Bolo de chocolate é melhor que morrer

Em Dick Johnson Is Dead, Kirsten Johnson filma a morte do pai que, pormenor importante, está vivo - ou como o documentário pode integrar elementos de comédia.

É bem verdade que a abundância da oferta das plataformas de streaming não significa que os filmes mais originais ou, pelo menos, mais consistentes tenham a visibilidade que merecem. Aí está o exemplo de Dick Johnson Is Dead (Netflix). Foi David Fonseca quem, neste jornal, na rubrica "7 dias, 7 propostas" (16 janeiro), primeiro chamou a atenção para as suas singularidades. Entretanto, a realização de Kirsten Johnson adquiriu especial visibilidade na corrida para os Óscares: Dick Johnson Is Dead integra a chamada shortlist dos quinze títulos que poderão chegar a uma das cinco nomeações na categoria de melhor documentário.

Vale a pena, por isso, perguntar de que modo tal facto se reflete na vida comercial do filme. Não para reduzir as plataformas de streaming ao maniqueísmo mais banal: não se trata de as santificar... porque nos dão a ver "tudo", mas também não creio que nos conduza muito longe a sua demonização... porque estão a "matar" o mercado clássico. Sem deixar de recordar que a complexidade dos problemas em jogo não cabe neste texto, permito-me apenas observar que nem mesmo o facto de Dick Johnson Is Dead poder vir a ganhar um Óscar (ou apenas obter uma nomeação) mudou o que quer que seja na triste banalidade da sua promoção. Aliás, uma vez mais, sem ceder a nacionalismos balofos, importa também perguntar: já nem sequer há a preocupação de, pelo menos nos casos em que isso é linearmente possível, traduzir os títulos originais?

Kirsten Johnson fez um filme que faz jus ao seu título: Dick Johnson Morreu. Com uma ironia saborosa. Entenda-se: Dick Johnson, pai da realizadora, sofre de demência, mas com a festiva cumplicidade da filha está apostado em proclamar que a notícia da sua morte é francamente exagerada... Até porque, antes que aconteça qualquer despedida, convenhamos que há ainda muitos bolos de chocolate para comer em pachorrenta degustação.

Assim mesmo: estamos perante um documentário que, sem complexos puristas, se assume também como comédia familiar. Literalmente: a realizadora vai dando conta da discreta multiplicação dos sinais da doença no quotidiano, desde logo pondo em causa a atividade profissional do pai (psiquiatria); ao mesmo tempo, com a sua bem-disposta participação, cria cenas de desconcertante artificialismo cujo tema é... a morte de Dick Johnson.

Deparamos, assim, com um duplo risco: primeiro, encarando o trabalho documental não como uma "transcrição" do que quer que seja, antes como uma matriz narrativa que, com imaginação e rigor, pode integrar as mais diversas componentes, incluindo as que provêm da comédia burlesca; depois, resistindo a formas correntes de abordagem (cinematográfica e não só) das doenças em que predominam a vitimização compulsiva dos doentes ou a culpabilização automática dos médicos (muitas vezes, as duas coisas). Morrer não é uma boa notícia, mas Dick Johnson Is Dead é a prova muito real de que o cinema pode ser um salutar exercício de pensamento e partilha afetiva.

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