânea do britânico Arthur Conan Doyle.

Justamente, o herói de Maurice Leblanc apareceu pela primeira vez na revista Je Sais Tout em 1905, sendo uma encomenda expressa do editor Pierre Lafitte que queria encontrar para a França algo semelhante ao que Sherlock Holmes representava para os ingleses. E o sucesso de Arsène Lupin junto dos leitores foi tal que o autor nunca mais deixaria de o incluir nas suas histórias - uma vintena de romances e mais de trinta contos. A particularidade deste protagonista do género policial é que começa por usar a sua destreza e inteligência para cometer roubos em vez de resolver enigmas (qual Robin dos Bosques francês), acabando por se tornar mesmo detetive.

Ele é visto como um anarquista de pose aristocrática, um dandy que passa a perna aos burgueses, e de entre os seus momentos mais espirituosos destacam-se os embates com o ilustre adversário Sherlock Holmes, claro, sempre em circunstâncias embaraçosas que irritavam sobremaneira Conan Doyle. Aliás, o nome do detetive inglês foi mesmo adaptado para "Herlock Sholmès" na sequência dos protestos do escritor que viu o seu herói ridicularizado.

Mas de todas as características de Lupin, a capacidade de sedução, esse inaudito charme do larápio é o que melhor o define no jogo da sociedade - escusado será dizer que Omar Sy preserva bem esta última característica, usando-a num apurado ilusionismo moderno que foi beber às práticas de um cavalheiro da Belle Époque.

Antes desta variante da Netflix, o gentleman de Maurice Leblanc já tinha sido levado ao ecrã diversas vezes. Há, por exemplo, uma adaptação assinada por Jacques Becker, de 1957, com Robert Lamoureux (que voltaria à personagem noutro filme, em 1959), Romain Duris vestiu-lhe a pele em Arsène Lupin - O Ladrão Sedutor (2004), de Jean-Paul Salomé, sendo famosa a série dos anos 1970 que eternizou a imagem do herói na interpretação de Georges Descrières. As aventuras de Lupin regressam agora para nos lembrar que os melhores "truques" para a vida estão nos clássicos da literatura.

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