Auschwitz, cidade tranquila

Podemos não saber, mas ainda precisamos de histórias sobre os campos de concentração nazis. O Relatório Auschwitz, produção eslovaca de Peter Bebjak, está aí para avivar a memória com olhar de cinema e pulso firme.

Há um debate antigo à volta da representação do Holocausto no cinema. Terá começado com Kapò (1960), de Gillo Pontecorvo, cujo tratamento dramatúrgico suscitou uma célebre crítica do cineasta Jacques Rivette, e teve outro momento polémico com A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg, que levou Claude Lanzmann a defender publicamente que o Holocausto não era assunto para ser retratado pela ficção - Lanzmann, recorde-se, autor do monumental documentário Shoah (1985), que apresenta, numa duração de nove horas, testemunhos do extermínio nazi recolhidos ao longo de 12 anos. O mesmo realizador que, em 2015, no Festival de Cannes, manifestou o seu agrado em relação ao filme do húngaro László Nemes, O Filho de Saul, centrado num Sonderkommando (os prisioneiros judeus forçados a trabalhar nas câmaras de gás). Sendo este uma abordagem ficcional, o que é que o fez mudar de opinião? Lanzmann considerou que o filme de Nemes era "anti-Lista de Schindler", não inventava e nem tentava "representar", estando ainda acima disso o facto de ser húngaro. "O Holocausto para os húngaros foi qualquer coisa de muito particular. Começou mais tarde, na primavera de 1944, e os nazis mataram 400 000 pessoas em poucos meses", referiu na altura.

Recuperamos a essência deste debate a propósito da estreia de O Relatório Auschwitz - um título que nos leva de volta aos horrores dos campos de concentração de Hitler - porque o valor da abordagem dramática continua a depender da sensibilidade de cada realizador quanto à forma de "mostrar" o que nenhuma imagem pode traduzir inteiramente, por mais gráfica que seja. E contra a possível perceção de que é "só mais um filme" sobre o infame capítulo da história da humanidade, temos a dizer que o eslovaco Peter Bebjak contornou muito bem a questão: para além de uma história que ainda não tinha sido contada no grande ecrã, o filme forja uma linguagem de ângulos e movimentos de câmara que escapa às convenções do muito que já se viu (sem verdadeiramente se ter visto) do Holocausto no cinema.

O Relatório de Auschwitz retrata o caso verídico de dois prisioneiros judeus eslovacos, Rudolf Vrba e Alfréd Wetzler, que em 1944 conseguiram fugir do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau (aquele que Primo Levi chamou de "cidade tranquila", um "nome vazio que não faz eco") levando consigo informações do que realmente se passava dentro desses campos, na esperança de abrir os olhos ao mundo e conseguir travar o sofrimento e terror infligidos pelos nazis aos judeus que ainda viriam a ser deportados. O máximo que terão conseguido com o seu relatório sobre o massacre em massa foi impedir o governo húngaro de transportar mais de 100 000 judeus para Auschwitz nos últimos meses da guerra. Mas o que perturba nesta história, para lá de qualquer dimensão física do horror, é mesmo o momento final em que, perante um cético representante britânico da Cruz Vermelha, a narrativa dos dois homens soa demasiado inconcebível para os ouvidos de quem sempre acreditou na versão propagandística dos colegas da Cruz Vermelha alemã. Primeiro estrategicamente afastada, a câmara de Bebjak vai-se aproximando da mesa onde o alto funcionário recebe o relato dos dois fugitivos, e o que acaba por vir ao de cima, quando a lente termina o trajeto com o foco no seu rosto, é a culpa burocrática de ter sido cúmplice dos crimes nazis. Uma culpa coletiva, bem entendido, que deve ser capaz de responder à única pergunta de Wetzler: "O que vão fazer em relação a isto?"

O filme arranca ainda dentro do campo de concentração. No início, a dupla esconde-se debaixo de umas paletes de madeira, à espera da altura certa para escapar, enquanto decorrem as buscas e os colegas de barracão são sujeitos a tortura de fome e frio, alinhados ao relento - Bebjak filma essa crueldade entre a sugestão, a atmosfera e a sombra, com a nobreza inquebrantável de alguns dos prisioneiros a conferir o mínimo de calor à desumanidade eximiamente enquadrada nas imagens. Quando a fuga acontece, os homens que carregam o testemunho das atrocidades puxam os seus corpos frágeis até ao limite correndo por florestas em direção à fronteira polaco eslovaca, com a ajuda de membros da Resistência que encontram pelo caminho. E, mais uma vez, é a câmara de Bebjak que faz a leitura justa da vertigem de cada sequência, sem cair na tentação do exibicionismo: a lente mede a pulsação das personagens. Caso para dizer que o diretor fotografia, Martin Žiaran, tem aqui também um papel fundamental na gestão de tons, quase sempre descolorados, que procuram ser fiéis aos elementos do drama, ao mesmo tempo que revelam uma compreensão fina da seriedade, mais do que estética, de cada plano.

O Relatório Auschwitz destaca-se por esse equilíbrio entre o que tem de ser mostrado e o modo como é mostrado, erguendo um retrato pungente e necessário do que, definitivamente, não pode ser esquecido. Por se tratar de uma história firmada na importância do testemunho, talvez Claude Lanzmann (1925-2018) tivesse apreciado, tal como apreciou O Filho de Saul... E, de repente, temos um filme eslovaco nas nossas salas. Coisa raríssima.

dnot@dn.pt

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