Carole King, 80 anos - imparável desde os 15 

Entre os seus maiores sucessos figuram vários em n.º 1 das tabelas, como Natural Woman, com que Aretha Franklin em 1967 deixou a sua marca, mas talvez a canção que melhor sobreviveu à passagem do tempo é You"ve got a Friend.

Ao contrário da maioria dos cantores/autores mais famosos da sua geração - na casa dos 20 anos na década de 60 do século XX - Carole King (n. 9 fevereiro 1942) não iniciou a carreira artística com uma guitarra na mão e um repertório de canções folk apresentado nos cafés da Greenwich Village, em Nova Iorque, cidade onde nasceu e cresceu. Se para os seus pares esse repertório ganhava um forte sentido de intervenção social e política, fruto da situação que se vivia então nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo, King seguia o caminho oposto, ambicionando entrar no meio da música pop pela via comercial, embora sob uma forte influência da soul e do gospel.

Esta miúda talentosa, que em criança tinha aprendido a tocar piano, cedo começou a escrever as suas próprias canções, a fazer os arranjos e a interpretá-las com um grupo de colegas da escola, ganhando experiência e confiança. Foi neste contexto que, aos 15 anos, começou a procurar uma editora discográfica que se interessasse pelas suas músicas, conseguindo efetivamente o primeiro contrato em 1958. A sua maturidade e energia fizeram o resto. Em breve escrevia canções para os artistas da sua etiqueta, em parceria com o letrista Gerry Goffin, co-criando inúmeros sucessos discográficos ao longo dos anos seguintes.

A parceria profissional em pouco tempo deu origem a uma relação amorosa e um casamento precoce (aos 17) e, no ano seguinte, ao nascimento da primeira filha do casal. Aos 20 teria a segunda filha e, poucos anos depois, um segundo marido e mais duas crianças. Aos 36 estava viúva do terceiro marido e aos 40 casava-se pela quarta vez, tornando-se avó aos 44 e sendo galardoada com um importante prémio de carreira - o National Academy of Songwriters Lifetime Achievement Award - apenas com 46 anos de idade (Sheila Weller, Girls Like Us, 2009).

Carole King mantinha um acelerado ritmo de vida, com uma total dedicação à família e à música (o seu ganha-pão e a sua independência), escrevendo canções e gravando, nas mais variadas condições segundo o local onde residia em cada época. Destaca-se o tempo de vida hippie em que se estabeleceu com a família numa casinha de madeira nas montanhas, sem eletricidade nem água potável. Longe de qualquer povoação, teve de tirar uma certificação específica para poder dar aulas aos seus próprios filhos. Enfrentavam com autonomia todas as vicissitudes - o que incluía rachar lenha e mungir a vaca - em especial nos duríssimos meses de inverno, com temperaturas negativas e neve até aos joelhos, em que as comunicações se resumiam ao correio transportado ocasionalmente por esquiadores de passagem.

Desde o início da carreira King só tocava e cantava em estúdio, como autora/arranjadora de canções para outros interpretarem, recusando reiteradamente propostas que incluíssem atuações em público. Mas depois do primeiro encontro com James Taylor - com quem a empatia musical foi de tal forma avassaladora que ela descreve o momento "como se estivesse a tocar com uma extensão" de si própria - King acedeu a participar numa digressão dele como pianista da banda. Taylor, seis anos mais novo e um grande admirador do seu trabalho, não descansou enquanto não a convenceu a cantar uma música a solo num dos concertos, desencadeando assim o início da carreira a solo de Carole King, em 1970, mais de uma década depois de ela ter dado os primeiros passos como profissional.

Têm sido referidas cerca de 400 canções escritas ou co-escritas por King com diferentes letristas. Entre os seus maiores sucessos discográficos figuram vários em n.º 1 das tabelas, como Will you love me tomorrow? (1961, The Shirelles), The Loco-Motion (1962, Little Eva, a baby-sitter do casal King/Goffin) ou It"s too late (1971, C. King). Outros êxitos incontornáveis do seu catálogo são Chains (The Cookies, 1962, que teve no ano seguinte uma versão dos Beatles), ou A Natural Woman, com que Aretha Franklin, em 1967, deixou a sua marca inconfundível no património musical americano.

Mas talvez a canção que melhor tem sobrevivido à passagem do tempo é You"ve got a Friend, letra e música de Carole King, por ela gravada no álbum Tapestry na mesma altura em que Taylor a gravava em single - com alguns dos músicos comuns às duas distintas e carismáticas interpretações - a dela recebendo o Grammy de Canção do Ano e a dele o Grammy da Melhor Interpretação Vocal Masculina, alcançando o n.º 1 das tabelas de vendas. Tapestry (1972) é considerado o seu LP de referência, tendo recebido os Grammys de Álbum do Ano e de Melhor Interpretação Vocal Feminina, com vendas de mais de 25 milhões de exemplares.

Desde finais dos anos 1980 Carole King tem sido reiteradamente galardoada pelo seu trabalho e personalidade criativa, passando a ser reconhecida como uma figura de mérito nacional, imagem que dificilmente se encontra espelhada na sua cativante autobiografia, A Natural Woman (Virago, 2012). O que perpassa nas mais de 400 páginas deste livro é o perfile de uma mulher com uma inesgotável energia criativa, uma mãe dedicada, a força interior com que enfrenta as adversidades da vida - incluindo a violência doméstica que sofreu na pele durante o terceiro casamento - mas uma pessoa sempre comedida em relação à fama e aos perigos e armadilhas que ela representa. E a imagem da intensidade com que se entrega à música desde sempre.

Ao contrário, uma vez mais, de muitas das estrelas da sua geração - como Joan Baez e Bob Dylan, Paul Simon e Garfunkel, ou os eternamente desavindos Crosby, Stills, Nash e Young - Carol King mantém uma relação de proximidade com o seu parceiro de tantas andanças musicais, James Taylor, manifestando ambos, frequentemente, a enorme admiração que nutrem pelo trabalho um do outro. Sentimental? Pode parecer. Mas notável é, de certeza, manter a chama acesa aos 80 anos, depois de mais de sessenta de carreira na voraz indústria musical americana.

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