Belle: conto de fadas 2.0  

A nova a animação de Mamoru Hosoda, que abriu a 21.ª edição da MONSTRA e chega agora às salas, combina o mundo real e o digital numa reinvenção de A Bela e o Monstro em tempos de redes sociais. Belle é um deslumbre para os olhos, e também dá que pensar.

Quando Bela surgiu na linhagem de princesas da Disney, foi uma lufada de ar fresco. Porquê? Uma das razões é que, ao invés do padrão clássico da loura frágil, tinha uma aparência de rapariga normal. Com cabelo castanho e tudo. Embora noutros moldes culturais, é também essa aparência de "rapariga comum" que começa por definir a protagonista da animação japonesa Belle, uma adolescente de 17 anos, Suzu, neste caso, introvertida e votada ao grau zero de popularidade no liceu, que vive numa bolha de angústia desde a morte da mãe - essa morte valeu a vida a uma estranha, pois ela perdeu a sua salvando-a na corrente forte de um rio (um gesto cujo eco, na última parte do filme, renova o significado da empatia humana). Com um pai emocionalmente distante e imersa nas memórias felizes da infância com a figura materna que lhe ensinou a tocar piano e a cantar, Suzu não consegue sacudir a dor paralisante que lhe prende a voz. É só no momento em que adere a uma plataforma chamada U, com cerca de 5 mil milhões de utilizadores, que o seu "eu" musical, até então fechado a sete chaves, ganha asas...

Não é a primeira vez que o realizador Mamoru Hosoda envereda por universos paralelos. Basta lembrar dois dos seus animes estreados por cá, O Rapaz e o Monstro (2015) e, sobretudo, Mirai (2018), este a retratar o impacto de um recém-nascido no irmão mais velho, que antes monopolizava a atenção dos pais, transformando as suas birras em súbitas viagens no tempo. É certo que a magia e delicadeza de Mirai não se encontram nas mesmas doses em Belle, mas Hosoda não deixa de ter aqui toda uma visão épica do que pode ser recriado no plano digital. É por isso que dentro de U, essa paisagem urbana semelhante a uma infinita motherboard suspensa num céu estrelado, a dinâmica colorida dos avatares virtuais se revela uma experiência deslumbrante.

Nessa metrópole fúlgida, Suzu surge como Belle, uma jovem formosura de longos cabelos cor de rosa, imagem resultante da leitura dos seus dados biométricos, que vai surpreender todas as criaturas de U com uma voz encantadora. À sua entrada tímida na aplicação, que cresce numa melodia pop nunca ouvida por aquelas bandas, segue-se um aumento exponencial do número de seguidores que a transforma num fenómeno instantâneo. E é no meio dessa popularidade que deparamos com o Monstro desta Belle: uma misteriosa figura brutal chamada The Dragon, espécie de lobo com chifres, que interrompe um dos seus espetáculos levando à ação "protetora" dos super-heróis valentões lá do sítio. A partir daqui, Hosoda compõe, passo a passo, a sua versão de A Bela e o Monstro - tendo por referência o clássico da Disney -, com Belle a entrar no castelo da criatura, um lugar somente habitado por ele e um pequeno staff de avatares, para descobrir que afinal este é apenas um ser ferido por algo exterior à arena digital.

Quem é The Dragon? A urgência da descodificação desta identidade leva a um patamar mais sério da relação entre a vida real e a realidade virtual. E, num impulso de melodrama adolescente, acabará por dar azo a uma das sequências memoráveis do filme, com a imensa comunidade de avatares a cantar em uníssono uma das canções de Belle, enquanto ela, em cima de uma baleia e envergando um vestido vermelho florido, dá o espetáculo mais estonteante da sua "carreira" de pop star online.

Conto de fadas pós-moderno, Belle não traz atrelada a mensagem tradicional dos perigos da internet, embora não deixe de ser familiar a sua abordagem da cultura das redes sociais, e mesmo do controlo corporativo (aqui representado pelos ditos guardiões da U). A Mamoru Hosoda interessa, acima de tudo, o modo como esta realidade alternativa pode ser objeto de discurso construtivo enquanto espaço de conexão entre seres magoados pela vida, um lugar onde as pessoas se podem fazer ouvir apesar do ruído. Sem se revelar muito mais, é o mesmo princípio da mãe de Suzu, o princípio altruísta de ajudar quem está em apuros, que fecha o ciclo desta fábula contemporânea.

Com mais ou menos pontos de contacto com aquilo que se passa neste mundo de adolescentes e adultos cada vez mais absorvidos pela existência online, dependentes de um perfil que funciona como escudo social, Belle consegue valer, por si só, na qualidade artística de uma animação japonesa. Quer dizer, um filme que mistura bem a estética e a linguagem digitais com o romantismo de uma narrativa intemporal, para explorar a essência teen do anime, a sua beleza entre o plano realista e a ode tecnológica. E nesse aspeto não é de somenos importância referir que o responsável pelo desenho diáfano de Belle, o sul-coreano Jin Kim, é um dos animadores de longa data dos estúdios Disney - trabalhou em Hércules, Tarzan, Zootrópolis, etc.

Seja como for, o coração de Belle pertence à escola da animação japonesa, com as suas personagens órfãs, artes marciais, fantasia, sensibilidade criativa, e uma específica graciosidade visual que diz mais ao espectador adulto. No panorama moderno, Hosoda continua a revelar-se um dos nomes fundamentais desta escola.

dnot@dn.pt

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