Celebrando "Ulisses", livro e filme

"Ulisses", o filme de Joseph Strick baseado no romance de James Joyce, pode ser visto hoje no cinema Nimas, em Lisboa - Jorge Vaz de Carvalho, tradutor do livro, apresenta a sessão.

Eis um acontecimento realmente invulgar: a exibição do filme Ulisses, realizado por Joseph Strick em 1967, tendo por base a obra homónima de James Joyce (primeira edição: 1922). Que é como quem diz: o consumar da "impossível" tarefa de conferir forma cinematográfica a uma referência lendária da história da literatura. Acontece hoje, dia 16, em Lisboa (cinema Nimas, 21h00). Com um complemento que importa destacar: a sessão será apresentada pelo tradutor de Ulisses (ed. Relógio D"Água), o escritor Jorge Vaz de Carvalho.

A estranheza do objecto, inseparável da sua raridade, justifica que perguntemos que tipo de relação poderemos estabelecer com um filme tão especial. Ou ainda: que nos aproxima e separa do tempo em que surgiu a personagem de Leopold Bloom (Milo O"Shea no filme)?

Digamos, para simplificar, que a questão central é mesmo essa: o tempo. Desde logo, porque toda a acção decorre ao longo de um dia, 16 de junho de 1904 - o que significa que se trata também de celebrar o 118º aniversário dos "acontecimentos" relatados. Depois, porque a mera quantificação do romance (a referida edição tem, contas redondas, 750 páginas) não pode deixar de nos levar a supor que, não havendo qualquer tipo de "igualdade", alguma cumplicidade deverá existir entre a escrita de Joyce e os 132 minutos do filme de Strick.

Que cumplicidade é essa? Talvez essa mesmo que se revela através das medidas: muito mais (ou muito menos, se quisermos ser poéticos) do que uma arte de transcrição do tempo, o cinema existe como um bisturi formal da duração - sendo a duração o tempo reorganizado pela percepção falível dos humanos.

Daí que Strick tenha apostado, não em "ilustrar" a história multifacetada de Joyce, antes usando-a como pretexto para a exposição do absurdo esplendor das relações humanas. Afinal de contas, o filme nada tem de evocação (muito menos de invocação) histórica: a acção, serenamente, foi "transferida" para cenários dos anos 60, isto é, para o presente da própria rodagem.

Daí também os paralelismos que podemos estabelecer entre Ulisses e outros filmes que ia pontuando a fascinante paisagem dos "sixties" cinematográficos, tantas vezes reduzida ao pitoresco de clichés e preconceitos. Para nos ficarmos, precisamente, pelas novidades de 1967, recordemos que esse é o ano de três títulos realmente revolucionários: Blow-up, de Michelangelo Antonioni, desmontando o próprio conceito clássico de imagem (a sua estreia ocorreu em finais de 1966 nos EUA, mas a consagração internacional deve-se ao Festival de Cannes do ano seguinte); Belle de Jour, de Luis Buñuel, distanciando-se das matrizes românticas, expondo o carácter intratável de qualquer desejo, sexual ou não; enfim, Fim de Semana, de Jean-Luc Godard, que podemos definir como o apocalipse da sociedade de consumo, mas também como a mais cristalina, e também mais lendária, premonição das convulsões de maio 68.

O Ulisses de Joseph Strick pertence, antes do mais, a esse contexto em que, de facto, o cinema (ou, pelo menos, algum cinema) acreditava que "tudo é possível" no reino das imagens e dos sons. Nada nos garante que Joyce se reconhecesse nos seus elementos, mas tal estranheza será também, por insólito paradoxo, uma bela homenagem ao romance. E à pluralidade da sua herança.

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