Assinalar com arte o bicentenário das relações de Portugal e Argentina

Os Viajantes sem Bagagem, a partir de 3.ª feira no Museu Nacional dos Coches, é a exposição com que a embaixada da Argentina se propõe celebrar 200 anos de relações diplomáticas com Portugal. O artista, Antonio Seguí, é um "velho" conhecido dos portugueses.

Imagine-se um quizz em que nos perguntam o que sabemos sobre a Argentina. A primeira resposta meterá invariavelmente um par de dançarinos de tango, a dança mais sensual alguma vez inventada. A segunda há-de ter a ver com Maradona, el Pibe, o homem que já era um deus das chuteiras antes da famosa mão no Mundial de 1986. E, no entanto, apesar deste desfile de estereótipos, Portugal e a Argentina têm uma longa História comum, já que o nosso país foi o primeiro Estado (a seguir ao Havai, hoje parte dos Estados Unidos) a reconhecer a independência da Argentina, que se tornara independente da Coroa Espanhola em 1816. A 28 de julho de 1821 - há 200 anos, portanto - o português João Manuel de Figueiredo entregou as suas cartas credenciais como agente de relações comerciais e representante do governo português em Buenos Aires. Para assinalar a efeméride, a Embaixada da Argentina em Portugal traz a Lisboa a exposição Os Viajantes sem Bagagem, de Antonio Seguí, patente na galeria de exposições temporárias do Museu Nacional dos Coches de 21 a 26 de Setembro.

Admirador confesso de Seguí (nascido em Córdoba, Argentina, em 1934), o embaixador daquele país em Lisboa, Rodolfo Gil, explica assim ao DN as razões desta escolha: "É uma honra partilhar com os portugueses a obra de um dos maiores génios artísticos que a Argentina ofereceu ao mundo nos últimos anos. A sátira social, a desconstrução da vida urbana e a permanente mescla entre o real e o fantástico que encontramos nas telas de Seguí não têm paralelo e evocam uma época de ouro na Argentina." O diplomata frisa ainda a relação de Seguí com Portugal, traduzida no mural de azulejo da estação de metro Oriente em Lisboa:

"Nenhum outro artista argentino tem uma relação tão estabelecida com os portugueses, em virtude do painel em azulejo que criou para a estação do Oriente. Há mais de 20 anos que Seguí faz parte do quotidiano dos portugueses. A sua obra foi vista por milhões de pessoas neste país e, nesse sentido, será uma importante protagonista das comemorações do 200.º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre a Argentina e Portugal."

À parte o referido mural de azulejo, esta não é a primeira vez que a obra de Seguí é vista no nosso país. Maria Arlete Alves, da Galeria 111, recorda as exposições que o espaço lhe dedicou em 2002 (Porto) e 2005 (Lisboa): "É um artista de grande importância, com obras nos museus mais importantes do mundo, do MoMA ao Guggenheim, passando pelo Centro Georges Pompidou. A ironia e o humor que põe em tudo, mas também a denúncia de todas as formas de prepotência do mundo (a começar pela ditadura feroz que vigorou no seu país), tornam-no um artista aclamado pela crítica, w muito querido pelo público."

Como Maria Arlete também frisa, tudo começou cedo na vida de Seguí, "desde logo, a determinação em se tornar artista". Aos 17 anos já estava em Madrid para estudar na Real Academia de Belas-Artes de São Fernando. Seguir-se-ia Paris e a École Nationale des Beaux-Arts, onde estudou Pintura e Escultura. Em Paris, aliás, viria a radicar-se em 1963, e ali permanece, mas frisando sempre, como recorda Maria Arlete, "que não se tornou francês, continua a ser argentino."

A influência da arte ibero-americana na sua obra é, aliás, manifesta, já que Seguí a estudou a fundo, não só no seu próprio país, mas também no México ou na Colômbia, em diversas viagens de estudo que fez desde a juventude. A sua imagem de marca é a denúncia do ritmo avassalador da vida nas grandes cidades, em telas e ilustrações cheias de personagens conduzidas a grande velocidade por algo que as ultrapassa, mas sem transcendência. Assim surgem os pequenos homens, sempre retratados em movimento e vestidos de igual, até nos chapéus, numa confessa citação da Buenos Aires da sua infância, onde era impossível a um homem respeitável sair à rua... em cabelo. "Mesmo quando é satírico - diz-nos ainda Maria Arlete - as personagens dele, masculinas ou femininas, têm expressões muito duras ou pesadas. Estão impecavelmente vestidos, eles de fato ou sobretudo, elas de sapatos de salto alto (e o rigor que ele põe nesses pormenores é maravilhoso), mas os rostos estão sempre fechados. Não são personagens felizes ou sequer leves."

Embora não seja um otimista, Antonio Seguí, hoje com 87 anos, parece ter encarado com estoicismo os constrangimentos ditados pela pandemia. Numa entrevista ao jornal argentino Clarín, em outubro de 2020, dizia ter aproveitado o confinamento para ler e trabalhar mais. E porque não era um entusiasta do "velho normal", esperava realmente um mundo melhor para o pós-pandemia: "Haverá muitas mudanças na sociedade. Ainda não sei quais, mas há uma sociedade que tem de desaparecer, certo mundo financeiro, um capitalismo radical, tudo isso acabará por dar lugar a um novo tipo de solidariedade. Estou convencido."

dnot@dn.pt

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