Bambi. Há 80 anos a fazer chorar meio mundo

Um dos grandes clássicos da Disney assinala oito décadas. Bambi não é só a história trágica da sobrevivência de um veado, mas uma lição sobre o amor que provém do mundo natural.

Um pequeno cervo chama pela mãe, sozinho dentro de um refúgio, depois de uma corrida intensa perante o perigo que pensava ter evitado com sucesso. Pouco antes ouvimos um tiro - não se vê o corpo prostrado pela bala do caçador mas sabemos que a mãe veado não vai voltar ao abrigo. É sempre este momento que vem à memória quando se fala de Bambi (1942), a quinta longa-metragem de animação da Disney, estreada em plena Segunda Guerra Mundial, faz agora 80 anos. Um clássico tão luminoso quanto traumático, que continua a ser uma das referências mais fortes da representação da orfandade nas narrativas ditas infantis. Foi o crítico de cinema Serge Daney quem escreveu, no seu último texto para a revista Trafic, em 1992 (ano da sua morte), que entre os filmes que nunca vira contava-se Bambi: "Ser-me-ia preciso uma vida para reconquistar [a infância]. É por isso que acabarei por ver Bambi." Já Stephen King diz que este foi o seu primeiro filme de terror. E ainda em tempos recentes foi imposto a um caçador furtivo do Missouri, condenado a um ano de prisão por matar veados ilegalmente, que assistisse a esta animação uma vez por mês, como parte da pena...

Sendo uma adaptação do romance Bambi, A Life in the Woods, do austríaco Felix Salten, publicado em 1923, o filme não contém, em todo o caso, o lado mais visceralmente violento dessa obra original. No início deste ano surgiu inclusive uma nova tradução, lançada nos Estados Unidos pela Princeton University Press, que procura reenquadrar o livro de Salten na literatura adulta, dada a sua conotação com o antissemitismo na Áustria dos anos 1920. Em entrevista ao jornal The Guardian, o tradutor dessa nova edição, Jack Zipes, sublinhou na altura do lançamento que "o livro é sobre a sobrevivência na própria casa". Bambi vive sob a ameaça dos caçadores, mas há ainda os animais que traem os outros animais e facilitam a caça. No romance de Salten, a personagem titular fica completamente sozinha - o que é visto como o equivalente à profunda solidão dos judeus, enquanto minoria oprimida.

Esta interpretação amplamente partilhada tem, no entanto, outra leitura por parte da autora e jornalista da The New Yorker, vencedora do Pulitzer, Kathryn Schulz, que escreveu um artigo a propósito da tradução de Zipes: "Bambi não é uma parábola sobre a situação dos judeus, mas Salten às vezes considera a situação dos judeus como uma parábola sobre a condição humana. A omnipresença e inevitabilidade do perigo, a necessidade de agir por si mesmo e assumir o controlo do próprio destino, a ameaça representada pelos mais próximos e pelos estranhos: esta é a apreciação de Salten sobre a nossa existência."

Parábola que antecipava o terror vivido pelos judeus ou não (e a verdade é que o livro foi banido e queimado na Alemanha nazi), Bambi chegou ao grande ecrã sem as marcas de uma suposta mensagem política. Os direitos da obra começaram por ser comprados em 1933 pelo realizador americano Sidney Franklin, que tencionava adaptá-la em imagem real, mas dadas as dificuldades de levar a cabo tal ideia, este acabou por desistir e vender os direitos a Walt Disney em 1937. Disney, por sua vez, quis avançar logo com a adaptação animada - era para ter sido a segunda longa-metragem dos estúdios, depois de Branca de Neve e os Sete Anões -, mas o desejo de retratar a Natureza com o máximo de realismo levou-o a adiar o projeto até ao momento em que considerou ter as condições necessárias para concretizar essa ambição artística.

Assim, com o objetivo de responder a tal perfeccionismo do produtor, e sua recusa de representações caricaturais, os desenhadores chegaram a ter lições com zoologistas e a estudar ao detalhe dois veados, entre outros animais, levados para o interior dos estúdios... Algo que hoje podemos dizer ter dado frutos, ou não fosse Bambi uma das mais belas animações da Disney (alegadamente, a favorita do próprio Walt), com desenhos de absoluto valor pictórico.

Por falar nisso, foi de um pintor chinês a grande contribuição para os cenários impressionistas da floresta. Tyrus Wong, que veio a ser nomeado o diretor de arte do filme, conferiu-lhe maravilhosos enquadramentos de paisagem que "limpam" a visão do espectador conduzindo-o no foco das personagens. Um dos mais notáveis desses enquadramentos é aquele em que aparece pela primeira vez o pai de Bambi, veado majestoso cuja presença inspira a reverência dos outros, por se tratar do mais antigo sobrevivente da sua espécie na floresta.

Uma sinfonia visual

Para quem nunca reviu o Bambi depois do choque de infância causado pela morte da mãe veado (e pelo incêndio florestal que acontece perto do fim), talvez seja surpreendente reencontrar o encanto desta fábula que celebra a Natureza de uma forma lírica - escute-se a banda sonora composta por Frank Churchill e Edward H. Plumb, com temas cantados por solistas e um coro.

De resto, o que acontece no filme é, essencialmente, a vida. O "pequeno príncipe" nasce em plena Primavera, é visitado por vários animais da floresta, torna-se amigo de Tambor, o coelho traquinas com quem experimenta os primeiros saltos e aprende as primeiras palavras, cresce com medo da trovoada e de uma presença maligna chamada "Homem", que põe a sua mãe em alerta antes de entrar no prado... Quando se dá a morte da progenitora, toda esta felicidade parece desaparecer com a lágrima que irrompe no olhinho amendoado de Bambi, mas ele aprende a sobreviver e a deixar-se levar pelo espírito das estações, como aquela que incentiva as hormonas e o amor. Digamos que a Natureza voltará a cantar, mesmo com a mão humana por perto (o American Film Institute colocou a presença do "homem", que nunca é visto no filme, em vigésimo lugar na lista dos 50 maiores vilões do cinema).

E é aqui que o clássico da animação difere do romance de Felix Salten. Na versão da Disney o reino animal é um paraíso apenas ameaçado pelo Homem, ao passo que Salten escreveu sobre um lugar, por si só, marcado pela fome, competição e predação, onde a vida anda a par com a morte. Como notou Kathryn Schulz no já citado artigo da The New Yorker: "O filme parece menos anti-caça do que simplesmente anti-humano. A moral implícita não é tanto sobre a perversidade de matar animais, mas sobre como as pessoas são perversas e os animais selvagens inocentes." Por isso o que retemos de Bambi é a beleza natural e a harmonia da convivência das espécies - características que servem os propósitos narrativos de um "antiquado e sentimental" Walt Disney, que soube converter qualquer discurso em pura sinfonia visual.

Na altura da estreia, o filme não foi propriamente bem-sucedido. Por um lado, devido ao contexto da guerra, por outro, porque o público tinha-se habituado a ver outro tipo de magia nas produções Disney (e esta, já de si, era a produção que se seguia aos fracassos de Pinóquio e Fantasia). Porém, o tempo fez-lhe justiça e Bambi tornou-se um dos mais populares títulos da história dos estúdios. Os dados numéricos apontam para 47 milhões de dólares alcançados após quatro décadas do seu lançamento, e é hoje um dos mais influentes contos sobre a Natureza e o modo como a concebemos. No fundo, uma fábula ambiental.

As suas imagens, tão artisticamente preciosas, foram já várias vezes reutilizadas noutras animações dos estúdios, como sejam os pormenores de folhas ou pássaros. Mas mesmo as suas personagens aparecem numa ou noutra produção, como por exemplo, a mãe de Bambi no primeiro plano de A Bela e o Monstro (1991), ou juntamente com o filhote em As Aventuras de Bernardo e Bianca (1977). No universo Disney, nada se perde, tudo se transforma. Como acontece no mundo natural.

dnot@dn.pt

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