Blonde - Iconografia a arder

Com a coragem de colocar o mito à frente da narrativa, Blonde, de Andrew Dominik, já pode entrar na lista dos melhores do ano. Uma revisitação de Marylin Monroe que nos interpela perante a sua solidão trágica. É o filme mais visto da Netflix.

O impacto de um lançamento global de um filme de grande notoriedade na Netflix é cada vez mais um fenómeno dos tempos. É a imprensa quase toda ao reboque dos ecos, avalancha de comentários nas redes sociais e o próprio tema do filme materializado em discussão com caráter de fenómeno mediático. Acontece esta semana desde quarta-feira com a estreia de Blonde, de Andre Dominik, e não aconteceu com Elvis, de Baz Luhrman, lançado na primavera nos cinemas com toda a pompa pela Warner. O biopic "speedado" do Rei foi um sucesso nos EUA mas não provocou esta onda de comentários do filme do neozelandês, nem por sombras. Trata-se de mais uma prova da força e do impacto do streaming e, em particular, ainda da Netflix. "Ainda" porque ao que se diz os números de subscritores estão sempre a baixar. E não se trata também de comparar a perspetiva do alcance dos mitos de Marilyn e Elvis... Na verdade, em Portugal, Blonde atingiu imediatamente o top dos filmes mais vistos no serviço.

Após uma estreia em Veneza em competição que dividiu grande parte dos críticos, Blonde está a ser mais falado na América pelo caráter transgressivo de algumas das suas imagens. Muito do foco do falatório desta obra segue em coro um perfume de escândalo das cenas de nudez ou dos momentos de uma sequência sexual a três (onde se evoca Niagara, de Henry Hathaway), um felatio a JFK ou as cenas de grande plano de vómitos. A bem dizer, a estrutura livre do cinema de Andrew Dominik talvez se dê mal com um lançamento desta escala onde opções como colocar um feto a falar, não haver propriamente informação narrativa do percurso da atriz e apostar-se num ziguezague de preto & branco e cor são "corpos" estranhos. Será o tal embate entre um cinema que privilegia uma viagem mental pelo interior de um mito e as expectativas do mainstream... Tudo isto para reforçar que Blonde é tudo menos uma biografia convencional.

Em primeiro lugar, mais importante que tudo, é conveniente sempre lembrar que se trata de uma adaptação de um romance de Joyce Carol Oates onde se ficcionaliza a vida da atriz (texto aqui ao lado). Carol Oates que já tinha visto uma adaptação de Blonde para a televisão numa minissérie de 2001 de Joyce Chopra que ninguém notou. Curiosamente, no cinema as coisas não lhe têm corrido bem a nível de adaptações: Laurent Cantet, fresco da Palma de Ouro de A Turma, estampou-se ao comprido quando foi aos EUA filmar esse insonso Foxfire - Raposas de Fogo, enquanto François Ozon quis fazer erotismo B com O Amante Duplo, a partir de Lives of the Twins, e deu-se mal. Dominik é seguramente o realizador que terá percebido melhor a maneira de transpor para cinema a sua linguagem.

O filme narra sem fio narrativo momentos da vida e da mente de Norma Jeane e a sua invenção de Marilyn. Está entre a realidade e o que se advinha, mas é tudo iconografia, iconografia e mais iconografia. Insiste numa teoria de que este mito de Hollywood foi sobretudo uma criação dos homens de Hollywood. Norma é aqui uma vítima de um sistema cruel de patriarcado, não só de Hollywood, mas de toda a cultura da objetivação do corpo da mulher na sociedade americana. Temos os pesadelos dela mas também não faltam as armadilhas que foram as deceções do casamento e os abortos. Não se aprofunda muito a sua relação com os filmes e os seus papéis, mas há uma insistência na sua relação de proximidade com Charles Chaplin, Jr e Edward G. Robinson, Jr. Não falta também uma teoria sobre o teor do episódio com o presidente Kennedy nem da sua morte. Em todo o caso, a figura do pai ausente é um gadget usado entre esses "estados de espírito" enquanto vemos a mãe internada num hospital psiquiátrico.

Mais do que uma experiência wagneriana com mensagem neofeminista destes tempos, Blonde é cinema experimental retocado com uma dor e tristeza colossais. Andrew Dominik invoca uma câmara solta para nos colocar na pele desta mulher, um ser suplantado por um mundo com "demasiadas pessoas", demasiados flashes e coisas do mal. Se imaginarmos essa torrente de imaginários com a música de Nick Cave e Warren Ellis talvez fiquemos mais próximos deste pressuposto cénico.

E, Marilyn, pela arte da imensa Ana de Armas, é realmente uma possibilidade de se tocar no impossível. Não só pelo mero mimetismo, mas sobretudo pela forma como a atriz cubana entrou um ideal de ser realmente a mulher que sofreu muitas vezes. Esta Marilyn (ou Norma) de Blonde nunca chegou a viver. Depois de Michelle Yeoh em Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo, Viola Davis em A Mulher Rei e Cate Blanchett, em r, Ana de Armas pode começar a sonhar com nomeação para o Óscar.

dnot@dn.pt

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