Anozero: A noite em Coimbra por uma lente feminista

A segunda parte da bienal de Coimbra de 2022, Anozero, traz a temática da noite e vai estar espalhada por quatro polos da cidade até final de junho.

Até 26 de junho decorre, em Coimbra, a segunda parte da quarta edição da bienal de arte contemporânea da cidade, denominada: Anozero. Uma "viagem" pela cidade e pela noite disponível de forma gratuita. Esta é também edição com um olhar feminista e que pela primeira vez tem a curadoria de duas mulheres: Elfi Turpin e Filipa Oliveira. As duas curadoras inspiraram-se nos morcegos da Biblioteca Joanina no Paço das Escolas da Universidade de Coimbra para a temática. A colónia que vive na biblioteca protege os livros ao comer lagartas e insetos durante a noite, criando uma relação com o clima e desenvolvendo uma espécie de ecossistema.

A bienal junta 35 grupos de artistas, oriundo de vários lugares do mundo, mas todos com ligação a Coimbra. "O território que partilhamos, o da noite, é onde se pode desenvolver diferentes práticas e ter acesso a diferentes planos de realidades, diferentes géneros. O que se sente de dia não se sente à noite. A ideia comum deste evento é a ideia da noite e de um espaço para a resistência e onde se pode produzir cultura", explicou Elfi Turpin ao DN na abertura da Bienal de Coimbra.

A mostra deste ano, ao contrário das edições anteriores, conta com menos espaços, tornando a experiência mais intensa e concentrada. A exposição está espalhada por quatro espaços: Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, CAPC Círculo Sereia, CAPC Círculo Sede e a Estufa Fria no Jardim Botânico.

O Mosteiro é o espaço que acolhe a maior parte da coletiva um edifício que está cheio de história e o nosso maior desafio foi relacionar tudo com este monumento. Foi muito desafiador para toda a gente", afirmou Elfi Turpin.

Por sua vez, é a peça de Elisabetta Benasse que abre a exposição no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. Um diálogo ficcional entre o poeta Sandro Penna e Pier Paolo Pasolini. Os dois holofotes estão posicionados de frente um para o outro, mas com 200 metros de distância no corredor do mosteiro. Acendem e apagam como se estivessem a conversar, criando uma sensação de desorientação para quem passa no corredor. "Quero fazer um impacto físico com este tipo de peça e com as luzes. Acho que é uma experiência no espaço, até porque o corredor é muito longo e impressionante", explicou Elisabetta Benasse.

Espalhados pelas salas do monumento podemos encontrar obras de outros artistas. Numa das salas está em exibição a peça de Ru Kim - Olho, Nariz, Boca, Ouvido, Testa, Queixo, Maçã do rosto, Sobrancelha. A obra fala de três situações específicas relacionadas com a água: o rio na Coreia do Sul com a ponte dos suicídios, o mar mediterrâneo, onde a Europa fechou as portas aos refugiados e, por último, a questão do lítio nos rios em Portugal.

"Água: Eu estava a nadar no Rio Han em Seul, estava perto da ponte Mapo quando alguém veio a correr para mim. Eu segurei-os enquanto eles morriam. Ainda sinto o calor deles." lê-se numa das placas penduradas na sala.As cordas penduradas no teto da sala são feitas de planta de abacá; estas são produzidas nas Filipinas e têm a qualidade de ficarem mais fortes e mais difíceis de partir quando estão molhadas.

O nome da obra foi retirado da ponte Mapo que atravessa o rio Han. Essa ponte é conhecida pelas pessoas que querem cometer suicídio. Há uns anos atrás, quando Ru Kim passava pela ponte, viu uma frase num registo diferente. "Quando li a frase pela primeira vez achei que era uma forma única de imaginar alguém que gostamos ou pensar em alguém antes acabares com a tua vida".

Do outro lado do corredor, noutra sala, encontramos a peça de Maja Escher. Começou a ser desenvolvida em dezembro, quando a artista começou a visitar Coimbra e a interessar-se pela relação entre a própria cidade e o rio. "Interessou-me este conviver e este conflito dos dois lados diferentes do rio: cheio e vazio." disse Maja Escher ao DN. O rio Mondego levou Maja a perguntar-se qual seria a voz do rio e se era possível perceber o que o rio levaria consigo. Um processo de trabalho de campo que levou a caminhadas tanto pela cidade como pelo rio, no qual foram recolhidos objetos, materiais, canas, histórias e memórias. "Fizemos uma descida de barco que foi determinante e foi mediada pela escuta imersiva de perceber todos os seres que encontrávamos e esta vontade de fazer um mapa cantado desses lugares e desses encontros é também fundamental."

Saindo do mosteiro e passando para a CAPC Círculo Sede, espaço que faz parte do ciclo de plásticas e que integra sempre a bienal, encontramos o trabalho de Meris Angioletti. A artista transformou a Sede na sua própria casa, numa "Casa de Sonhos". Pela a casa estão expostos os trabalhos da artista, cruzando-os com as obras de Aurélia de Souza, Mary Beth Edelson e Lastenia Canayo. A casa dos sonhos recebeu também um workshop, onde os visitantes puderam passar uma noite na sede. Estiveram presentes leitores que contaram os sonhos de diferentes pessoas, como histórias.

Na Estufa Fria do Jardim Botânico está o trabalho de Diana Policarpo, uma experiência imersiva com luz azul e vermelha, rodeados pela natureza e a voz da artista a recitar um poema em inglês que explora a figura da deusa. "Eu vejo-te mas não me consegues ver." é uma das frases que se ouve pelas colunas da estufa.

Este local foi um dos espaços favoritos das duas curadoras em Coimbra e foi o primeiro pedido que as duas fizeram para a Bienal.

O quarto espaço do Anozero é o CAPC Círculo Sereia. Aqui foi feita a Bibliotera, uma biblioteca que se vai construindo, de Filipa César, Marinho de Pina, Marta Lança e Sónia Vaz Borges. Ao longo do espaço, estão espalhadas caixas de madeira de transporte, que servem de bancos e livros doados. Depois de expostos na bienal, esta Bibliotera vai para Malafo na Guiné-Bissau. Por sua vez, o CAPC Círculo Sereia vai receber desde conversas a leituras acompanhadas sobre livros e diferentes literaturas. Na última sala, está em exibição um filme da Filipa César e da Sónia Vaz Borges com a temática de educação em África.

Até junho, Anozero vai seguir uma agenda de eventos, conversas, visitas e atuações que tratam todas as temáticas da bienal.

mariana.goncalves@dn.pt

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