Cannes celebra a arte de ser ator

A competição de Cannes revelou mais um belo filme francês: Les Amandiers, quinta longa-metragem realizada por Valeria Bruni Tedeschi, é uma evocação da escola de representação dramática dirigida pelo lendário Patrice Chéreau.

Para que serve um festival de cinema? Por certo para nos fazer sentir os atuais contrastes da produção internacional, num ziguezague de boas descobertas e, será sempre inevitável, algumas desilusões. Escusado será lembrar que Cannes possui essa capacidade de agregar uma avalanche de acontecimentos que, para mais, envolvem muitos dos títulos que irão marcar o ano cinéfilo e também, lembram os fãs da estatística, a próxima temporada de prémios.

Agora que vamos a meio da 75.ª edição do festival - voltando a encher a Côte d"Azur depois dos efeitos dramáticos da pandemia, mesmo se há alguns países asiáticos ainda sub-representados -, vale a pena acrescentar uma nota de exaltação de uma ancestral "matéria" dos filmes. A saber: os atores.

Na verdade, os delírios dos efeitos especiais e das aventuras virtuais estão longe de ser o fator mais importante da criatividade cinematográfica. Exemplo trágico disso mesmo é o novo filme de George Miller Three Thousand Years of Longing (exibido extracompetição), confundindo o fantástico com a acumulação de piruetas visuais e cenários gerados pela mais recente tecnologia de manipulação de imagens.

Trata-se de evocar o lendário Théatre des Amandiers, em Nanterre, arredores de Paris, no tempo em que foi comandado pelo não menos lendário Patrice Chéreau.

Lembremos, por isso, o documentário Rommy Femme Libre, de Lucie Caries (revelado na secção de Clássicos), tocante revisitação dos filmes e da vida de Romy Schneider (1938-1982), além do mais coligindo alguns magníficos extratos de entrevistas pouco conhecidas. E destaquemos, sobretudo, o belíssimo Les Amandiers, de Valeria Bruni Tedeschi, filme sobre o qual não será arriscado supor que, de uma maneira ou de outra, irá surgir no palmarés.

Atriz talentosa e versátil, com carreira iniciada em meados da década de 80, Valeria Bruni Tedeschi estreou-se como cineasta em 2003, com É Mais Fácil um Camelo... (produzido por Paulo Branco). Les Amandiers é a sua quinta e brilhante realização (a meu ver a melhor), debruçando-se justamente sobre um peculiar e fascinante universo de atores.

Na sua base estão memórias muito pessoais, ainda que o filme não se apresente como um exercício diretamente autobiográfico. Trata-se de evocar o lendário Théatre des Amandiers, em Nanterre, arredores de Paris, no tempo em que foi comandado pelo não menos lendário Patrice Chéreau (1944-2013), precisamente quando a própria Valeria Bruni Tedeschi lá estudou. Embora sem o explicitar, as duas figuras centrais, de seu nome Stella e Étienne - interpretadas por Nadia Tereszkiewicz e Sofiane Bennacer, duas presenças invulgares, com qualquer coisa de mágico -, transportam muitos sinais (físicos, desde logo) da própria realizadora e do ator Patrick Dewaere (que, em qualquer caso, não foi aluno de Chéreau).

Les Amandiers baralha vida vivida e vida representada, numa cumplicidade terna e cruel que, afinal, reflete as exigências de Chéreau: representar é arriscar tudo, corpo e alma, para exaltar a complexidade de cada ser humano. No papel de Chéreau, Louis Garrel oferece-nos uma das suas composições mais cristalinas e comoventes - seria (ou será?) um belo prémio de interpretação masculina.

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG