Barbra Streisand: 80 anos à sua maneira

"Hello, gorgeous." Duas palavras que vamos sempre associar à estrela americana mais bem-sucedida das últimas décadas. A completar a sua oitava de vida, neste domingo, eis a mulher com o nome acima de qualquer título.

Numa cena a meio do recente Licorice Pizza, Jon Peters, o cabeleireiro interpretado por Bradley Cooper, pergunta ao jovem Cooper Hoffman se ele sabe quem é a sua namorada. O rapaz responde "Barbra Strei-zand", sem se aperceber do pequeno dislate na locução. Ligeiramente irritado, Peters repete com a pronúncia certa: "Strei-sand, como areia (sand)". Ficam nisto durante uns bons segundos, a tentar acertar a fonética suave do "s", até que se cansam e desistem - o diálogo é curto mas burlesco o suficiente para ficar na memória, e não será a única delícia do filme de Paul Thomas Anderson. Não é isso que vem ao caso. A questão é que por detrás desta situação cómica há tanta veracidade como o facto de Jon Peters ter sido namorado de Barbra Streisand nos anos 1970. A saber, a cantora, atriz e realizadora americana debate-se há décadas pela dicção correta do seu apelido. Ainda em 2016 contactou o CEO da Apple, chateada, porque o assistente virtual inteligente incorria no mesmo erro que Hoffman incorre em Licorice Pizza... A virar mais uma década este domingo, é de apostar que Barbra Streisand continua a preocupar-se com a sonoridade de raízes judaicas do seu nome de família.

Pode a singularidade de um nome corresponder à singularidade de uma artista? Com 80 anos de vida e 60 de carreira, Streisand representa um fenómeno excecional, desde logo sustentando pelos números. É impossível ignorar a dimensão de um animal de palco e de ecrã que acumula dois Óscares, seis Emmys, onze Globos de Ouro, um Tony, dez Grammys, onze álbuns nº 1 (encontra-se no quarto lugar da tabela da revista Billboard, atrás dos Beatles, Jay Z e Bruce Springsteen) e quase 73 milhões de discos vendidos. Mas nem só do somatório de êxitos e distinções se faz o percurso desta "rapariga de Brooklyn". Na verdade, falar de Barbra Streisand é falar de uma estrela improvável, que triturou os clichés da beleza convencional com um nariz grande, uma voz magnífica e um génio performativo evidente desde o primeiro minuto.

No crepúsculo do studio system

Tudo começou em nightclubs, com interpretações jazzísticas. Aos 19 anos já estava na Broadway, a dar os primeiros passos com a peça I Can Get It For You Wholesale (1962). Em 1963, como convidada no The Judy Garland Show, mostrou estar à altura do apreço da veterana anfitriã, com quem fez duetos, e no ano seguinte, o enorme sucesso da Broadway Funny Girl tornou-se o seu passaporte para Hollywood, com a cara que deus lhe deu, de repente, a preencher capas de revista, da Time à Harper's Bazaar.

Com efeito, Funny Girl - Uma Rapariga Endiabrada (1968), o musical de William Wyler, marcou mais do que uma simples estreia no cinema. Recorde-se que a verídica personagem principal, Fanny Brice (1891-1951), célebre comediante nova-iorquina que acedeu à Broadway apesar de não ser "suficientemente bonita", tinha tudo para ser o veículo de Streisand: a questão da aparência, a demonstração de talento e a história de alguém que se atreveu a sonhar alto contra todas as probabilidades. No caso de Streisand, ela sempre quis ser atriz, acima de qualquer outra coisa, porque o poder da voz, esse já era um dado adquirido.

E foi também este "risco" assumido por Hollywood, ao deixar cair por terra as intenções de escolher uma cara bonita para o papel principal, que definiu um momento decisivo, ou melhor, o nascimento de uma estrela. Funny Girl seria o filme mais rentável de 1968, escancarando as qualidades da atriz e da cantora, mas como observou na época a crítica Pauline Kael, contra a perceção generalizada de que a ideia transmitida era a de que não é preciso ser-se bonito para ter sucesso, "a mensagem de Barbra Streisand em Funny Girl é de que o talento é beleza. E isto não é nenhuma mensagem reconfortante para as pessoas comuns, é a definição de show business." Nem mais.

Se há mulher que soube fazer valer o seu talento na indústria artística, tanto cinematográfica como discográfica, foi Streisand. Porém, de nada lhe serviria a inteligência ao serviço da vocação se não tivesse feito o "click" nos espetadores. No final desses anos 1960, ela surgiu no grande ecrã como um ícone da transição do clássico para o moderno, com um aparelho vocal ainda a transportar-nos para a era de ouro dos musicais, mas um jeito desenvolto na interpretação, um traço cómico na franqueza à frente da câmara que indicava uma nova rota, no crepúsculo do studio system. O filme seguinte, Hello, Dolly! (1969), de Gene Kelly, onde interpreta uma viúva casamenteira, é outro exemplo óbvio da tal bifurcação entre os modos clássicos e a respiração moderna que a sua performance trouxe à exuberância do musical (quando este já era um género em declínio). E isso só foi possível de captar porque ambos os filmes giram em torno da sua personalidade.

Senhora de si

Uma certa tendência para o controlo criativo por parte de Streisand sente-se ainda antes de ter realizado Yentl (1983), O Príncipe das Marés (1991) e As Duas Faces do Espelho (1996). Quer dizer, não tanto em comédias como Que se Passa Doutor? (1972), de Peter Bogdanovich, cuja cinefilia tinha a sua própria linguagem nos filmes, mas sim no caso particular do drama A Star is Born/Nasce Uma Estrela (1976), remake de Frank Pierson, com a atriz a seguir os passos de Garland, noutra versão, e, ao mesmo tempo, a entrar mais a fundo no processo de rodagem como produtora executiva e figurinista. Algo que acumulou com a interpretação das canções e a coautoria de duas delas - regista-se o êxito do tema Evergreen, que lhe valeu um Globo de Ouro e um Óscar (o segundo), partilhados com Paul Williams. Foi a primeira vez que uma mulher venceu nesta categoria.

Entre o palco e o cinema, Barbra Streisand foi abrandando a relação com o segundo. Há uma década que não a vemos pelas bandas da grande tela, sendo o último filme que protagonizou - Não Há Culpa Nem Desculpa! - uma comédia esquecível de Anne Fletcher, ao lado de Seth Rogen. Também não correm notícias de um regresso. Parece que, desde o casamento com James Brolin (o pai de Josh Brolin), os prazeres da vida doméstica em Malibu levaram a melhor, embora haja sempre álbuns a sair (Release Me 2 é de 2021) e o anúncio de uma autobiografia que nunca mais se dá por terminada. Diz-se que vai em mais de 800 páginas.

Streisand refere esse work in progress no especial de televisão Barbra: The Music...The Mem"ries... The Magic! (2017), disponível na Netflix. Basicamente o seu último concerto, onde navega pelas memórias de uma carreira plena, com aquele jeito de intérprete calorosa que faz comentários sagazes para espicaçar os lugares comuns que se construíram à volta da sua imagem, como a referida tendência para o controlo artístico. Diz ela, à vasta audiência, que se sente privilegiada por ter sido dirigida, logo no seu primeiro filme, por um realizador da estatura de Wyler, alguém com "mão firme na rodagem" mas disposto a ouvir as suas ideias. Acrescenta ainda que o prazer de realizar está ligado ao gosto de "mandar". Barbra é senhora de si. Uma feminista capaz da maior doçura e da maior ferocidade. Daí a importância que dá também à independência criativa na conceção dos seus álbuns.

Por agora, evitando as aparições públicas e desfrutando das coisas da casa - uma mansão luxuosamente ornamentada na costa da Califórnia -, a cantora diz que é capaz de passar dias inteiros a ler o jornal e a decorar a sua propriedade (com certeza na companhia do marido e das cadelas clonadas da sua falecida Sammie, raça Coton de Tulear). Tem um fraquinho por leilões de antiguidades, um impulso para colecionar e negociar arte, e a razão é bastante simples: "Adoro coisas bonitas. Acho que tenho bom olho para isso. De certa forma, toda a minha vida foi uma busca pela beleza."

Ora aí está. Todos os caminhos vão dar à beleza, ou ao conceito de beleza numa mulher que desafiou os padrões comuns da sua perceção no cinema. E esse facto leva-nos de volta a Licorice Pizza, um filme que remete para a aura da estrela americana noutro aspeto mais determinante do que o diálogo anedótico que citámos no início deste texto: a protagonista Alana Haim. Não é ela digna de ser comparada ao mesmo tipo de carisma e beleza atípica que a atriz revelou ao mundo, há mais de 50 anos, no seu golpe de debutante irrequieta em Funny Girl? "Descoberta" por Paul Thomas Anderson, Alana, cantora e agora atriz, é a prova de que ainda se fazem Barbra Streisands... sem necessidade de recorrer à clonagem.

dnot@dn.pt

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